Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > EFEITO ACM

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Por lgarcia em 14/05/2003 na edição 224

EFEITO ACM

Chico Bruno (*)

Na noite/madrugada mais fria de São Paulo até agora, encontro um grupo de baianos residentes na cidade. Entre uma e outra taça de vinho produzido no Vale do Rio São Francisco, mais precisamente na pernambucana Santa Maria da Boa Vista, a baianada fazia piada com seus desafortunados conterrâneos que vivem na Bahia. As razões do escárnio giravam em torno da figura do senador Antônio Carlos Magalhães e a quebra ilegal do sigilo telefônico de seus desafetos, popularmente conhecida com grampo.

Os baianos, tão gozadores como os cariocas, chamam a Bahia hoje pelo gaiato nome de ACMlândia, haja vista que avenidas, ruas, escolas, praças, aeroportos, fundações e até cidades ganharam os nomes do senador, de seu pai e de seu filho falecido em 1998. Além disso, dizem eles (os baianos) que na Bahia ninguém solta um traque sem antes ter a aprovação do senador, imagine o resto. As piadas iam se multiplicando sempre tendo como centro ACM, até que um dos presentes ousou mudar o rumo da conversa para um assunto que me diz respeito, o sigilo da fonte. Queriam a minha opinião.

O Senhor do Bonfim

Antes de opinar, procurei saber o que eles achavam da questão posta à mesa. A divergência era total. Uns achavam que o jornalista Luiz Cláudio Cunha, da IstoÉ, teve muita coragem ao quebrar o sigilo da fonte, informando que ACM é que lhe fornecera o dossiê com as transcrições do grampo ilegal, e que Fernando Rodrigues, da Folha de S.Paulo, ao entregar o cadáver do crime, no caso os dois CD-ROMs com as gravações de 16 diálogos de três grampeados, fora covarde porque preservou o sigilo da fonte. Outros achavam justamente o contrário, que Fernando Rodrigues estava certo e Luiz Cláudio agira contra a ética jornalística.

A discussão ia longe, já agora com a intervenção de outros personagens que se aboletavam em mesas próximas. O assunto tomou tal proporção que até os manobristas e os garçons do bar colocaram o dedo na conversa. Fiquei boquiaberto, imaginava que o sigilo da fonte fosse do interesse apenas de nós, jornalistas, nunca me passou pela cabeça que pudesse causar tanta celeuma entre leigos na matéria. Não podendo mais me furtar, fui reinserido na discussão e obrigado a expor minha posição sobre o tema.

Sai pela tangente, pois o clima, apesar dos 9 graus, estava muito quente. Opinei que quebrar ou preservar sigilo de fonte depende da consciência de cada jornalista e da gravidade da informação. Infelizmente, a baianada não aceitou a resposta meeira. Insistiram em que eu descesse do muro, já que não sou tucano. Acossado, já querendo dar um ponto final na discussão, afirmei que, sendo para o bem da ACMlândia, a posição mais correta é a da quebra do sigilo da fonte, dada a gravidade e a ilegalidade do fato em causa, mas que respeito, também, a atitude contrária.

Esclarecida a posição, voltamos todos à vaca fria, até que um telefonema interrompeu a galhofa: era um amigo informando que o juiz federal da 10? Vara Cível aceitara a denúncia do Ministério Público Federal e estava notificando ACM, dois ex-governadores e mais nove pessoas para, num prazo de 15 dias, apresentarem suas defesas. Desliguei o celular e imediatamente todos quiseram saber quem era a fonte, não me fiz de rogado: o Senhor do Bonfim. Todos riram, pedimos a conta, pagamos e ficou a certeza de que o sigilo da fonte, graças a ACM, transformou-se em conversa de botequim.

(*) Jornalista

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