Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

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Omissão e conspiração da imprensa

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

VENEZUELA, GOLPE E CONTRAGOLPE

Francisco Carlos Garisto (*)

Venezuela, sexta-feira, 12 de abril. Após violentas manifestações populares, em que sindicatos patronais e de trabalhadores foram para as ruas protestar democraticamente contra o governo do presidente Hugo Chávez, alguns militares golpistas e o grande empresariado se aproveitaram e resolveram depor o presidente eleito e de maneira simples proclamaram, como novo mandatário da Venezuela, Pedro Carmona, presidente da maior organização empresarial venezuelana e maior inimigo do deposto, Chávez.

Até aí, em se tratando de América Latina, onde presidentes eleitos quase nunca chegavam ao final de seus mandatos, poderia ser uma coisa natural e sem maiores conseqüências, a não ser o fato de que esse ato deixaria a já precária democracia latino-americana na berlinda novamente .

E a maior culpada pelo risco imposto a todos os países do Cone Sul foi sem sombra de dúvida a omissão. Ela foi o fator preponderante para que quase ficasse como coisa "natural" um golpe de estado que seria classificado como criminoso em qualquer país sério que tenha uma democracia plena. Não vamos nem levar em conta as dificuldades econômicas ou os atos políticos do populista presidente venezuelano, já que em hipótese alguma se justifica a medida golpista praticada.

Reparem que o FMI imediatamente reconheceu o governo golpista venezuelano, prometendo apoio e verbas para a "recuperação" do país, em vez de condenar um ato ilegal e antidemocrático como deposição militar.

O governo americano, que não gosta das declarações de Chávez contra a política do Tio Sam, tampouco a aproximação dele com Fidel e Saddam, nem comentou se houve golpe ou não ? o princípio democrático que sempre "preocupa" os americanos em casos semelhantes nem foi lembrado. Estranhamente, o governo americano não avaliou o ocorrido como golpe. Agora, a queda do preço do petróleo após a derrubada de Chávez foi comemorada em Wall Street.

Irresponsabilidade extrema

A OEA disse que analisaria os acontecimentos na Venezuela reunindo o Grupo do Rio, mas sem pressa e aguardando os acontecimentos. As declarações contra o golpe de estado foram pífias e sem eco.

O governo brasileiro, que tem à frente o "grande" democrata Fernando Henrique Cardoso, perdeu uma grande oportunidade de demonstrar que não aceita deposição de presidente eleito. FHC se omitiu literalmente, já que foi procurado por Chávez via telefone, horas antes da deposição. Chávez clamou a FHC que procurasse Bush e pedisse um tempo para que ele pudesse ao menos respirar. Ouviu do ex-perseguido político FHC que não poderia fazer isso, e que lamentava o que estava ocorrendo na Venezuela. FHC deixou Chávez na mão, e com isso a própria democracia latino-americana. Esqueceu rápido demais o que sentiu na pele nos anos da ditadura militar brasileira. Além disso, para quem pretende ser secretário-geral da ONU, sua omissão foi terrível e imperdoável.

O candidato Lula, do PT, amigo declarado de Chávez, lamentavelmente ficou com medo de defendê-lo, talvez pensando que poderia cair nas pesquisas, e se omitiu lá na França, onde se encontrava, deixando para o presidente do PT, José Dirceu, a tarefa de falar algo, o que acabou salvando o partido, condenando e alertando sobre o golpe. Os outros candidatos nem quiseram falar do assunto. Protótipo de chefe de Estado, Serra disse que iria se inteirar melhor para poder falar algo a respeito. Por justiça, temos que dizer que somente o candidato Ciro Gomes teceu críticas sérias, condenando veementemente o golpe, sem entrar em detalhes sobre os motivos.

Os órgãos de imprensa no Brasil, quase todos, em vez de condenarem imediatamente o golpe perpetrado contra um presidente eleito democraticamente pelo voto popular, condenaram Chávez por ter feito um monte de promessas não-cumpridas. Fizeram um paralelo, e ameaçaram os candidatos brasileiros para o risco de fazer promessas e não cumpri-las. Só isso. Vejam exemplos, daqui e de fora:


** "A queda do presidente fanfarrão" (chamada de capa da Veja, edição 1.747)

** "Chávez se considerava um Robin Hood bolivariano. Era mais um bufão, que entretinha o povão com programas de televisão em que se portava mais como animador de auditório do que como presidente. Sua queda foi recebida como boa notícia no mundo: melhorou o índice risco-país da Venezuela, a bolsa de Caracas disparou (alta de 8%) e o preço internacional do petróleo caiu 9%". (Veja, pág. 45)

** "Tomara que a queda de Chávez represente uma vacina contra salvadores da pátria na região." (André Oppenheimer, Miami Herald).

** "Como se não bastasse, Chávez hostilizava abertamente os americanos, aproximando-se de Fidel Castro, fazendo acenos à guerrilha colombiana e visitando inimigos dos EUA como Saddam Hussein e Muammar Kadafi." (Istoé, edição 1.698)

** "O país estava à venda, os empresários precisavam urgentemente de parceiros estrangeiros para se tornar competitivos. E o que aconteceu? Ninguém queria colocar seu dinheiro na terra de Chávez." (Moisés Naím, da revista americana Foreign Policy)

** "Após apoiarem ostensivamente as manifestações que precipitaram a queda do presidente Hugo Chávez, as principais emissoras privadas de TV da Venezuela fizeram no sábado um acordo para não exibir nem mencionar os protestos a favor do presidente deposto." (Folha de S.Paulo, 14/4/02)


A mídia brasileira e internacional foi de uma irresponsabilidade quase que extrema ? ficando no "quase" pelos editoriais da Folha de S.Paulo, que classificaram o golpe de Estado de vergonhoso e ilegal. Não me lembro de ter lido mais nada que não fosse critica ao presidente deposto, e elogios aos golpistas que estavam "salvando" a Venezuela. Esqueceram rápido demais que com essa mesma justificativa os golpistas brasileiros ficaram 30 anos nos reprimindo, numa prática que se pensava longe da América Latina. Os "salvadores" venezuelanos se preparavam para uma ditadura plena, já que a primeira coisa que o empossado ditador venezuelano, Pedro Carmona, fez foi fechar o Congresso e destituir toda a Corte Suprema Venezuelana ? algo muito parecido com o ocorrido no Brasil logo após o golpe militar de 1964.

Lição para os golpistas

Felizmente, por uma dessas sortes dos miseráveis, Hugo Chávez conseguiu dar um contra-golpe recorde e reassumiu a Presidência para a qual foi eleito pelo povo. Chávez tem a oportunidade de repensar seu governo com a lei ao seu lado e as instituições preservadas.

A frágil democracia da América Latina foi "salva pelo gongo", mas vamos festejar assim mesmo, já que alguns militares e empresários brasileiros já estavam achando uma "boa idéia" o que ocorreu na Venezuela, uma vez que as maiores legendas políticas hoje, na grande maioria, são mais grupos de interesses espúrios e criminosos, que fazem de tudo para manter o nefasto sistema político do interesse individual, do que propriamente partidos políticos de verdade em busca de um Brasil forte, econômica, política e democraticamente.

Que essa omissão ocorrida no caso venezuelano tenha sido desinteressada e que tenha ocorrido por despreparo mesmo, e não por vontade de incentivar golpes em presidentes eleitos legalmente. Não existe mais lugar para golpistas, nem na América Latina nem em qualquer lugar do mundo, e muito menos no Brasil, onde um golpe será motivo para um banho de sangue sem precedentes. Não vamos nunca esquecer os 30 anos que perdemos de nossas liberdades democráticas, que poderiam ter colocado o Brasil num patamar muito diferente e melhor.

Estamos em ano eleitoral, as denúncias de que o atual governo tentará de tudo para não "entregar" o governo são abomináveis. Qualquer que seja o candidato eleito, ele não pode sentir em momento algum que não tomará posse. Que sirva de lição o ocorrido na Venezuela, para militares golpistas, empresários e políticos corruptos e antidemocráticos brasileiros, para que saibam que não é tão fácil e simples dar um golpe de estado nos dias de hoje.

(*) Bacharel em Direito e Jornalismo e presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais

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