Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO ENRON

O telhado de vidro da mídia

Por lgarcia em 24/07/2002 na edição 182

CASO ENRON

Revelado o escândalo da Enron, a imprensa americana se apressou em condenar as práticas financeiras da gigante energética. O que muitos não sabem, no entanto, é que as empresas noticiosas agem de forma semelhante, revela o veterano crítico de mídia Howard Kurtz, em sua coluna do Washington Post [18/7/02].

É o caso do New York Times, conta ele. Há cinco anos, a New York Times Company fez acordo financeiro com a Enron sobre o preço do papel-jornal. A empresa fixaria um valor para o produto: se subisse, a editora ganharia desconto da parceira; se caísse, pagaria a diferença. A idéia era desafogar os custos do jornal. O acordo, que deveria vigorar de a 2008, foi cancelado quando a Enron faliu.

“Não doeria mencionar este relacionamento ? estivessem nossos repórteres cientes dele ?, mas é inconcebível pensar que nosso jornalismo foi influenciado”, afirma o porta-voz do Times, Toby Usnik, admitindo que o diário só tocou no assunto em matéria de dezembro passado. Ele garante que a separação “Igreja-Estado” vigora entre o departamento comercial e a redação, e que o jornal já assumiu opiniões que entraram em conflito com decisões da companhia.

Outra prática muito criticada pela imprensa é a remuneração de altos executivos pela concessão de opções de ações em condições especiais, não contabilizadas, entretanto, como gastos da empresa. O NYT reconheceu num editorial de março que premia altos funcionários com opções de ações. É o caso, continua Kurtz, das 150 mil ações dadas ao presidente do grupo, Arthur Sulzberger Jr., que valem quase US$ 2 milhões ? e não entram nas despesas.

Esse conflito entre a prática e o editorial se repete em muitas empresas, como a Tribune Co., editora da Chicago Tribune ?, que em março defendeu o registro no balanço da concessão de opções de ações. Mas os US$ 5,3 milhões repassados a seu presidente, John Madigan, não foram contabilizados como despesas, embora ele tenha adquirido ações da Tribune no valor de US$ 1,9 milhão. A prática também vigora em empresas como Gannet (USA Today), AOL Time Warner (dona da CNN), General Electric (NBC), Disney (ABC) e Viacom (CBS).

O Washington Post, onde Kurtz trabalha, diz condenar tais práticas ? “que zombam da contabilidade das corporações” ao permitirem a concessão de “milhões de dólares em opções de ações sem registrar um centavo de despesas” ?, mas fez o mesmo até o ano passado. De agora em diante, promete o presidente da Post Co., Donald Graham, a empresa vai contabilizar tais concessões como gastos. Uma exceção é a Dow Jones, editora do Wall Street Journal, que não contabiliza tais custos, mas defende a prática abertamente: um seu editorial disse que as opções de ações “alinham os incentivos da diretoria aos interesses dos acionistas”.

Kurtz revela que a mesma confusão ocorre quando o assunto é o pagamento de auditorias, (firmas contratadas para analisar as contas e detectar eventuais irregularidades) por serviços de consultoria. Um exemplo é a Arthur Andersen, que foi responsabilizada pela destruição de documentos da Enron. O Post apoiou projeto de lei recentemente aprovado pelo Senado que limita a dupla atividade dessas empresas, como auditoras e consultoras. Mas a própria Post Co. pagou no ano passado US$ 880 mil por serviços de auditoria e US$ 626 mil por consultoria à PricewaterhouseCoopers, que ainda recebeu US$ 3,8 milhões pela auditoria e US$ 5,4 milhões por consultoria da Viacom, mais US$ 8,7 milhões e US$ 36 milhões, respectivamente, da Disney. Lembra Kurtz que a Price foi penalizada em US$ 5 milhões, pagos à Securities and Exchange Commission, por não se ter mantido independente das empresas que auditou.

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