Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Olhar esperto e seletivo

Por lgarcia em 05/09/2000 na edição 97

A televisão levada a sério, Editora Senac-SP, 248 pp., R$ 24

Arlindo Machado, 50 anos, tem a idade da TV no Brasil. Está lançando A televisão levada a sério convencido de que palpita vida inteligente nos conteúdos televisivos. Ele afirma existir qualidade, mas que é preciso pesquisar e saber selecionar.

Um dos mais ativos professores de sua geração, não deixou a vida acadêmica atolar no burocratismo e produziu como poucos sobre cinema e televisão. Professor do Programa de Estudos Pós-graduados em Comunicação e Semiótica da PUC/SP e do Departamento de Cinema, Rádio e TV da ECA/USP, escreveu Eisenstein: geometria do êxtase (1983), A ilusão espetacular (1984), A arte do vídeo (1988), Máquina e imaginário: o desafio das poéticas tecnológicas (1993), El Paisaje Mediático (2000), Pré-cinemas & Pós-cinemas (1997) e Video-Cuadernos (1994).

Arlindo Machado não tem medo de amar a televisão. (L.E.)

Como é possível amar a televisão sem correr o risco de submergir na banalidade?

Arlindo Machado – Essa questão se aplica a qualquer outro meio e como em qualquer outro meio a resposta está na capacidade de seleção. O espectador de cinema escolhe o filme que vai ver antes de sair de casa, o leitor de romances escolhe o livro que vai ler, por que então o espectador de televisão não deveria selecionar o que vai entrar no seu aparelho? Falta-nos uma crítica séria de televisão, faltam-nos revistas especializadas, que sejam capazes de colocar em discussão a programação de TV, que contribuam para elevar o nível das discussões sobre esse meio e ajudem o espectador a escolher o que vai merecer o privilégio de sua atenção.

Onde reside a vida inteligente na TV brasileira?

A. M. – Se é verdade que muita coisa vai mal na nossa televisão, também é verdade que essa constatação genérica não pode ocultar o fato de que existe uma geração de realizadores buscando introduzir inteligência, criatividade e senso crítico na televisão. Essa gente se espalha por todos os canais e modalidades de TV do país: Marcelo Tas, Maurice Capovilla, João Moreira Salles, Belisário Franca, Sandra Kogut, Walter Salles, Gabriel Priolli, Nelson Hoineff, Paulo Morelli, Guel Arraes, Dario Vizeu, Pedro Vieira, Walter Silveira, Tadeu Jungle, Walter Avancini, Cristina Fonseca, Eder Santos, Cláudio Manuel, Astrid Fontenelle, Soninha e muitíssimos outros. Essa gente luta contra todas as dificuldades para fazer uma TV que, sem deixar de ser popular e economicamente viável, evita repetir os modelos banalizados, idiotizantes e copiados de TVs estrangeiras.

Qual sua avaliação do telejornalismo produzido no Brasil? Ele é útil à sociedade?

A. M. – Para mim, o único compromisso que se deve esperar de um telejornalismo sério é com a verdade. Nosso telejornalismo está longe de ser dos mais inteligentes e isentos, mas não se pode esquecer a vigorosa intervenção de Eduardo Coutinho, no período em que esteve à testa do Globo Repórter, do demolidor Marcelo Tas, quando esteve na pele do (anti)repórter Ernesto Varela, das inovadoras propostas de Nelson Hoineff em programas como Realidade e Documento Especial e até mesmo a deliciosa redescoberta do Brasil num programa como Brasil Legal (Regina Casé, dirigida por Sandra Kogut) e nas intervenções de Maurício Kubrusly no Fantástico. É preciso ainda lembrar a corajosa postura de Fernando Barbosa Lima, em pleno período da ditadura militar, em programas como Jornal de Vanguarda e Abertura.

O que você considera "uma nova maneira de pensar a televisão"?

Durante muito tempo, os teóricos da comunicação, seguindo (estranhamente) a mesma orientação dos magnatas da mídia, nos acostumaram a encarar a televisão como um meio
popularesco, "de massa" no pior sentido possível da palavra, e dessa maneira nos impediram
de prestar atenção a um certo número de experiências poderosas, singulares e fundamentais
para definir o estatuto desse meio no panorama da cultura do final de século. Uma pesquisa séria e exaustiva, entretanto, poderia proporcionar uma surpresa a todos aqueles que encaram a televisão como um meio "menor". A despeito de todos os discursos popularescos e mercadológicos que tentaram e ainda tentam explicá-la, a televisão acumulou, nestes últimos 50 anos de sua história, um repertório de obras criativas muito maior do que normalmente se supõe, um repertório suficientemente denso e amplo para que se possa incluí-la sem esforço entre os fenômenos culturais mais importantes de nosso tempo.

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