Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES

Olho na primeira página

Por lgarcia em 20/07/1998 na edição 49

Mauro Malin

 

O

s grandes jornais abusarão mais uma vez da manipulação das pesquisas, porque é prática de difícil fiscalização pelo homem comum, mas tomarão certo cuidado com a cobertura eleitoral em sentido estrito.

O mercado é concorrido, as pressões de candidatos antagonistas dentro do campo governista são relativamente equilibradas, há advogados assessorando todos os partidos.

O mecanismo de apoio aos candidatos “preferidos” (o leitor pode substituir a expressão a seu talante) de cada jornal não é o favorecimento descarado de uns em detrimento de outros nas páginas de política.

É a escolha da munição que se usa e, talvez mais ainda, da que não se usa.

Quando se mostra um “arrastão” na praia mais famosa do país, transmite-se aos cidadãos um sentimento brutal de insegurança, que se desdobra em indignação com os responsáveis por tal estado de coisas. Já aconteceu alguns anos atrás.

Se, ao contrário, se pára de noticiar a realidade dolorosa da seca no Nordeste (crescentemente dolorosa, porque agora só haverá chuvas, com sorte, em outubro, e colheita em janeiro), evita-se atingir a imagem dos candidatos situacionistas, em primeiro lugar de um presidente que concorre à reeleição. Está acontecendo há algumas semanas.

São exemplos extremos, que qualificaríamos de grosseiros caso qualificá-los assim não nos tornasse, a nós, leitores que os vemos desfilar diante dos olhos quase todo dia, verdadeiros papalvos. Fiquemos apenas, portanto, neutramente, com a palavra “extremos”.

Há, entre os extremos, uma gama rica de variações de todo tipo e espécie.

Isto é velho como imprensa e eleições.

Mas é preciso resumir o tópico e delimitar o foco da vigilância.

Eis a proposta: vigiem as primeiras páginas. São o vértice da pirâmide da “interpretação” da realidade que cada jornal (ou revista) pratica. E essa “interpretação” é a mais valiosa moeda de troca política.

Tudo se condensa, portanto, nas duas dimensões das capas.

Uma fonte, duas “interpretações”

Tomemos a manchete do Globo de 17/7/98 como exemplo:

“Investimentos diretos no Brasil batem recorde”.

Poupo o leitor das firulas. Por mera coincidência, o Estadão tratou o assunto (não na capa, mas em manchete de página) na mesma linha:

“Investimento externo direto no País é recorde”.

Não, desculpem, não é mera coincidência. É que a fonte da notícia foi a mesma: Altamir Lopes, chefe do Departamento Econômico do Banco Central. Já me punha eu a praticar injusta suspicácia.

Mas, esperem… As declarações do mesmo Sr. Altamir foram “interpretadas” de maneira inversa pela Folha e pelo JB:

“Reservas perdem US$ 1,9 bi em junho” (Folha).

“Queda nas reservas” (JB).

Que curioso!

Olho nas capas, cidadãos.

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