Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CAIXOTINS

Os anarfa lá de cima

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

CAIXOTINS

Carlos Brickmann (*)

Antigamente, no tempo em que os animais falavam, faziam-no corretamente: havia assessores especializados no Executivo e Legislativo que cuidavam da redação de leis, decretos, portarias. Hoje, talvez possamos imaginar que estes cargos foram extintos (ou melhor, modificados: não há nada tão eterno quanto um cargo público. Hoje, com certeza, foram multiplicados, mas não mais servem para garantir a qualidade da legislação).

O problema maior é que, com chancela oficial, a população pensa que o mau português é o correto. E o idioma, lembremo-nos todos, é a base de nossa cultura ? que cabe aos governos ajudar-nos a defender.

Federal ? "Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado" (ou, em português mais comum, se os sintomas não passarem, consulte o médico). Quantos erros há na frase que o governo tormou obrigatória logo depois de cada propaganda de remédio? Alô, professor Pasquale! Poupe este cansado colunista de compulsar os livros de Português!

Municipal (São Paulo) ? "Ao abrir a porta deste elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar". Alô de novo, professor Pasquale! Quando é que nossas autoridades, encarregadas de zelar, entre outras coisas, pela preservação da língua do país, aprenderão que "o mesmo" não é pronome? E o resto da frase, que delícia para uma coluna de Português!

Estadual (São Paulo) ? Já foi citada neste coluna, mas
merece repetição: na rodovia Fernão Dias, que é
federal mas foi duplicada pelo estado, o ex-governador Lucas Garcez é
chamado de "Garçês" ? assim mesmo, com cedilha antes
do "e". E aí não vale a pena nem chamar o professor
Pasquale: o vice-governador Cláudio Lembo é um homem culto e refinado,
foi reitor de universidade. E o governador Geraldo Alckmin, médico especializado
em anestesia, com pelo menos seis anos de curso superior, também saberia
corrigir este erro bárbaro ? se quisesse.

 

Não, um profissional do Direito não faria isso. Mas a imprensa atribuiu a uma promotora a informação de que não existe crime de perjúrio no Brasil. "(…) com isso", teria dito a promotora, "o réu pode omitir a verdade e até mentir (…)"

Errado, claro. Uma promotora não diria isso e certamente um jornalista, pouco afeito às normas jurídicas, simplificou com erro sua frase. No Brasil, existe o crime de perjúrio, ou falso testemunho. Uma testemunha, quando mente, comete este crime. Quem está protegido é o acusado: este, sim, pode omitir e mentir, sem que possa ser processado por isto.

Erros em notícias que envolvem processos têm sido comuns: o juiz
manda, o jornal diz que ele pede; o desembargador decide, o jornal diz que ele
acha. Isso não é o pior: o pior é considerar que alguém,
pelo simples fato de ter sido indiciado, é culpado. Por onde andará
aquele princípio básico da liberdade, de que todos são
inocentes até prova em contrário?

 

A astróloga Angela Brainer, de Pernambuco, foi convidada a comparecer a um programa de TV para a tradicional previsão de Ano Novo. Mas deveria, segundo disse, obedecer à seguinte ordem: deixar as coisas boas de lado e dar ênfase às tragédias, às catástrofes. E, no final do programa, naturalmente, uma mensagem de amor.

 A astróloga recusou o convite do programa. E nos enche de vergonha:
desde quando jornalista determina aquilo que o convidado vai falar na TV?

 

 Este colunista gosta de futebol mas não é fanático: vê jogos do Corinthians, vai eventualmente ao estádio quando o Corinthians joga, vê jogos da Seleção quando nela há um bom número de jogadores do Corinthians.

Este colunista não é fanático porque um bom fanático por futebol assiste a jogos do Campeonato grego, sabe tudo sobre o Fenerbahce, recita de cor a escalação do Real Madrid.

E o noticiário sobre as contratações dos clubes brasileiros, neste intervalo de campeonatos, é exclusivo para fanáticos. O Corinthians contratou o centroavante Régis "Pitbull", que já jogou em vários times do país e do exterior. Qual sua média de gols? Por que tantas mudanças de clube em tão pouco tempo? Nada! O Corinthians contratou também Adrianinho. É atacante ou meio de campo? Qual seu currículo? E Rodrigo "Beckham", joga armando ou finalizando? Por que deixou a Inglaterra e voltou a São Paulo?

Esta informação talvez seja encontrada em endereços eletrônicos
de internet. Rádio e TV, nos programas esportivos, fazem longas entrevistas
com os jogadores, nas quais a gente vai pinçando uma informação
ou outra: brigou com "n" técnicos, gosta de jogar avançado
etc. Aquela informação organizada, hierarquizada, aí já
é esperar demais.

 

Evanilson (lembre: é um lateral-direito revelado pelo Cruzeiro, que foi convocado uma vez para a Seleção) foi jogar na Europa. O meia-armador Ricardinho, cujo futebol é infinitamente superior, que também jogou na Seleção (e foi campeão do mundo), não recebeu propostas da Europa. Régis "Pitbull" jogou na Europa; Marcos, o goleiro campeão do mundo, não recebeu propostas européias que o sensibilizassem.

Por quê? Não, caro leitor, não procure as explicações na imprensa. A imprensa, em seus melhores momentos, diz o que está acontecendo. Por que acontece, nem pensar. Será a qualidade dos empresários? Haverá problemas pessoais que prejudicam a oportunidade de jogar no exterior e ganhar em euros?

E os técnicos, então? Os treinadores brasileiros devem ser bons ? afinal de contas, comandaram as seleções que ganharam cinco Copas do Mundo. E quem é que os europeus contratam? Holandeses e espanhóis, que jamais ganharam Copa alguma; ingleses, que ganharam bem menos títulos que os brasileiros; até portugueses ? representantes de um país que chamou um brasileiro, Luís Felipe Scolari, para dirigir sua Seleção nacional.

Poucos brasileiros, até hoje, dirigiram times na Europa: Felipão, Oto Glória (que fez carreira fulgurante em Portugal), Parreira (que dirigiu o Fernerbahce, na Turquia ? está entre dois continentes, mas também tem sua parcela européia). Por que a resistência européia aos brasileiros?

Não, não pergunte à imprensa. Este colunista já o fez e jamais encontrou qualquer tipo de resposta.

(*) Jornalista, e-mail <carlos@brickmann.com.br>

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