Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > CAROS AMIGOS

Opiniões equivocadas

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

CAROS AMIGOS

Alberto Kleinas (*) e Esther Kuperman (**)

Segue abaixo mensagem encaminhada à Caros Amigos a respeito do artigo da jornalista Marilene Felinto e o artigo publicado na 134? edição da revista, que nos levou a elaborar a resposta. Gostaríamos que este site avaliasse a possibilidade de publicação de nossa resposta à jornalista, visto tratar-se de uma situação delicada, gerada pela publicação de tais posições numa revista que se pretende formadora de opiniões.

Aos editores da revista Caros Amigos


Solicitamos a publicação da carta abaixo no próximo número desta revista, a título de resposta ao artigo da jornalista Marilene Felinto.

Alberto Kleinas, sociólogo (São Paulo) e Esther Kuperman, historiadora (Rio de Janeiro)


Alberto Kleinas (*) e Esther Kuperman (**)


"(…) os capitalistas buscam semear e atiçar o ódio entre operários de crenças diferentes, de nacionalidades diferentes, de raças diferentes (…) [mas] esse velho obscurantismo feudal está a ponto de desaparecer. O povo começa a ver claro". (Lênin, "I pogrom contra gli ebrei", in Opere, vol. 29, p. 229.)


No artigo de Marilene Felinto, "Desaviso" (Caros Amigos 134, remissão abaixo), vale lembrar algumas questões históricas e políticas pertinentes, principalmente àqueles que fazem uso de comparações fora de contexto e, buscando explicação fácil para alcançar objetivos nobres, pecam contra a verdade.

Muitos acreditaram e, infelizmente, ainda crêem, que a luta entre as raças é a mola propulsora da história humana. Esta terminologia invade até o discurso daqueles, como a jornalista, que advogam a nobre causa da justiça social. Portanto devemos lembrá-la que, desde o famigerado e apócrifo Protocolos dos sábios de Sion, produzido nas catacumbas do regime czarista russo, muito se produziu no reino da ficção para propagar a figura do judeu internacional, tanto o capitalista senhor de Wall Street, como do revolucionário bolchevique, sendo que o próprio Lênin teve criada uma origem judaica com o sobrenome Cederbaum. ["A centralidade da arma anti-semita na batalha política do pós-revolução é atestada pelo papel que lhe é atribuído pelas forças contrárias ao poder soviético. Expoentes da Rada ucraniana afirmaram que o anti-semitismo era a sua principal arma de propaganda e que contra ela ?não há bolchevismo que resista?. (Finzi, R. Uma anomalia nacional: a "questão judaica", In: Hobsbawm, E. J., História do Marxismo, vol. 8, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.]

Gostaríamos também de ressaltar que o artigo resvala num maniqueísmo primário ao estabelecer que todos os judeus estão associados ao "mal", que seria a dominação capitalista e que, portanto, devem ser combatidos para que se instaure o "bem", que poderia ser comparado à refundação do Jardim do Éden. ["Aos olhos do marxista, a luta de classes não se constitui de modo algum o combate entre o Bem e o Mal: trata-se de um conflito de interesses entre grupos humanos. O revolucionário é levado a adotar o ponto de vista do proletariado primeiramente porque esta classe é sua, depois porque ela é oprimida e porque, sendo de longe a mais numerosa, sua sorte tende a confundir-se com a da humanidade" (Sartre, Jean Paul. Reflexões sobre o Racismo. São Paulo, Difel, 1968)]

Cabe lembrar que fazemos parte da mesma humanidade na qual a jornalista se inscreve e estamos, tal como todos os que partilham deste destino, divididos em classes sociais. Esta é a distinção mais importante a ser considerada, ao levarmos em conta qualquer sociedade. É a partir desta diferenciação que deveremos nos debruçar para analisar todo os conflitos. Como os demais grupos étnicos, os judeus estão inseridos em todas as classes sociais, o que significa dizer que ao nascer judeu não se está automaticamente alistado entre aqueles que detêm o controle do capital. A noção de que cabe aos judeus a maior parte da riqueza de uma nação nos remete aos anos em que os regimes totalitários necessitavam criar e difundir a idéia de um inimigo comum para consolidar um sentimento de nacionalidade em crise.

A jornalista incorre também no erro de estabelecer que Israel é o país dos capitalistas e que não existe diversidade nem de ocupações (trabalho) nem de opiniões. O Estado de Israel que nasceu no campo diplomático e de batalhas (após a Partilha da Palestina votada em Assembléia Extraordinária das Nações Unidas em dezembro de 1947 e, nos campos de batalha entre 1948 e 1949, onde o jovem Estado foi atacado por exércitos regulares do Líbano, da Síria, do Egito, da Jordânia etc.), foi uma construção de jovens judeus revolucionários que buscavam um Estado igualitário [O movimento sionista socialista do qual derivou o kibutz (aldeia coletivista) era majoritário no antigo mandato britânico da Palestina.], com as mesmas preocupações da estimada jornalista.

Equívoco

Aqui no Brasil, a coletividade judaica representa menos de 1% da população brasileira e é formada por profissionais dos mais diversos, desde os de ocupação liberal até aqueles que se encontram desempregados e, portanto, merecedores da atenção da jornalista.

"O estereótipo do judeu usurário e explorador, sobre o qual se apóia o reflexo anti-semita de massa, portanto, é inteiramente falso. Simples instrumento para dividir os trabalhadores, deve ser rechaçado, lançando-se infâmia e desonra contra aqueles que semeiam o ódio contra os judeus, contra as outras nações". (Lênin, "I pogrom", pp. 229-230.)

As opiniões de um rabino não podem e não devem ser generalizadas e muito menos instrumentalizadas contra a coletividade judaica brasileira que, individualmente ou através de suas instituições, contribuem para a construção de um país mais justo para si e para todos os brasileiros. Tal prática corresponde a atribuir a todo o povo brasileiro posições explicitadas em público por alguma figura nacional que tenha projeção nos órgãos de comunicação, negando aos cidadãos o direito ao livre arbítrio e ignorando a pluralidade de opiniões que existe entre nós.

Portanto, gostaríamos que a jornalista reconhecesse o equívoco das opiniões emitidas em sua coluna, assim como os editores desta publicação refletissem sobre a responsabilidade de veicular, num órgão que possui a importância da Caros Amigos, este tipo de idéias.

(*) Sociólogo, São Paulo; (**) historiadora, Rio de Janeiro

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