Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA E DROGAS

O vício do dogmatismo científico

Por lgarcia em 15/08/2001 na edição 134

MÍDIA E DROGAS

Cláudia Rodrigues (*)

A questão das drogas passa por um dos mais intrincados problemas da humanidade e talvez um dos mais antigos: o dogmatismo, verdades indiscutíveis, coisa em que o mundo científico está enterrado até o pescoço e teima em se enterrar cada vez mais. Motivos? Comerciais, econômicos, empresariais, políticos, institucionais.

Aparentemente, em uma camada superficial, a ciência visa o que deveria ser o seu interesse mais profundo: a relação com a natureza para angariar benefícios à humanidade. Poderia ser a soma de conhecimentos humanos considerados em conjunto, mas falta ao universo científico atual a parte conjunta, as subjetividades. Falta aos cientistas conhecimento de algo primordial: a filosofia, o que tornaria a ciência menos soberba e conseqüentemente mais humana, mais imperfeita, mais tolerante, menos tecnicista e mais flexível. Então não é ciência. Não mesmo. Não essa ciência que temos hoje, essa narcociência de verdades absolutas, comprometida com a tal da economia falida que insiste em bater na mesma tecla da concentração de renda.

É por falta de visão filosófica, por exemplo, que toda semana surgem novas verdades a respeito de vários assuntos e alguns meses depois nova pesquisa surge para invalidar a descoberta.


Difícil harmonia

Na área da alimentação chega a ser cômico. Carne faz mal, carne não faz mal, viva o brócolis, abaixo a margarina, salvem-se na ginko biloba, cuidado com o excesso de vitaminas, tome vitaminas. O que mais dói é ver esse monte de pesquisas encomendadas virar pautas "sérias". E depois tudo revirado algumas matérias mais tarde, pois há pressão de laboratórios, anunciantes, fabricantes. Cai a venda de vinhos e lá vêm matérias em série falando na bebida dos deuses e por aí vai. A imprensa cumpre um papel de cafetina para uma ciência comprometida com doutrinas para lá de encomendadas. Por isso fica a pulga atrás da orelha quando The Economist dá uma matéria de 16 páginas ao problema das drogas.

Na área médica a situação já não é cômica, pois as tragédias são muitas. Excesso de cirurgias, exames desnecessários, choque anafilático, septicemias, medicamentos que viciam e desestabilizam a vida orgânica e emocional de pessoas que sequer optaram conscientemente por se drogar. Parece mais lícito e menos perverso que alguém queira fugir da realidade fazendo uso de alguma droga ilegal por livre e espontânea vontade do que ir parar na mão de um psiquiatra convencional por desespero de causa. E cito a psiquiatria convencional porque é um dos ramos da medicina mais dogmáticos que existem e que mais sucesso fazem na imprensa. Ou será que ninguém lembra dos remédios que a imprensa tornou famosos, como Lexotan, Prozac, Depakote?

O óbvio passa em branco. Drogas desestabilizam o funcionamento químico do corpo e algumas pessoas precisam disso, de uma forma ou de outra, em alguma fase de suas vidas.

Pode o corpo, por várias e subjetivas razões, desejar se enterrar sozinho numa garrafa de cachaça, em cinco baseados por dia, numa picada, em várias fileiras de pó, ou simplesmente buscar ajuda politicamente correta para dar conta de problemas emocionais de difícil resolução, já que é duro mesmo conseguir levar a vida em harmonia trabalhando como cão em países que não prezam seus cidadãos, seus estudantes, como é o caso do Brasil.


Paga para divulgar

Somos anormais, somos imperfeitos e acima de tudo singulares, cada um de nós. Estamos urgentemente necessitados de pessoalização, de autoconhecimento e absolutamente encharcados por dogmas vindos de doutores soberbos que vêm nos falar de processos irreversíveis e verdades absolutas que já chegam distorcidas diante de nossos olhos por uma imprensa leviana que adora dizer algo que nunca foi dito.

A questão das drogas é mais ampla, está acima dos dogmas e não é doença de alguns. É doença de todos, é sintoma de uma civilização infeliz subjugada por uma economia perversa cujas metástases já atingiram as áreas da educação e da saúde há muito tempo.

E o que se faz para educar o jovem drogado, para levá-lo a descobrir prazeres maiores do que fumar um back? O governo faz a parte dele naquela propaganda em que mostra um garoto que fuma maconha como um idiota que esquece o nome da namorada.

O governo, o mesmo que não fornece boas escolas nem bom sistema de saúde, entra em um literal combate às drogas discriminando o usuário de maconha. A mídia divulga, é paga para isso. O psiquiatra substitui a maconha por um antipsicótico, um antidepressivo, uns tempos de internação. Essa meleca bem-aparamentada, e que está longe de ser uma solução, é para os ricos. Para os usuários pobres sobra muito pouco além do tráfico e da overdose.


A droga da hora

O debate sobre as drogas começa na ponta de um baseado e termina muito longe de um usuário contumaz. É bem provável que o âmago da questão esteja nos excessos dos caretas de carteirinha, que nada relativizam. Mais importante do que efeitos irreversíveis causados por essa ou aquela droga seria pesquisar a relação entre droga e desemprego, droga e globalização, droga e falta de escola, droga e buracos existenciais nesse refinado regime escravocrata.

Mas isso não cabe à ciência. A ciência está a serviço de dominar a natureza humana em benefício de alguns. Então temos os doutores do saber falando de conseqüências, supostamente irreversíveis, e não de causas, cada vez mais gritantes.


Esse moça, Cláudia Rodrigues, não entenderr que cientista viver para prrovar verdades, que cientista prrecisar trabaiar para emprresa e ganhar dinheiro, que cientista não ser sociôlogo nem filôsofo, que cientista não tem que verr que mêdico também receitar drogas. Cientista só saber que drroga fazer mal para neurrônios e que cientista fazer sua parrte separada do todo desde que prrove algum coisa imporrtante que satisfaça patrrão emprresário. E se medicina se beneficiarr disso, governo fazer prropaganda discriminatôrria e mídia usar inforrmações de maneira leviana, cientista não terr culpa, cientista ficar famoso, aparrecer na revista é conseqüência de trrabaio imporrtante que cientista fazer parra humanidade.


Em tempo, antes que me esqueça, já consumi muitas drogas ilegais: maconha, cocaína, haxixe, ópio e ácido por vários anos na juventude. Parei de consumir há mais de 10 anos e para isso não precisei ser internada, nenhum pastor, padre ou psiquiatra me salvou, e nem acho que foram aqueles anos os anos em branco de minha vida, nem anos negros e nada dessa baboseira toda que se fala das drogas. Aliás, tem um monte de gente como eu que chegou a um momento e desencanou sem maiores dramas ou conseqüências. Curioso é que a imprensa só cita experiências de pessoas que foram "salvas do mundo alucinante das drogas", e para contrabalançar entrevista os doutores em droga, gente que nunca deu um tapa num baseado, mas sabe tudo sobre o "terrível mundo dos tóxicos", rarara.

Abraço a todos; cartesianos e tudistas, drogados legais e ilegais, não drogados radicais, subdrogados e demais anormais até que a morte nos junte depois de um saudável prato de brócolis com agrotóxicos, a droga da hora.

(*) Jornalista



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