Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

O vale de ossos secos

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

CASO TIM LOPES

Capítulo 1 de Narcoditadura

Veio sobre mim a mão do Senhor; Ele me levou pelo Espírito e me deixou no meio de um vale que estava cheio de ossos, e me fez andar ao redor deles; eram mui numerosos na superfície do vale, e estavam sequíssimos. Então me perguntou: Filho do homem, acaso poderia reviver estes ossos? Respondi: Senhor Deus, Tu o sabes. Disse-me Ele: Profetiza a estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Deus a estes ossos: Eis que farei entrar o espírito em vós, e vivereis. Porei tendões sobre vós, farei crescer carne sobre vós, sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis. sabereis que Eu sou o Senhor. Então profetizei segundo me fora ordenado; enquanto eu profetizava houve um ruído, um barulho de ossos que batiam contra ossos e se ajuntavam, cada osso a seu osso. Olhei, eis que havia tendões sobre eles, e cresceram as carnes e se estendem pele sobre eles; mas não havia neles o espírito. Então Ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize﷓lhe: Assim diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. Profetizei como Ele me ordenara, e o espírito entrou neles e viveram e se puseram em pé, um exército sobremodo numeroso. (Livro de Ezequiel, Antigo Testamento, cap. 37, versículos 1 a 10)


Não havia brilho e só as lágrimas tomavam conta dos amigos e companheiros de Arcanjo.

Eles estavam reunidos, no mais pesado dos silêncios, contemplando um caixão onde havia apenas pedaços de ossos, porque as carnes haviam sido devoradas dentro de um tonel com a borracha de pneus e querosene queimando, para apagar de vez qualquer vestígio de sua existência. Um pedaço desses ossos, o que restou de uma costela, levado para exame de DNA na Universidade Federal do Rio de Janeiro, havia permitido, 33 dias após o seu desaparecimento, a angustiante identificação.

Decidido, pertinaz, Arcanjo tinha sido reduzido a ossos porque estava filmando horas antes as proximidades de um baile que começaria às 23 horas, onde entre músicas funk e muita cocaína, adolescentes seriam incitadas a manter relações sexuais com adultos, numa grande festança coordenada por traficantes de drogas. Identificado como jornalista, Arcanjo foi dominado. Deram-lhe tiros nos pés, para não haver a menor possibilidade de fugir. As mãos estavam amarradas para trás quando Arcanjo foi colocado dentro do porta-malas de um carro pequeno e levado imediatamente à presença do bandido-chefe do bando que controla drogas, armas, munições, tráfico, consumo e prazeres que ignoram leis e códigos. Para ele, Arcanjo era um intruso, um inimigo. O bandido improvisou a composição de um tribunal, em tom solene. A pena de morte foi votada e aprovada. O bandido, chefe e julgador, decidiu também ser o carrasco. Armou-se com um punhal enorme para abrir o tórax de Arcanjo, golpeando-o seguida e furiosamente. O sangue espirrou por todos os lados, tingindo de vermelho a roupa dos fiéis seguidores do bandido. Antes, as pernas ? as duas pernas ? haviam sido cortadas, vagarosamente, para prolongar o sofrimento, e o Arcanjo, amarrado, rolava de dor pelo chão, gritando que nunca mais faria reportagem desse tipo, que sendo libertado deixaria o Brasil para nunca mais voltar.

Depois, o resto do corpo foi sendo cortado. Um dos bandidos presentes sentiu repugnância da fúria dos açougueiro de carne humana, quis afastar-se do inferno onde haviam enfiado o Arcanjo, mas Elias Maluco segurou-o: "Bandido que é bandido tem que olhar!" O grande chefe mandou um dos cúmplices comprar gasolina e óleo diesel. Tirou uma nota de 5 reais do bolso e entregou-a ao escolhido para a compra, recomendando que fosse rápido. O bandido mandou um outro cúmplice comprar querosene. Esquartejado, o que restou do Arcanjo foi transportado para um pequeno buraco entre pedras. Os assassinos já estavam acostumados. Chamavam debochadamente esse buraco de Microondas, referindo-se a ele como se fosse um forno. As partes do corpo arderam nas chamas. Quando estavam calcinadas, fumegantes, um dos bandidos aproximou-se, sorridente e feliz com o poder do bando senhor da vida e da morte, e acendeu um cigarro nas brasa humanas. Tragou prazerosamente.

A fogueira de gente deixou apenas ossadas e a parte interna dos pneus, um friso de aço que não se consome com o fogo porque para desaparecer precisa ser submetido a uma temperatura entre 1.400?C e 1.600?C. Só num forno próprio, portanto. Não bastaria um microondas. As chamas do pneu queimado provocam uma fumaça altamente prejudicial à saúde, come se o Arcanjo, já sem vida, estivesse emitindo a sua última mensagem: a droga que corrói a saúde também aniquila corações, embota raciocínios. A fumaça negra, densa, carregada, não se dissolve por completo. Boa parte retorna à superfície. Por isso não é permitido queimar pneus. Mas os bandidos queimaram. Queimaram muito. Pneus e gente. Pneus e ideais. Pneus e dignidade. Pneus e caráter. Pneus e cidadania. Pneus e ética. Pneu e humanismo. Pneus e humanidade. A fumaceira subiu na noite escura e com poucas estrelas no céu. Depois, quando os assassinos já estavam longe, a fumaça, como que envergonhada de si mesma, foi voltando, voltando. Aquela vergonha não poderia ser totalmente dissolvida. Aquela vergonha tinha que voltar e clamar. E a poluição voltou, como testemunha inconformada que não queria desaparecer, insistindo em deixar vestígios, sinais, provas.

Os ossos eram sinais de que o forno da morte ardia impiedosamente, numa freqüência que ali não espantava mais ninguém. Como se a vida fosse apenas um jogo, ganhar ou perder, e ali apenas se perdia, porque contrariar vontades e decisões do bandido-chefe eram atos que somente poderiam acabar assim. O caixão com um pouco do que restou do Arcanjo foi velado no prédio da Assembléia Legislativa, para um enterro no domingo, 7 de julho, no cemitério Jardim da Saudade. Arcanjo morreu num domingo, 2 de junho. A saudade seria grande demais. E o Arcanjo merecia descansar num jardim.

Quase um mês depois, 2 de agosto, amigos e companheiros de Arcanjo estavam perplexos com a brutalidade. Não sabiam o que pensar, o que dizer, o que fazer, agrupados ali, dentro do auditório da ABI, Associação Brasileira de Imprensa, no Centro do Rio de janeiro, esperando alguma voz de esperança, uma palavra de consolo, um alento. Como se todos tivessem, também, sido atingidos no peito por aqueles golpes de punhal, pelas chamas implacáveis daqueles pneus que deixavam aros e aros, aqueles círculos que chegaram a ficar avermelhados, aqueles frisos de aço que restaram. Muitos círculos, clareados de novo, grandes anéis. Frisos provas da morte do Arcanjo. Frisos prova da cremação de anônimos e anônimos, dezenas e dezenas. Frisos símbolo da morte por atacado e desaparecimento dos corpos.

Mas logo os olhos teriam ainda menos brilho. Eram cerca de duzentas pessoas. Jornalistas, amigos e parentes. As lágrimas correram mais fortemente, ardentes, incontroláveis, porque agora eram os corações que estavam em chamas, quando a querida companheira de Arcanjo começou a dizer como se sentia, o que gostaria que acontecesse, como se de repente tivesse o poder de, pela palavra, fazer um réquiem, prestar uma homenagem póstuma mantendo viva a memória de seu amor, expressando ainda o que gostaria de receber dos amigos dele:

Há um mês Tim me deu um beijo e saiu para trabalhar Parece que foi ontem, tão forte e viva é a presença dele junto de mim. Parece uma eternidade, tão grande é a saudade. Fica o vazio e fica a serenidade, apesar da dor. Fica o nosso amor imenso impresso dentro do meu peito. Fica o exemplo para os nossos meninos, Diogo e Bruno. Fica tudo que compartilhamos nestes últimos dez anos. Fica a certeza de que este país tem que mudar, de que as pessoas vão mudar este país. Porque nós podemos fazer isso. Somos todos irmãos, filhos do mesmo Pai, humanos com a essência divina, por isso capazes de transformar, sim, o desespero em esperança, a discórdia em união, o caos num mundo melhor.

Alessandra Wagner, a mulher de Tim, falou pausadamente. Parecia inexplicável, naquele ambiente onde se reagia com espanto diante da ousadia do banditismo, como se a idéia dos executores fosse mesmo causar grande impacto, fazendo calar toda voz de jornalista que ousasse contar o que eles fazem e gostam de fazer. Na última reportagem de sua vida, Arcanjo Tim, como se fosse mesmo um anjo protetor, foi atender ao clamor dos moradores da Vila Cruzeiro, inconformados com o delírio da cocaína pública, o desrespeito de muitos adultos às meninas no baile, transformando o sexo em espetáculo a ser visto e aplaudido, mandando para o inferno as normas previstas nos códigos e estatutos. Mas onde essa mulher encontrava forças? De onde as tirava para falar essas coisas incríveis, nesse momento perigoso em que a indignação poderia se transformar em ódio e rancor, confundindo justiça com vingança, como se essas reações pudessem aplacar tanto sofrimento? Foi a voz serena da mulher de Tim, Arcanjo que ouviu os apelos dos mal-aventurados moradores daquele lugar, que antes de pedir socorro à Rede Globo de Televisão bateram inutilmente às portas de todas as Polícias, do Ministério Público, do Poder judiciário, do Conselho Tutelar? Tim era mesmo um arcanjo? Ou o primeiro na hierarquia dos anjos era Tim? Tim eco solitário nos berros em tanto deserto?

Há um mês tentaram levar para longe de nós o Tim. Não conseguiram. Os seus algozes pensaram que poderiam acabar com o Tim. Pensaram que poderiam calar o Tim. Eles não sabem nada. A imprensa séria, companheiros de ideais, os amigos verdadeiros vão gritar ainda mais forte agora. Eles quiseram ter certeza de que não sobraria nada do Tim. E dividiram o homem de bem em vários pedacinhos, sem contar que cada um deles viraria semente e frutificaria no alto do morro e, do alto do morro, no coração de cada um de nós. Seus carrascos, numa atitude insana, acabaram por multiplicar Tim Lopes. E, quem sabe, a quinta estrelinha no peito de cada brasileiro hoje não atenda pelo nome de Tim?

Alessandra falava das cinco estrelinhas no auge da euforia do Brasil pela conquista do título de pentacampeão mundial de futebol. Tim nasceu no ano em que a seleção brasileira perdeu um título que já se considerava ganho, jogando contra o Uruguai, no Maracanã. E morreu nos primeiros dias da competição que levaria ao quinto título. Falando com a alma, Alessandra estimulou amigos e colegas de Tim a serem multiplicadores de ideais e convicções, de coragem e determinação em ser olhos, ouvidos e bocas da sociedade que, descrente e decepcionada com as instituições, recorre cada vez mais aos veículos de comunicação, cujas redações passam todos os dias por momentos em que parecem ter sido transformadas em modernos pátios de milagres. Alessandra quer que o marido Arcanjo reproduza o mito de Osíris, no Egito antigo, quando o sol, ao fim do dia, vai se transformando em muitas estrelas.

Seus torturadores agiram a seu modo, da maneira mais desumana, cruel e implacável. Que a nossa polícia, os nossos governantes e a nossa sociedade reajam, agindo também! Depressa, certeiros. Implacáveis no mais sincero sentimento de justiça. Dando um basta à violência, à omissão, ao descaso. Que cada um de nós abra seu coração para os dramas alheios! Que cada um tome para si a responsabilidade de construir um mundo melhor!

A viúva do Arcanjo não sabia exatamente qual seria o alcance de suas palavras. Nem todos, embora chorassem de tão comovidos, foram solidários como era esperado nos atos públicos em que se contava com muita força e união. Houve dias em que era mais comum outro tipo de gente, como mães de desaparecidos, cuja presença era mais expressiva do que a dos jornalistas. Aos poucos, e gradativamente, as manifestações tinham como eixo os amigos e companheiros de Tim, agrupados em torno do Sindicato dos Jornalistas e da Federação dos Jornalistas.

Que os 170 milhões de brasileiros que foram às ruas torcer e vibrar com a nossa seleção voltem às ruas! Para cobrar ação de nossas autoridades, a fim de que tenhamos de volta nosso direito a uma vida livre e segura; para exigir justiça; para clamar por paz.

Só assim teremos verdadeiramente o que comemorar como cidadãos brasileiros. Só assim o martírio de Tim Lopes não terá sido em vão.

A mulher de Tim usou a temível palavra, antes evitada, para retratar a agonia e morte do marido: martírio. Sim, Arcanjo foi martirizado. Baleado nos pés, mãos amarradas, arrastado pelas ruas da favela como se fosse um troféu de caça. Os traficantes transpiravam ódio, furiosos com uma matéria (Feira das Drogas) que ele havia produzido para a TV Globo, mostrando os traficantes vendendo maconha e cocaína como se estivessem anunciando a venda de verduras e frutas numa feira livre. Mas aqui, exatamente aqui, colocam-se os pés em terreiro movediço: traficante manda, tem dinheiro e tem poder, compra e corrompe, impõe suas regras ? próprias, rígidas, particulares, fatais ? em praças, ruas e becos, avenidas e bairros, casas e apartamentos. Quem usa a droga faz o jogo do traficante. O traficante está em toda parte porque encontra consumidores em todo lugar. No círculo vicioso desse mercado com oferta e procura, venda e uso, doses e usuários, transações e dependências, para muitos o traficante é uma figura simpática, invejável, aquele que teve coragem de encarar e desafiar a sociedade, com apoio daqueles que fumando, cheirando ou injetando uma substância que entorpece o corpo, dizem ? conscientemente, inconscientemente ? não à razão. Como se não tivessem mesmo nenhuma vontade de ter razão no mundo de regras tão injustas, tão desiguais, que de tão desordenado justifica, dizem, as muletas psicológicas embaladas em pacotinhos, trouxinhas e papelotes, no varejo, e grandes embalagens, disfarces renovados e carregamentos, no atacado.

O sacrifício de Arcanjo Tim Lopes provocou o entrelaçamento de situações e circunstâncias que movem o jornalismo de investigação ? no qual Tim era mestre ? em direção ao poderoso e triunfante crime organizado e uma de suas vertentes: o tráfico de drogas.

O jornalismo desse tipo é solitário quando se procura entrar nas sendas do crime. Absolutamente solitário, porque muito raramente existe com quem repartir a angústia do caminho percorrido aos poucos, da coleta de documentos, da busca das fontes (muitas das quais não basta localizar, é preciso convence-las a falar) e dos riscos que se pode correr em determinado momento. O jornalista investigativo administra ele mesmo, quase sempre sozinho, a sua própria situação.

O crime organizado tem uma classificação que já diz tudo. Possui estrutura, hierarquia, vozes de comando, infiltração nos Poderes públicos. São tentáculos fortes e de longo alcance, asfixiantes e corruptores, com fantástico poder de intimidação. O tráfico de drogas é um de seus ramos. Negócio excelente, clientela farta, lucros com a venda do produto, produto que nunca tem qualidade de pureza, vem sempre misturado, mas o consumidor não tem com quem reclamar. Relação vendedor-comprador com critérios rígidos: como não existe cartório de protesto, não se tolera a inadimplência. Devedor é sempre cobrado a tiros e facadas, nem sempre com aviso prévio. Os traficantes fazem de tudo para o negócio se desenrolar sempre de maneira segura.

Policiais do mundo inteiro, ligados à Associação Internacional dos Chefes de Polícia, reúnem﷓se todos os anos. Começaram o terceiro milênio com uma constatação fruto de intercâmbios múltiplos: 85% de toda a droga remetida chega ao ponto de destino, é vendida e consumida. Repressão e prevenção costumam detestar a informação porque os dados são atestado do fracasso. A contaminação policial por parte dos traficantes assusta em muitos lugares. Até as melhores organizações policiais admitem ? como se revelou no encontro que realizaram no Canadá em outubro de 2001 ? que já se considera tolerável o índice de corrupção que não passe de 5% do total do efetivo de cada corporação. Não passando disso, acham que está bom demais. Os policiais não são extraterrestres, vêm da própria sociedade, dizem. E se a sociedade é corrupta…

Essa situação levou os traficantes a introduzirem um sistema no Brasil: o seguro informal. Toda remessa de maior porte exige o pagamento de uma indenização automática caso a carga enviada não seja entregue regularmente. Quando a Polícia faz uma grande apreensão, os traficantes raciocinam rapidamente: como jamais acreditam na eficiência das investigações, mostram convicção de que alguém ligado ao próprio grupo forneceu, por algum motivo, a preciosa informação. Esse alguém tem que ser identificado, localizado e morto. O mais rapidamente possível.

Era com esse tipo de gente que Tim Lopes deu a sua ultima cartada profissional. Foi à favela filmar com uma microcâmera oculta para mais uma reportagem﷓denúncia. Comentou﷓se, na Polícia, que o piscar de uma pequena luz vermelha teria chamado a atenção dos traficantes. Mas o discreto equipamento que Tim utilizava não tinha esse dispositivo. Cuidadoso, o jornalista foi para o lugar do baile num carro alugado, vestindo uma bermuda jeans e uma camisa de malha, cor clara. Era noite de domingo, 2 de junho de 2002. O motorista Rudman Castro deveria apanha-lo num lugar previamente designado, por volta de 22 horas. Tim não apareceu conforme haviam combinado. No carro alugado, um Fiat Uno, estavam o seu telefone celular e uma agenda eletrônica. O motorista foi embora dez minutos depois da meia-noite. Às 11 e meia da manhã, o advogado da TV Globo, Paulo Freitas, registrou oficialmente o desaparecimento do jornalista na 22? delegacia, informando que esta tinha sido a quarta vez que Tim Lopes fora ao local ? duas sem microcâmeras e duas com o equipamento. Os traficantes haviam construído um pequeno parque de diversões na entrada da favela, para atrair crianças e assim constranger policiais em caso de invasão do morro.

O que aconteceu foi sendo desvendado aos poucos, mas nunca totalmente. Arcanjo defrontou-se com Capeta, ou seja, um dos bandidos do bando chefiado por seu executor, muito conhecido como Elias Maluco. Foi André da Cruz Barbosa, o André Capeta, quem abordou o jornalista, ajudado por Maurício de Lima Bastos, o Boizinho. Os dois, com um rádio transmissor-receptor nas mãos, avisaram o chefe Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco. Da Vila Cruzeiro, no bairro da Penha, Tim foi levado para a Favela da Grota, no Complexo do Alemão. Ali, os dois traficantes juntaram-se ao chefe e a Renato Souza de Paula, o Ratinho, que tinha sido filmado por Tim limpando um fuzil durante a reportagem sobre a feira de drogas.

A busca ao corpo de Tim mostrou que execuções sumárias e queima de corpos eram comuns no Complexo do Alemão. Dezenas de ossadas e esqueletos foram localizados. Numa contagem superficial, os achados evidenciaram provas de mais de duzentas mortes. A investigação sobre Tim Lopes trazia à tona muitas outras mortes. Ossos secos por toda parte, enterrados, mal sepultados, como se a matança e a incineração fizessem parte do cotidiano dos traficantes.

O DNA identificou Tim Lopes. As outras ossadas continuaram anônimas. Quem seria a fonte, o elo de contato entre o jornalista e as pessoas da favela? Arcanjo não tinha a menor idéia de que corria o sério risco de virar personagem de sua própria tragédia e saiu de casa tranqüilo, com um beijo em Alessandra, certo de que estaria de volta antes da madrugada. Não teria como saber, quando tudo se consumou, que muita gente iria preferir ficar no lavabo de Pilatos, lavando convenientemente as mãos. E, muito provavelmente, nessa macabra história de poucas informações definitivas, recebeu um traiçoeiro beijo de judas. Veremos.

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