Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > PASTORES DA NOITE

Octávio Costa

Por lgarcia em 25/12/2002 na edição 204

FENAJ / HISTÓRIA

"Os votos desprezados", copyright Jornal do Brasil, 18/12/2002

"Em 1986, jornalistas ligados ao recém-criado PT conseguiram assumir o comando da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), pondo fim ao reinado do Partidão. Durante a formação da chapa, decidiu-se ceder a vice-presidência ao PDT, para evitar a tentação puro-sangue. Convidaram-me para o cargo. Consultei o PDT do Rio, recebi sinal verde e aceitei. Fomos eleitos pelo voto direto de mais de 10 mil jornalistas, fato inédito na profissão.

Com Armando Rollemberg à frente, a Fenaj ganhou corpo e participou ativamente dos debates da Constituinte. Liderou a coleta de 40 mil assinaturas à emenda popular que deu vida ao capítulo da Comunicação Social (artigos 220 a 224). Eram tempos de militância explícita e a Fenaj foi filiada à CUT e à Organização Internacional dos Jornalistas, da esfera comunista. A outra entidade era a Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), de influência americana.

Perto do fim do mandato, Armando anunciou a candidatura à reeleição, em julho de 1989. A diretoria seria reconduzida, mas eu era assessor de imprensa da Bolsa de Valores de São Paulo e vi meu nome vetado por xiitas do PT. Fiquei revoltado com a discriminação. Havia me dedicado à Fenaj como todos os outros. E minhas convicções pessoais continuavam as mesmas. Decidi lutar contra o veto político. Procurei jornalistas de peso no PT, entre eles, Rui Falcão, David de Moraes, Paulo Ribeiro e Lia Ribeiro Dias, e pedi seu apoio. Numa reunião tensa no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, os amigos defenderam minha indicação, aprovada por ampla maioria.

Reeleito para a vice-presidência da Fenaj, problemas particulares trouxeram-me de volta para o Rio, depois de viver 11 anos em São Paulo. Deixei em Sampa os amigos e o sindicalismo. Mas, ainda hoje, sinto-me envergonhado porque tornei inútil o empenho dos colegas por minha reeleição. Nunca foi cobrado. Mas lhes sou devedor.

A experiência na Fenaj faz com que eu estranhe a tranqüilidade com que alguns dos convidados para o futuro ministério abrem mão de mandatos eletivos. Antônio Palocci, futuro ministro da Fazenda, chegou a registrar em cartório o compromisso de não deixar a Prefeitura de Ribeirão Preto. Foram-se a palavra empenhada e os votos recebidos.

Choca também o exemplo de Henrique Meirelles, o ex-presidente do BankBoston que assumirá o Banco Central. Natural de Anápolis, Meirelles fez campanha caríssima pelo PSDB de Goiás. Gastou quase R$ 1 bilhão e tornou-se o deputado federal mais votado do Estado, com cerca de 190 mil votos. Pretendia iniciar carreira parlamentar que o levaria, quem sabe, à Presidência da República. De repente, aceita o convite para o BC e sequer assumirá a cadeira para transmiti-la ao suplente. Abriu mão do mandato e fez pó dos milhares de votos.

Ainda hoje, fico constrangido por ter me afastado de São Paulo logo após a reeleição para a Fenaj. Não teria coragem de voltar a correr as redações pedindo votos aos colegas. Será que Palocci e Meirelles se sentirão confortáveis ao fazê-lo? O eleitor não gosta de jogar voto fora. E não costuma perdoar os responsáveis."

 

TEMPLOS NA TV

"Templos eletrônicos invadem faixa nobre", copyright O Estado de S. Paulo, 22/12/2002

"Em 1999, a TV brasileira tinha cerca de 9 horas de sua programação tomada por programas evangélicos. Hoje, tem quase 21 horas ao dia. Além de tamanho salto no tempo de exposição, aproveitando a crise no mercado publicitário, esses verdadeiros templos eletrônicos estão ganhando agora maior alcance de público.

Acostumadas a horários ingratos – são transmitidas entre 5 e 8 horas, período mais barato para locação em emissoras -, as atrações religiosas vão, a partir do ano que vem, disputar audiência com os jornalísticos e as novelas das grandes redes. Sim, a fé chegou ao horário nobre. Duas emissoras, Band e Gazeta, terão em 2003 parte de seu horário nobre locado por programas evangélicos.

A Band vendeu a faixa que vai das 20h30 às 21h30 ao Show da Fé, atração produzida pela poderosa Igreja Internacional da Graça de Deus, do bispo e showman RR Soares. A Gazeta, que há tempos vem rifando seus horários a programas de televendas e religiosos, fechou um negócio com a Igreja Universal, do bispo Edir Macedo. Exibirá, a partir de 2003, programas evangélicos das 6 às 8 horas e das 20 às 22 horas. Com isso, alega que fechará suas finanças no azul. A pergunta é: a que custo para a programação?

Apesar de mudarem de nome – um dos primeiros a entrar no ar foi o dominical Fé para Hoje, que estreou há 35 anos na extinta Tupi – , tais programas têm quase sempre o mesmo recheio: gente falando de sua conversão, leitura da Bíblia, expulsão do demônio do corpo, histórias de milagres. Pelos espaços na TV, pagam muito menos do que pagariam pelos segundos publicitários, mas alguns chegam a desembolsar milhões.

No mercado, comenta-se que RR Soares pagará cerca de R$ 2 milhões por mês por 1 hora nobre na programação diária da Band, a partir de janeiro. As cifras são milionárias perto dos R$ 100 mil que custaria 1 hora na programação da madrugada da rede. Muito também perto dos cerca de R$ 400 mil que a rede faturaria com os breaks comerciais no horário. Para especialistas do setor, a quantia pode ajudar a sanar ?momentaneamente? o buraco no faturamento, mas, a longo prazo, traz problemas maiores.

?A audiência é composta por aquele cara que todos os dias, em determinado horário, sintoniza em determinado canal para ver o que está acostumado. Esse é o hábito de audiência, é o que manda na TV?, fala o diretor de Mídia da Lew, Lara, Luiz Carlos Rodrigues. ?Quando o cara ligar a TV e ver que tem um programa evangélico no lugar da atração que costumava ver, mudará de canal, o hábito será quebrado, e dificilmente o quadro será revertido?, continua. ?Essa solução pode driblar a crise. A longo prazo, creio que uma TV que faz isso gastará muito mais tentando reaver audiência e o prestígio quando tentar colocar novo programa no horário antes locado.?

A Band se defende. Diz que ?driblar a crise? é uma atitude do momento, comum à grande maioria das empresas, e que isso é uma obrigação. A emissora prefere não falar quando tomou a decisão de vender parte de seu horário nobre e não informa até quando manterá essa locação.

?Estes programas religiosos estão em várias emissoras, entre elas, a Globo, que exibe o culto do padre Marcelo Rossi. Portanto, é um gênero costumeiro em toda a mídia?, fala o consultor da presidência da Band, Antônio Teles. Sim, a diferença é que, na Globo, a missa de Rossi vai ao ar às 6h da manhã, de custo bem inferior ao da faixa nobre.

Quanto à mudança de audiência que esses programas podem causar na rede, Teles diz que a Band vai monitorar isso, mas não explica de que forma.

Contaminação – Essa quebra de hábito da audiência, que já é dada como certa pelo mercado – afinal, nenhum desses programas religiosos registra mais que 1 ponto de audiência – ,costuma deixar seqüelas na programação.

Na Band, a venda do horário aos evangélicos não foi vista com bons olhos por quem antecede e precede o horário locado. Marcos Mion, que terá sua atração atrasada em quase uma hora, indo ao ar logo após ao Show da Fé, tem mostrado preocupação. Sabrina Parlatore, que enfrentará a mesma situação aos sábados, também tem motivos para se assustar.

?A audiência sofrerá uma interrupção brusca e o programa que vier na seqüência desses religiosos acabará contaminado de alguma maneira?, fala a professora da USP Maria Thereza Fraga Rocco, que desenvolve estudos sobre TV.

Maria Thereza, que já realizou uma pesquisa detalhada sobre pregações religiosas na TV, diz que a exibição dessas atrações deveria sofrer regulamentação, assim como a publicidade e os programas impróprios para determinados horários sofrem.

?Esses programas nada mais são do que macrocomerciais. Eles ficam o tempo todo vendendo milagres, promessas, resolução de problemas e chamando as pessoas para freqüentarem esses templos?, diz ela. ?Já vi em algumas dessas atrações legendas piscando na parte de baixo da tela com dizeres como: ?venha já para cá?, ou, ?doe agora o dízimo?. É a mesma coisa que o ?ligue já?, ou ?compre já?, continua. ?Se em 1 hora de programação só pode haver 12 minutos de propaganda, esse tipo de venda da fé também deveria ser regulamentada.?"

 

PASTORES DA NOITE

"?Pastores? pôs a cara do povo na TV", copyright O Estado de S. Paulo, 22/12/2002

"Não havia sido nada animador o início da microssérie Pastores da Noite, na Globo. Apesar dos cuidados do diretor-geral Maurício Farias, assessorado pelo soteropolitano Sérgio Machado – ambos buscaram inspiração no antropólogo Pierre Verger para garantir a autenticidade do material -, O Casamento do Cabo Martim, primeiro episódio da série de quatro, foi batido na audiência pelo pior filme de Arnold Schwarzenegger, o sofrível O Fim dos Dias. Cabo Martim foi acusado de condescendência com o pior de Jorge Amado e nem o elenco foi poupado. Até figuras como Fernanda Montenegro e Matheus Nachtergaele, protestaram os coleguinhas da crítica, teriam representado no piloto automático, abaixo do próprio nível de excelência.

Algo de muito sério ocorreu nos episódios seguintes – O Compadre de Ogum, A Nova Paixão de Curió e Um Vestido para Otália, cada um deles girando em torno de um personagem-chave. Você sabe o que foi. Talvez não seja bem exato dizer que Farias e os demais adaptadores (Machado, Cláudio Paiva e Guel Arraes) terminaram acertando o tom, mas ficou mais claro que o objetivo não era ser tão condescendente assim. E houve realmente um milagre de empatia com o público. Os personagens do Cabo (Eduardo Moscovis), Marialva (Camila Pitanga), Massu (Lázaro Ramos), Curió (Matheus Nachtergaele) e Otália (Leandra Leal) conquistaram o público, a audiência cresceu e, antes mesmo que fosse ao ar o último episódio, já havia um movimento, no núcleo de Guel Arraes, onde surgiu Pastores da Noite, para que a série e seus personagens virassem atrações permanentes, voltando em 2003. No último episódio, não foram poucos os espectadores que acharam que Du Moscovis conseguiu dar ali a melhor interpretação de sua carreira.

Mesmo tendo sido (ou sendo, ainda) o escritor mais popular do País, Jorge Amado nunca foi, exatamente, uma unanimidade. Seus desafetos tiveram de engolir sapos como os milhões de exemplares que ele vendeu de seus livros e também o sucesso de Gabriela na televisão e de Dona Flor e Seus Dois Maridos no cinema. As duas personagens contribuíram bastante (com A Dama do Lotação) para fazer de Sônia Braga um mito sexual, mas Sônia foi considerada fora de forma quando Tieta do Agreste chegou aos cinemas. O filme de Cacá Diegues foi apedrejado pela maioria da crítica, que não perdoou as paisagens de cartão-postal e um escandaloso comercial do Banco Real. A novela de Aguinaldo Silva, com Betty Faria, ainda estava forte na lembrança e foi considerada muito melhor, mas as recentes reprises de Tieta do Agreste no Canal Brasil mostram que o filme de Cacá não apenas não era tão ruim como até possuía méritos que um dia terão de ser resgatados.

Eles passam pelo resgate principal, que é a literatura de Jorge Amado, o seu sentido do ?popular? (que tanta gente considera demagógico e popularesco).

Até por sua militância comunista, Jorge sempre teve simpatia pelo ?povo?, como entidade meio mística. Na hora de individualizar esse povo, foi condescendente com o que, aos olhos do progressismo oficial, seriam os defeitos do brasileiro: a falta de comprometimento, o machismo, a esbórnia.

Vadinho é um dos emblemas do herói amadiano, não resistindo a rabo-de-saia e praticando com volúpia a arte do adultério. As mulheres amadianas também foram sempre discutidas. Todas prostitutas, ou quase, sempre na esbórnia e dispostas ao amor.

Talvez – e foi isso que ficou claro, à medida que a microssérie evoluía, com seus reduzidos quatro capítulos – os alegados defeitos de caráter não tenham sido vistos com excessiva tolerância, mas como sintomas de uma resistência cultural, num momento tão especial como este que se vive hoje no País. Em pouco mais de uma semana (dez dias!), a posse de Lula na Presidência inicia uma nova era que se anuncia popular e cheia de esperança. Neste novo quadro, um Brasil mais brasileiro, menos globalizado já irrompeu na TV, com o sucesso de Pastores da Noite. E ainda nem se falou da beleza de Camila Pitanga. A promessa de que Marialva poderá voltar não é o menor dos encantos com que o núcleo dirigido por Guel Arraes acena para o ano que vem, na Globo."

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