Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO DE ALTO RISCO

O trabalho dos "não-incorporados"

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

JORNALISMO DE ALTO RISCO

Leneide Duarte-Plon, de Paris

"Os olhos do mundo estão em Bagdá pelo olhar dos jornalistas do Hotel Palestina." A frase de um jornalista francês, dita numa rádio parisiense na manhã de segunda-feira (14/4), é tão verdadeira quanto o desconforto que esses jornalistas causam aos interesses das forças aliadas de verem notícias uniformizadas em todos os veículos do mundo.

O Hotel Palestina foi e ainda é o centro de comunicação da capital iraquiana, onde estão hospedados todos os correspondentes de guerra estrangeiros. E foi nele que, em 8 de abril, uma terça-feira, um tanque das forças da coalizão mirou e atirou, deliberadamente, matando dois jornalistas e fazendo três feridos. Americanos e britânicos justificaram o ataque ao hotel dizendo que havia um atirador no alto do prédio, mas vários jornalistas entrevistados declararam que essa explicação era absolutamente falsa. Não havia nem tiros nem movimento de qualquer espécie no último andar do hotel, a não ser as máquinas dos fotógrafos e cinegrafistas. `

Numa carta enviada ao secretário americano de Defesa Donald Rumsfeld, a ONG Repórteres sem Fronteira pediu ao governo Bush a prova de que nem o Hotel Palestina nem o escritório da rede al-Jazira foram atacados deliberadamente. Na carta, o secretário-geral da organização RSF Robert Ménard declara que um filme feito pela rede francesa France 3, além do testemunho de vários jornalistas, mostra que a situação estava calma no momento em que o tanque americano se preparou tranqüilamente para atirar na direção do hotel.


"O filme e as testemunhas contradizem a versão americana do tiro defensivo. Até o momento, podemos suspeitar e acusar o exército americano de ter tomado os jornalistas como alvo deliberadamente e sem prévio aviso. Cabe ao exército americano provar que não se tratava de um ato deliberado que visava dissuadir os jornalistas a continuarem a trabalhar em Bagdá."


Depois desses ataques, vários correspondentes foram instruídos por seus veículos a deixar Bagdá. O jornal comunista L?Humanité chegou a dar, em 9 de abril, uma capa com a manchete "Massacre sem testemunhas", declarando que a presença dos jornalistas "não-incorporados" incomodava americanos e ingleses que querem dar uma versão única dos fatos relativos à guerra com imagens e texto "dirigidos" pelas tropas da coalizão.

Robert Ménard dizia ainda, em sua carta a Rumsfeld, que os jornalistas estão inquietos por verem "a atitude do exército americano cada vez mais hostil em relação aos jornalistas, particularmente aos ?não-incorporados?". Ele diz que muitos jornalistas "não-incorporados" se queixaram de terem sido expulsos da fronteira do Kuwait com o Iraque e ameaçados de ter suas credenciais retiradas. Outros foram detidos e interrogados por várias horas. Quatro desses jornalistas foram detidos, mal-tratados pela polícia militar americana e ficaram incomunicáveis durante 48 horas.

Os jornalistas "incorporados" ou "integrados" ("embedded", em inglês) são aqueles que seguem as tropas com tudo o que o verbo "seguir" significa em termos de proteção e de subordinação. Num texto extraordinário publicado nos jornais Le Monde e The Guardian, a escritora Arundhati Roy afirma:


"Os jornalistas ocidentais ?integrados? receberam o status de heróis trabalhando nas linhas de combate. O trabalho de jornalistas ?não-integrados? como Ragh Omaar da BBC ? chocado com os corpos de crianças queimadas e outros feridos ? era colocado sob suspeita, antes mesmo que eles começassem a matéria, com a frase : ?Devemos informar que essa reportagem é controlada pelas autoridades iraquianas?".


A escritora comenta que quando os aliados bombardearam a sede da televisão iraquiana (o que, segundo ela, é condenado pela convenção de Genebra), houve comemoração grosseira nos meios de comunicação americanos.


"Na realidade, há algum tempo a Fox TV fazia uma campanha para que o ataque fosse feito. Ele foi visto como algo justificado contra a propaganda árabe. Mas as principais redes de TV americanas e britânicas continuam a se gabar de serem ?equilibradas?, mesmo quando a propaganda nelas atinge níveis inimagináveis".


Utilização do aparelho midiático

O sociólogo francês Loïc Wacquant, que foi um colaborador muito próximo de Pierre Bourdieu, analisa com precisão o trabalho desses jornalistas "incorporados" ou "integrados":


"A grande inovação dessa guerra no plano da propaganda é o ?embedding? ou ?incorporação? de jornalistas no seio das unidades militares, isto é, a integração de fato do aparelho midiático à administração da guerra. Este dispositivo permitiu que os que iriam partir com as tropas fossem submetidos a um treinamento físico e psicológico intensivo, o que fez com que esses jornalistas se identifiquem totalmente com os ?seus homens?, sejam completamente desprovidos de autonomia de ação e de investigação e absolutamente dependentes da informação fornecida pelo oficial do exército. Eles se tornam, de fato, por total adesão, agentes publicitários do Pentágono. Em suas reportagens, esses 600 jornalistas "incorporados" não mostraram imagens de vítimas civis".


Se os "incorporados" não mostraram essas imagens, outros o fizeram. Na edição de final de semana do jornal Le Monde, com data de 13 e 14 de abril, o fotógrafo belga Laurent Van der Stockt, da agência Gamma, sob contrato com o New York Times Magazine, dá uma belíssimo exemplo do que pode ser uma reportagem apurada por um jornalista independente. Sob o título "Eu vi os marines americanos matar civis", Van der Stockt (que acompanhava o redator do NYTM Peter Maas) faz um relato emocionante da guerra, que revela bestas-feras como o capitão Bryan P. McCoy ? que dá ordens de atirar em qualquer pessoa que se dirige na direção dos soldados, inclusive mulheres, crianças e velhos ?, mas também prova que mesmo no inferno existem seres humanos como Doug. Este, quando vê um carro se aproximar, prefere atirar no motor ou no pneu, em vez de mirar seus ocupantes. "Ele salvou dez vidas em duas horas, fazendo com que os civis que vinham na nossa direção dessem meia-volta", conta Van des Stockt, que acompanhou durante três semanas a progressão do 3? Batalhão do 4? Regimento até a tomada de Bagdá, em 9 de abril.

Van der Stockt ouviu soldados atônitos dizerem: "Não estou preparado para isso, não vim aqui para atirar em civis". E viu um pai iraquiano segurando um filho e uma filha feridos perguntar, dentro do carro, ao ser socorrido pelos dois jornalistas : "Não entendo, eu estava caminhando com eles pela mão. Por que não atiraram no ar ou mesmo em mim?"

Se Van der Stockt e Maas fizessem parte dos "incorporados" não teriam se permitido escrever um relato desses sobre "seus homens". E a morte gratuita de civis iraquianos não teria sido contada.

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