Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > **

O susto maior foi aqui

Por lgarcia em 19/08/2003 na edição 238

BLECAUTE EM NOVA YORK

Beatriz Singer (*)

O evento foi o mesmo. Mas a forma como a notícia foi alardeada nas capas de jornais brasileiros fez parecer que se tratava de assunto distinto do apagão americano divulgado nos EUA. Ocorrido na tarde de quinta-feira (14/8), o blecaute foi capa de todos os jornais nas edições do dia seguinte. Enquanto no Brasil o destaque das manchetes alardeou o "medo" da população de que se tratasse de um ataque terrorista semelhante ao 11 de setembro, nos EUA o tom foi outro, bem mais factual.

Não se trata de uma opinião, mas da análise de dados. No Brasil, no dia 15/8 todos os principais jornais deram destaque à lembrança do terrorismo em Nova York:

** Manchete da Folha de S.Paulo: "Blecaute atinge EUA e Canadá e causa medo". Na linha-fina: "Hipóteses para a causa incluem queda de raio e curto-circuito; medo de atentado atemoriza NY". Uma reportagem no primeiro caderno foi intitulada "Apagão revive clima do 11 de setembro em NY."

** Manchete do Estado de S. Paulo: "Blecaute provoca medo e caos em N.York". Na linha-fina: "Cidade voltou a viver o temor de atentado terrorista, embora a falta de energia tenha sido atribuída a uma sobrecarga". Matérias na seção internacional foram intituladas "Fantasma do 11/9 volta a NY" e "?Todos queriam saber se era terror?".

** Manchete de O Globo: "Apagão pára Nova York e espalha o medo". Na linha-fina: "Blecaute atinge 14 cidades nos EUA e no Canadá, e faz americano lembrar o 11 de setembro".

** No Jornal do Brasil, sob o chapéu "Medo em Nova York", na capa, artigo de Augusto Nunes recebeu o título "A profecia foi cumprida". Outros artigos da edição foram intitulados "Blecaute assusta EUA e Canadá" e "Multidão lembrou o 11 de setembro".

** "Blecaute causa pânico nos EUA e no Canadá", manchete da Gazeta Mercantil.

** "Blecaute reacende o medo nos EUA", manchete do Zero Hora.

No mesmo dia, nos EUA, os principais jornais diziam:

** "Grande blecaute de 2003", manchete principal do Boston Globe. Ainda na capa, em manchete secundária, "Corte atinge milhões nos EUA e no Canadá".

** Sob chapéu "Falha de energia histórica", o Chicago Sun-Times exibia em destaque a palavra "blackout" acima da linha-fina "Milhões de Detroit a Nova York presos em metrôs lotados, trânsito e arranha-céus. Para muitos o único jeito foi voltar para casa a pé".

** "50 milhões ficam sem energia", manchete do Chicago Tribune. Na linha-fina: "Maior blecaute da história atinge cidades dos EUA e do Canadá".

** Em letras garrafais, o New York Post publicou a palavra "paralisados". Abaixo, a manchete "Nova-iorquinos encalhados em enorme blecaute".

** Manchete do New York Times: "Colapso da energia traz blecaute ao nordeste, atingindo cidades de 8 estados e o Canadá; interrupção no meio do dia atrapalha milhões". Manchete secundária de capa: "Frustrada, humorística e gananciosa, uma Nova York sem energia sobrevive".

** Manchete do Washington Post: "Blecaute causa paralisação em massa". Na linha-fina: "Milhões sofrem sem energia de Nova York e Detroit a Toronto". Em menor destaque, ainda na primeira página, uma referência ao terrorismo em Nova York na manchete sob chapéu "Na cidade de Nova York": "Recentemente traumatizada, [a cidade] se confronta novamente [com o medo]"

** "Falha de energia enorme atinge cidades importantes dos EUA e do Canadá", manchete do Wall Street Journal. Em linha-fina: "Sem sinais de ligação com terrorismo".

** "Miséria do blecaute" , manchete do USA Today. Na linha-fina: "50 milhões afetados no nordeste com a falha no fornecimento de energia". A última manchete de capa fez referência ao 11 de setembro: "Mais desconforto que angústia em NYC, apesar do medo inicial."

** "Falha de energia atinge nordeste", manchete do Washington Times. Na linha-fina: "A maior da história dos EUA de Nova York a Detroit".

Percebe-se que até mesmo tablóides como o NY Post não deram ao fato a dimensão que jornais brasileiros ditos deram. O USA Today e o Washington Post foram os únicos a trazer uma referência mais direta à associação com o terrorismo que muitos nova-iorquinos fizeram nos primeiros momentos do apagão. O WS Journal tratou de esclarecer na capa que a relação com o terrorismo fora descartada.

Na Europa, os jornais não deram a notícia nas edições de sexta (15/8) porque, pelo fuso horário, já passava em muito da hora do fechamento. O britânico The Guardian, por exemplo, deu destaque ao caso David Kelly. Os que conseguiram publicar o assunto, diferentemente dos diários brasileiros noticiaram sem dramas: "Um apagón colapsa Nueva York y otras ciudades de EE.UU y Canadá", titulou El País.

Enquanto aqui o destaque ficou para o medo do terror ? sensação que, diga-se, durou pouco e, em vista da descontração e solidariedade que dominaram as ruas de Manhattan, foi menos significativa do que o próprio blecaute ?, nos EUA a tônica da imprensa foi noticiar o caso, suas histórias e desdobramentos. Como deve ser.

(*) Colaborou Dennis Barbosa

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