Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CAIXOTINS

O sapateiro e as chinelas

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

CAIXOTINS

Carlos Brickmann (*)

Os veículos de comunicação, com raras exceções, estão perdendo o fôlego financeiro. A ANJ, Associação Nacional de Jornais, calcula que a circulação de seus associados caiu 12% em dois anos. A publicidade rende menos 2,8% para os jornais, e menos 4,8% para revistas (informações extraídas de reportagem de Cláudia Izique para a revista Negócios da Comunicação). Não restou alternativa exceto recorrer ao Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) ? ou, em última instância, ao governo.

Não restou alternativa?

Bom, vários veículos construíram novas, modernas e luxuosas sedes ? mais visíveis, mais confortáveis, mais apropriadas, mas que não acrescentaram um só exemplar na circulação nem um só centavo na publicidade.

Enquanto a circulação caía, compraram equipamentos moderníssimos de impressão, capazes de imprimir mais exemplares, mais depressa ? e, considerando-se o custo dos financiamentos, muito mais caro.

Vários veículos saíram de suas áreas específicas para investir em cabeamento para TV, em empresas de telefonia celular, em empresas de capitalização, em transmissoras e produtoras de conteúdo para TV a cabo ou via satélite. Houve revista que montou TV, houve TV que entrou nos títulos de capitalização, houve jornal que pediu empréstimo em dólares para entrar na área de telecomunicações (e perder o investimento mal feito), houve empresa jornalística que investiu em táxi aéreo.

Os gurus da administração, todos eles, recomendam que a empresa se dedique ao que sabe fazer ? em administrativês, aquele inglês falado pelos gurus, "a seu core business". Este colunista reconhece que nem sempre é agradável ler esses textos. Então, que se leia um cavalheiro que sabe escrever: Machado de Assis. Ele já dizia, citando os clássicos, "não vá o sapateiro além das chinelas".

Os meios de comunicação endividados vão ao BNDES, conversam com o presidente Carlos Lessa, vão ao governo, conversam com o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, vão ao Palácio, conversam com o presidente Lula, sempre em busca de ajuda financeira.

Qual a condição que têm os veículos mais endividados para fazer uma boa cobertura do governo?

Faz uma semana, justinho, que estes Caixotins mencionaram o eterno problema dos jornalistas com os números: milhão, bilhão, milhar, é tudo a mesma coisa. Pois não é que saiu na imprensa, logo em seguida, que 500 passageiros de um MD-11 ficaram retidos no aeroporto, enquanto o avião aguardava uma peça. O fato deve ser real ? só que no MD-11 não cabem 500 pessoas. Cabe mais ou menos a metade. No mundo, há apenas um avião, o maior dos Boeing 747, que em uma configuração específica, para vôos internos de baixo custo no Japão, recebe este número de passageiros.

O senador Antonio Carlos Magalhães, do PFL baiano, foi claro ao chamar o senador Jorge Bornhausen, presidente de seu partido, de "ladrão". Depois mandou uma carta dizendo que não era bem assim, que o senador Bornhausen é um homem probo e honrado, e tudo ficou por isso mesmo.

Para o partido, tudo bem: ao aceitar a carta de ACM, na verdade um velado pedido de desculpas, fez abortar uma crise que poderia causar-lhe sérios problemas. Para a imprensa, não pode ser assim: ou um é ladrão, e cabe a nós, jornalistas, mostrá-lo como realmente é, ou o outro é leviano e mentiroso, e novamente nos cabe o ônus da informação.

A prefeita paulistana Marta Suplicy, do PT, disse que assumiu o cargo com as finanças devastadas pelas duas últimas administrações. Em carta ao jornal, a assessoria de Paulo Maluf (a primeira das "duas últimas administrações") garante que entregou a Prefeitura com dinheiro em caixa. Também em carta ao jornal, a assessoria de Celso Pitta, o prefeito seguinte, diz que a Prefeitura foi entregue em excelentes condições, com dívidas renegociadas e dinheiro no banco. Sempre em carta ao jornal, a assessoria da prefeita garante que ela teve de fazer um hercúleo esforço de reconstrução.

O jornal deve publicar as cartas, claro. E deve também publicar uma boa reportagem, com números e boas análises, mostrando em que condições a Prefeitura passou de Maluf para Pitta e de Pitta para Marta. Função de imprensa não é ser apenas veículo de xingação.

Não ser racista não é apenas chamar a população negra de "afrodescendente" ? aliás, segundo as mais recentes descobertas sobre a origem do homem, todos somos afrodescendentes, de Gilberto Gil a Xuxa. Não ser racista é evitar que, nos veículos de comunicação, formadores de opinião, externem preconceitos contra determinados segmentos da população. O articulista ou colaborador de um jornal não pode culpar "os nordestinos" pelos problemas das cidades do Sul (a propósito, São Paulo já elegeu uma prefeita nordestina, que continua a ter a admiração de boa parte da população).

O racismo que mais se manifesta neste momento, entretanto, é o anti-semitismo. Os anti-semitas estão deixando o armário; estão abandonando o tradicional disfarce de dizer-se "anti-sionistas" (o que, levado ao limite, é a mesma coisa: a liquidação do ideal sionista, o Estado de Israel, só é possível com o massacre de alguns milhões de judeus). Hoje, procuram atacar diretamente os judeus. Como diz o jornal francês Le Monde, "o anti-semitismo está se tornando um sentimento banal. As condenações da política de Israel nos territórios palestinos tornaram fluidas as fronteiras, já tênues, entre anti-sionismo e anti-semitismo".

A imprensa já tomou posição para lutar em favor dos direitos humanos?

(*) Jornalista; e-mail <carlos@brickmann.com.br>

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