Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Octávio Costa

Por lgarcia em 14/05/2003 na edição 224

GOVERNO LULA

“Caminhos perigosos”, copyright Jornal do Brasil, 7/05/03

“Surpreso com a denúncia de Cacá Diegues sobre a nova política de patrocínio cultural, recebi com igual estranheza a notícia da reunião do presidente Lula com 32 donos de jornais convocada às pressas pelo Palácio do Planalto. Encontro dessa natureza deveria envolver assunto de altíssima relevância. Temas do dia-a-dia são tratados com diretores de redação, editores de política e responsáveis pelas sucursais em Brasília. Tratava-se, sem dúvida, de exceção. A Presidência da República, volta e meia, mantém contatos individuais com donos de jornais, até porque quem não se comunica se trumbica. Mas raramente no atacado, com 32 convidados.

Desta vez, não havia novidade. A reunião veio apenas confirmar a visão esdrúxula do governo Lula a respeito da função social da imprensa. Enfoque, aliás, bastante coerente com o manifesto desejo de enquadrar a produção cultural no ideário oficial. Não satisfeitos com as investidas que provocaram o berro de Cacá Diegues, os responsáveis pela área de Comunicação parecem desejar também que os jornais se submetam às prioridades do governo.

Obviamente, isso não foi dito com todas as letras. Se fosse, a maioria dos presentes se retiraria em nome da liberdade de imprensa. A reunião do Planalto durou duas horas e contou também com a presença dos ministros José Dirceu, Antonio Palocci, Luiz Gushiken e Luiz Dulci. O presidente Lula resumiu-se a pedir que a imprensa ajude a disseminar o debate sobre as propostas de reforma tributária e da Previdência. Esclarecimento de vital importância: Lula não pediu que os veículos de comunicação tomassem partido a favor do governo, mas apenas que ajudassem a promover o debate.

Alguém acredita? Quer dizer então que o presidente da República chamou a Brasília 32 donos de veículos de comunicação apenas para solicitar que dêem espaço maior ao noticiário sobre as reformas? Se assim é, posso afirmar com segurança que a turma que hoje habita os principais gabinetes do Palácio do Planalto não anda lendo jornais nem vendo TV. As reformas da Previdência e tributária têm merecido amplo destaque. Folgadamente são o fato do momento. Por polêmicas que são, as duas reformas ocupam também amplo espaço nos editoriais, nas colunas diárias e nas seções de cartas dos leitores.

Não há como fugir da evidência, meu caro Watson. Por mais que tape o sol com a peneira, ao transmitir de viva voz aos empresários seu interesse nas reformas (como se eles desconhecessem a importância do tema), o Palácio do Planalto criou uma perplexidade desnecessária. Não cabe aos governantes, por mais bem-intencionados que sejam, tentar sugerir noticiário e respectivo espaço. No caso das reformas, os principais jornais do país não só têm dado enorme espaço como não escondem o apoio a elas. Porém, dispensam sugestões oficiais no sentido de aprofundar-se no tema.

Mas in dubio pro reo . Sejamos cândidos e acreditemos que o governo Lula está somente interessado em ampliar o debate sobre as reformas.

Diante do convite, dou aqui minha opinião. Sou contra a taxação de inativos e outros itens retroativos da reforma da Previdência. Mas estou tranqüilo. Custou muita luta, e vivemos num Estado de Direito. Mesmo que o governo vença no Congresso, o STF tem posição firmada sobre direitos adquiridos.”

“República paradisíaca”, copyright Folha de S. Paulo, 6/05/03

“No relato corriqueiro da Globo:

– O comércio amanheceu fechado por ordem dos traficantes. Em uma universidade que tem fundos para a favela, a estudante Luciana foi atingida no rosto quando fazia um lanche na cantina. Segundo a Polícia Militar, os traficantes teriam atacado a universidade deliberadamente.

Na ?república ensolarada, paradisíaca? do Brasil, começava outra semana de choque de realidade.

Mais ao norte, o traficante Fernandinho Beira-Mar era acompanhado ao dentista por meia centena de agentes da Polícia Federal.

Horas depois, seguiu em sua peregrinação pelo país, segundo a Band, viajando de novo para Brasília.

Histórias do cotidiano da república do Brasil. Mas é outra a ?república ensolarada, paradisíaca? que se apresentou ontem, na estréia da nova telenovela da Globo.

Nos telejornais da emissora, anunciou-se à exaustão um país ?cheio de semelhanças com a vida real?, como cenário da novela. Mas não era nem o Rio nem Alagoas.

Em ?Kubanacan?, entre atores seminus, a ?vida real? é aquela de Cuba ou Venezuela. Nada de Brasil.

É uma comédia. Na tragédia brasileira, a jovem estudante Luciana ?corre o risco de ficar tetraplégica?. E a universidade promete que, da próxima vez, vai fechar.

A semana começou com novo petista, este nem tão ?radical?, em revolta contra a reforma da Previdência.

Paulo Paim não só declarou que não vota pela taxação dos inativos como disse que, se ocorrer, a aprovação será somente em 2003, no meio das eleições municipais.

Já o tucano Geraldo Alckmin deu longa entrevista, ontem à Globo, declarando ser ?favorável à taxação dos inativos na proposta apresentada pelo presidente?.

Como afirmou Cássio Cunha Lima, outro governador tucano, assim vai ficando difícil, com os oposicionistas sempre ao lado do governo -e os governistas contra.

Para os outros, é um jeito fácil de ser governo.

Marta Suplicy iniciou sua campanha à reeleição, melhor dizendo, sua prestação democrática de contas à população com um longo programa em rede paulista.

Como era de esperar de Duda Mendonça, não faltaram ?grandes obras?. Nem capacetes de engenheiro.”

***

“Aura de notícia”, copyright Folha de S. Paulo, 13/05/03

“Heloísa Helena e João Batista de Araújo, o Babá, não demoraram a jogar a imagem. Da primeira:

– Não vou me curvar ao Tribunal do Santo Ofício da Inquisição!

E logo os aliados do governo Lula eram tratados como ?delinquentes da política brasileira?, por ela, no Jornal da Record. E logo o Partido dos Trabalhadores era acusado de ?violar os direitos humanos?, por ele, na Jovem Pan.

Se terminarem mesmo sendo expulsos do PT, os dois farão muita falta à cobertura.

Até porque, num partido menor como o PSTU ou o PDT de Leonel Brizola, devem perder as câmeras. Na avaliação dele, Alexandre Garcia:

– Parte da animação dos dissidentes se deve às câmeras, que adoram um diferente. Dissidente fica com aura de notícia. Quando descobre isso, o dissidente passa a gerar fatos. Isso é o que incomodou mais o PT.

De fato, a direção petista pode dar os argumentos que quiser, pode afirmar que os dois e Luciana Genro levantaram ações -e não opiniões- contra o partido.

Mas foi o espetáculo, não a ação, que incomodou mais. Lula e Duda Mendonça podiam juntar as melhores notícias imagináveis que lá estavam os ?radicais? para tomar seu lugar, nos telejornais.

Incomodaram não só por serem dissidentes, diferentes, na expressão de Garcia, mas por serem eles próprios uns personagens -como Lula.

Heloísa Helena e Babá, sobretudo, mas também a filha de Tarso Genro, a jovem ?radical? contra o pai moderado.

Fora do PT, estarão sem palanque eletrônico e conseguirão, quando muito, algum registro lateral, por usarem mordaças negras em manifestações contra Lula. Coisas assim.

Não se viram nem Paulo Paim nem Lindberg Farias nem João Fontes, ontem na TV.

A idolatria eletrônica de Lula tem suas passagens mais constrangedoras. No fim de semana, destacou a Globo, um ?grupo de gaúchos foi ao Palácio da Alvorada?. Montaram ?acampamento com ovelha, costela assada e, claro, muito chimarrão?. Da Globo:

– Lula recebeu uma cuia e um pé de erva mate. E, para o programa Fome Zero, ganhou uma égua.

Ontem na rádio Bandeirantes, o ministro José Graziano lamentava que as contribuições ao Fome Zero estão bem abaixo do esperado, somando pouco mais de R$ 500 mil. Falta incluir a égua, é claro.”

“Lula pede a empresários da mídia que promovam debate das reformas”, copyright Folha de S. Paulo, 6/05/03

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se ontem durante duas horas com 32 proprietários e dirigentes dos principais veículos de comunicação do país para pedir que promovam um amplo debate na sociedade sobre as reformas tributária e da Previdência Social, que ele mesmo levou ao Congresso no último dia 30.

No encontro, realizado na sala de audiências do gabinete presidencial, o presidente da República afirmou: ?O que me preocupa é que se essa reforma não for votada nesse ano, não sai mais reforma?. Ele acha que será possível votar as mudanças tributárias e previdenciárias em outubro.

O presidente estava acompanhado dos ministros Antonio Palocci Filho (Fazenda), José Dirceu (Casa Civil), Luiz Gushiken (Comunicação e Gestão Estratégica) e Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência da República).

Participaram da reunião, entre outros, Octavio Frias de Oliveira, publisher da Folha, Roberto Irineu Marinho (Organizações Globo), Johnny Saad (Rede Bandeirantes), Antônio Carlos Pereira (?O Estado de S. Paulo?), Thomaz Souto Corrêa (Editora Abril) e Nelson Tanure (?Jornal do Brasil?).

Palocci fez uma exposição da proposta do governo para a reforma tributária, e Gushiken expôs a reforma da Previdência. Lula fechou o encontro defendendo a descentralização do debate, que, para ele, não pode ficar restrito aos grandes centros urbanos. Foi por isso que convidou para o encontro representantes de veículos regionais de comunicação.

Lula contou ter pedido ao presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), a definição de um calendário para a tramitação das reformas. Quer que os prazos sejam divulgados, para facilitar o controle por parte da sociedade.

Servidores públicos

Referindo-se aos servidores públicos, Lula disse que, para realizar as reformas, resolveu ?comprar briga com parte do eleitorado tradicional do PT?. Ele se disse disposto a debater pessoalmente as mudanças.

?A sugestão é que os veículos de comunicação de todo o país promovam o debate nas suas comunidades, e o presidente disponibilizou a sua equipe para participar desses debates?, afirmou Nelson Sirotsky, diretor-presidente da Rede Brasil Sul. Segundo ele, Lula em nenhum momento pediu apoio às reformas, mas ao debate.”

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