Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > 4.

Os biógrafos de Hipólito da Costa

Por Antonio F. Costella em 30/12/2003 na edição 257

Este título beneficiou-se de uma conversa entre Alberto Dines e o autor, na qual Dines usou a expressão “jogo de espelhos” quando se referiu à possibilidade, que têm os pósteros, de através do biógrafo perlustrar, a um só tempo, o biógrafo e o biografado. Foi o que acabou acontecendo neste trabalho, com a utilização e a análise da correspondência de Carlos Rizzini com Gastão Nothman a respeito das pesquisas que, ambos, realizaram sobre a vida de Hipólito da Costa. Recordando o mote sugerido pela conversa, o autor lançou mão do “jogo de espelhos” para o título. Por sinal, o “jogo de espelhos” tanto mais se torna aplicável, aqui, na medida em que o autor, é, por sua vez, biógrafo de Carlos Rizzini.

Primeiras tentativas biográficas

Em 1946, Carlos Rizzini publicou uma obra, que hoje é um
clássico da história da imprensa: O livro, o jornal
e a tipografia no Brasil
[Mecenas Dourado, Hipólito
da Costa e o Correio Brasiliense
(Rio de Janeiro: Biblioteca
do Exército Editora, 1957); Mecenas Pereira Dourado nasceu
em Belém, Pará, em 18 de fevereiro de 1893, e faleceu
no Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, em 1? de novembro de 1967]. Esse
trabalho resultou de vários anos de laboriosa pesquisa, na
qual Rizzini revolveu, como o subtítulo arrola, os “meios
de comunicação, correio, catequese, ensino, sociedades
literárias, maçonaria, etc.”, tendo em vista
especialmente o período de 1500 a 1822. Ora, este termo final,
coincidente com o ano da Independência, exigiu o mapeamento
dos personagens principais da cena histórica luso-brasileira
do primeiro quartel do século XIX. Dentre eles, estava Hipólito,
que acabou tão presente na obra a ponto de merecer um capítulo
específico: “Fundador da imprensa brasileira”.
Nessa oportunidade, Rizzini compilou tudo o que havia ? e nós
sabemos não ser muito, à época ? sobre o fascinante
“fundador”. E, assim, nasceu também uma paixão.

Embora formado em direito [sobre a vida de Rizzini, ver Antonio
F. Costella, “Prefácio a respeito deste livro e da vida
de Carlos Rizzini”, em Carlos Rizzini, Liberdade de imprensa
(Campos do Jordão: Mantiqueira, 1998)], Carlos Rizzini revelou-se
e sentiu-se, durante toda a vida, essencialmente um jornalista e,
como tal, haveria de solidarizar-se, é óbvio, com
aquele Hipólito vitimado pelas injustas perseguições
e haveria de empolgar-se com as atribulações do remoto
colega que, exilado na Inglaterra, tivera a interessante idéia
de lançar um jornal em língua portuguesa no país
do exílio. Apaixonado, começou logo a pesquisar.

Comentou com colegas sua intenção de comprar, caso
encontrasse, uma coleção completa do Correio Braziliense,
pois percebia ser indispensável a leitura integral da obra
de Hipólito para poder compreendê-lo adequadamente.
Mas por que comprar uma coleção completa, extremamente
rara, e não se valer da Biblioteca Nacional? (Rizzini residia,
então, no Rio de Janeiro.) Porque a pesquisa demandaria leitura
atenta e minuciosa, morosíssima, que ele somente poderia
fazer em sua própria casa, aproveitando as madrugadas, pois
vivia em contínuo torvelinho profissional, assoberbado pelas
imposições de seu invejado cargo de diretor geral
da cadeia jornalística dos Diários Associados, fundada
e agigantada por Assis Chateaubriand, a qual já congregava
dezenas de jornais e emissoras de rádio, espalhados por todo
o território nacional.

Algum tempo depois, um amigo informou, de Buenos Aires, ter ali
encontrado a ambicionada coleção. Rizzini respondeu-lhe:
“Compre-a por qualquer preço”. Mais tarde, já
de posse dos 29 volumes enviados pelo correio, emocionado, comentaria:
“E não foi caro!” [informações prestadas
ao autor por dona Áurea Ferreira Rizzini, viúva de
Carlos Rizzini; este, ao relatar o episódio, foi mais sucinto
no prefácio de seu livro Hipólito da Costa e o
Correio Braziliense
, acima citado; nele, registrou apenas: “Naquela
época, por um golpe de sorte, adquiri em Buenos Aires a coleção
completa do Correio Braziliense, de suma raridade” (op.
cit., p. xv)].

Daí para frente, durante anos debruçou-se diuturnamente
sobre a coleção do Correio e, em 1957, confessaria:
“Lendo-o, confirmei-me nas lacunas e deficiências, antes
constatadas na biografia de Hipólito da Costa, e no geral
desconhecimento do sentido e da extensão da sua ação
jornalística. Ignorava-se: onde fora sepultado; se existiria
o seu túmulo; que família constituíra; que
filhos deixara; e se destes haveria descendentes atuais” [ver
“Prefácio”, em C. Rizzini, Hipólito da
Costa e o Correio Braziliense
, op. cit].

O rol dos fatos desconhecidos, acima transcrito, demonstra que
Rizzini, ao longo das leituras e dos anos, além de encantar-se
com o estilo e as virtudes jornalísticas do ancestral colega,
passou a interessar-se também pelo Hipólito de carne
e osso, e de uma forma muito além dos limites usuais. Já
não lhe bastava analisar a obra, que lera inteira, nela incluídos,
além do Correio, também o Diário
de minha viagem para Filadélfia
, as Cartas de ofício,
bem como a célebre Narrativa da perseguição
[Narrativa da perseguição de Hippolyto Joseph da
Costa Pereira Furtado de Mendonça
(Londres: 1811), obra
na qual Hipólito relata sua prisão em Lisboa, pela
Inquisição]. Nem lhe parecia suficiente conhecer
o homem em seus ambiente e época, para completar-lhe a visão
coeva da obra, como costumam fazer todos os historiadores. Ansiava
por conhecer mais, ansiava por desvendar-lhe a vida privada, penetrar
até mesmo ? e aqui a singularidade ? nas intimidades familiares.
Parece que Rizzini via Hipólito, apesar da separação
dos anos, como a um colega de redação, um irmão
de ofício, muito, muito amigo.

Daí, com a cabeça repleta de pormenores a respeito
do Hipólito “literário”, Rizzini começou
a procurar, em Londres, o Hipólito de carne e osso, o privado,
o íntimo.

No início de 1952, seguindo as poucas pistas disponíveis,
fez várias investidas. Em certa altura, procurou auxílio
na embaixada brasileira, onde, segundo ele mesmo contaria depois
[no artigo “Descoberto na Inglaterra o túmulo do Fundador
da Imprensa Brasileira”, O Cruzeiro (29/10/1955), p.
85], “comuniquei o insucesso das buscas que então realizava
nos subúrbios da capital inglesa”. Quis o destino benfazejo
que ele ali encontrasse o adido Gastão Nothman, com quem
estabeleceu, em seguida, uma estreita parceria de pesquisas que
durou vários anos. E a parceria funcionou bem, inclusive
porque Gastão Nothman, paulatinamente, também se apaixonaria
pelo tema.

Detetives por correio

A primeira carta de Gastão Nothman para Carlos Rizzini está
datada de 4 de março de 1952 [a correspondência entre
Gastão Nothman e Carlos Rizzini nos foi franqueada por dona
Áurea Rizzini, hoje detentora do arquivo do falecido marido;
todas as cartas de Gastão para Rizzini, bem como as de Rizzini
para Gastão, que serão adiante citadas, pertencem
a esse arquivo; nas citações, mencionaremos apenas
o nome do remetente, ficando implícito que o outro parceiro
é o destinatário; quando for citada alguma carta de
Rizzini ou Gastão para outra pessoa, esse destinatário
será nomeado]. Nela, sente-se a insegurança dos passos
iniciais. A busca do passado de Hipólito apenas engatinhava.
Escreveu ele, em um trecho da missiva:

HIPÓLITO DA COSTA. Há muito comecei a indagar
a respeito do mesmo, que V. me disse tinha falecido em Londres
em set? ou out? de 1822 (Está certo?). Como lhe disse,
os registros civis só começaram em 1837, ou por
aí, de maneira que só na igreja de Kensington.
Também falei com as autoridades de Kensignton que acham
que na própria igreja não se encontrará
mais nada, e sim pesquisando em Somerset House, onde estão
guardados os diversos ?records? dessa natureza. Estou mais de
que pronto a lançar-me nessa busca,… peço apenas
que V. me confirme que a data do falecimento era de 1822.

Enganoso começo: a data estava errada. Rizzini, em carta
de retorno, deve tê-la corrigido [é absolutamente certo
que Rizzini conhecia a data, tanto que ela aparece, em 1946, em
sua obra O livro, o jornal e a tipografia no Brasil, na p.
363: “Desapareceu Hipólito aos 49 anos, a 11 de setembro
de 1823, em Kensington, subúrbio de Londres, de uma moléstia
rápida e traiçoeira”], mesmo porque conhecia
a data certa: 11 de setembro de 1823. Mas não há vestígios
da correção, porque as cartas de Rizzini raramente
geraram cópias, já que escrevia somente à mão
e, na pressa, não devia mandar datilografá-las pela
secretária.[Até o fim da vida, Rizzini jamais datilografou.
Tive oportunidade de descrever seu modo de trabalhar ao tempo em
que ele era secretário de Educação do Município
de São Paulo e, embora já afastado do dia-a-dia jornalístico,
escrevia assíduos artigos, dois por semana, para o Diário
de São Paulo
: “[…] sentava-se à cabeceira
da mesa de reuniões e, logo ao chegar, apanhava uma certa
quantidade de folhas de papel-jornal e, no mínimo, dois ou
três lápis, com pontas previamente afiadas pela secretária.
Com esse equipamento de antiguidade medida em séculos, punha-se
a redigir. Quando errava, apagava cuidadosamente a palavra não
desejada com uma borracha que esqueci de mencionar antes […] terminava
rápido o trabalho de redação e logo passava
o texto para a secretária datilografar” (Antonio F.
Costella, “Prefácio a respeito deste livro e da vida
de Carlos Rizzini”, op. cit., p. 19.)]

Em correspondência de 25 de novembro de 1952, Gastão
Nothman queixava-se de, apesar das muitas buscas, não ter
conseguido resultado algum. Os arquivos da Somerset House de nada
adiantaram. Tentava, agora, dentre outras fontes, o Conselho Luso-Brasileiro
de Londres, entidade que remontava aos tempos de Hipólito.
Seguindo provável sugestão de Rizzini, prometia ir
analisar a documentação do duque de Sussex ? amigo
e protetor do jornalista exilado ? e do Banco de Escócia,
de quem este comprara ações. Em outra missiva, de
29 de janeiro de 1953, conta ter localizado no arquivo da embaixada
brasileira, em Londres, cópias de cinco cartas destinadas
a Hipólito, sendo que uma delas era datada de 11 de setembro
de 1823 (coincidentemente o dia da morte do jornalista) e era endereçada
a “7 Lower Philimore Place, Kensington”, confirmando esse
endereço como o derradeiro.

A descoberta dos locais de moradia anteriores também se
revestia de muita importância, pois, endereços, mesmo
mais antigos, podiam sugerir os distritos ou paróquias detentores
de eventuais registros de atos da vida civil ou revelar outros traços
biográficos de Hipólito. Pesquisando aqui e ali, o
perseverante adido conseguiu descobrir que, de 1809 a 1814, o jornalista
exilado vivera no New Inn, em Londres, n? 1 da Wych
Street. E, como constava que nesse prédio somente habitassem
solteiros, passou a especular a respeito da data do casamento de
Hipólito, acreditando ser ele posterior a esse período
e, talvez, na paróquia de Strand, vizinhanças daquele
lugar.

Um mês depois, em carta de 27 de fevereiro de 1953, o detetive-diplomata
anuncia seu primeiro êxito:

Pouco a pouco estou desvendando o mistério do seu amigo.

Descobriu-se a cópia de administração
do testamento do filho legítimo do Hipólito, que
se chamou Augustus Frederick Hippolyto da Costa, capitão
do Regimento Real de Engenheiros (britânico), que morreu
em Hong Kong em 1849, deixando como único testamenteiro,
a sua mãe, mulher do seu Hipólito, cujo nome era
Mary Ann GLENIE. Morreu solteiro.

Mandei pedir o curriculum vitae do Augustus Frederick no exército,
que mandarei breve. Espero também conseguir outras novidades
sobre a mãe dele, que, parece, casou de novo. Vou também
tentar descobrir o registro de nascimento do Augustus, pois,
conseguindo o ano em que morreu e a idade com que morreu, deve
ser fácil.

Agora, Gastão está mais seguro. Seus passos seguintes já se programam com decisão. Mas o biografado ainda não é “dele”. Ao dirigir-se a Rizzini, refere Hipólito como “seu amigo”, “seu Hipólito”.

As cartas vão se sucedendo e as descobertas se acumulando aos poucos, mas nem sempre as esperanças se concretizam. A ficha funcional do filho de Hipólito no exército britânico esclarece várias coisas, inclusive que ele foi morto por piratas chineses em Hong Kong, mas não a data nem o lugar do nascimento. Um documento tão promissor, desembocou, assim, em um atoleiro.

Paralelamente, Gastão andou contatando a Maçonaria pois era fato conhecido de Rizzini ter Hipólito se iniciado em uma loja de Filadélfia, muito antes da fuga para a Inglaterra. O Freemason?s Hall forneceu informações, mas nada que auxiliasse no referente às relações familiares.[Em carta de 24 de março de 1953, Gastão se reporta a uma correspondência do bibliotecário do Freemason?s Hall na qual se apurava que Hipólito fora admitido, em 31 de março de 1808, na loja Antiquity, de Londres, e em 1814 a uma outra loja londrina, como membro fundador, chamada Royal Inverness. O bibliotecário informava, ainda, que durante algum tempo Hipólito atuara como secretário das Relações Exteriores do Freemason?s Hall, e em 1813 fora nomeado grão-mestre provincial para a província de Rutland.]

Sempre com entusiasmo, embora sofrendo limitações de saúde ? em uma carta queixa-se de angina ?, Gastão vai fuçando os registros de casamento de outras paróquias londrinas, agora em busca, não só do casamento de Mary Ann com Hipólito, mas também o dela com outro homem que, já descobriu, foi o major Melville Glenie.[Em verdade, Mary Ann casou-se três vezes. Primeiro, com Hipólito. Em segundas núpcias, com um tal Glynn, e em terceiras núpcias com Robert Melville Glennie.] Em carta de 24 de março de 1953, relata: “Passei o domingo passado inteiro na City à cata dos registros, acabando por escrever aos ?vestry clerks? de diversas igrejas pedindo seu apoio nas pesquisas”.

Mas fez ainda mais. Em correspondência do mês seguinte, do dia 15, conta:

Estou ainda à cata do registro de casamento do nosso
homem, como do seu falecimento. Inseri um anúncio num
dos jornais da City, pedindo informações, mas,
até hoje, nada. Não perdi as esperanças
todavia, e espero no futuro descobrir mais novidades. Descobri,
mas creio não ser de grande interesse, que o pai do Glenie
era um soldado e matemático notável, figurando
com uma página inteira no National Geography.

Nessa altura, o Hipólito já subira um importante
degrau na estima de Gastão Nothman. Passa a ser o “nosso
homem”. E até o remoto major Melville Glenie perde a
patente e as formalidades. Na narração das descobertas
é, apenas, o “pai do Glenie”.

Novas cartas se sucedem e as peças do quebra-cabeça
começam a se encaixar. De acordo com carta de 9 de julho
de 1953, Gastão Nothman descobre que Mary Ann era filha de
Richard Troughton, “que morava em Vauxhall, Londres, e em Hurley
no condado de Berkshire”. Localiza nos Gentleman?s Magazine
de dezembro de 1819 e de março de 1821 os nascimentos, respectivamente,
de uma filha e do filho de Hipólito. Fica também sabendo
que “o nosso homem” fora pai, em verdade, de mais uma
filha. [Mary Ann e Hipólito tiveram três filhos: Augusta
Carolina, Anne Shirley e Augusto Frederico.] E, ademais, desencava
o testamento de Richard Troughton, no qual aparece, dentre os bens
arrolados, a propriedade “Lady Place”, situada em Hurley,
uma pista importantíssima para descobertas futuras.

Entre mortos e vivos



Depois de pesquisar dois anos, descobri que o nosso herói
Hypolito foi enterrado em 16 de set? 1823 na aldeia onde seu
sogro tinha uma bonita propriedade que me proponho visitar dentro
de uma semana. Não só isso mas […] na igreja
foram erigidas duas grandes placas comemorativas a ele e ao
filho…

Assim se expressou Gastão em carta de 17 de abril de 1955.
Note-se, ele escreveu: “o nosso herói Hypolito”.
Cumpriu logo o prometido. Foi a Hurley, do que deu conta em carta
de 25 de abril de 1955:

Meu caro Rizzini

Está finalmente resolvido o segredo de 132 anos a respeito
do Hippolyto.

Descobri o túmulo com a inscrição e as
duas placas comemorativas. Junto remeto um rascunho da pedra
que encobre o túmulo e que faz parte do assoalho da igreja
logo ao transpor-se o portão da mesma. Está muito
gasta e não aguentará por muito mais tempo, apesar
do padre cobrir a laje com um pedacinho de tapete.

Depois de tantos esforços o prêmio veio dobrado. Em
carta do dia imediato, Gastão apressa-se a relatar:

Hoje, seguindo um palpite que já sentia há tempos,
visitei a igreja de St. Mary, na paróquia de Lambeth,
em Londres, e lá ao meu imenso prazer e satisfação,
bati com o registro de casamento do Hippolyto com a Mary Ann.

[…]

Queira notar que a cerimônia foi presenciada pelo Frederick
Augustus (duque de Sussex), e celebrada por um padre que não
era o dessa igreja, mas sim de uma igreja no campo. Talvez teria
sido o capelão do duque. Vou investigar.

Hoje também descobri o registro de batismo de Ann Shirley
da Costa em 18 de jan? de 1820, e de Frederico Augusto em 3
de maio de 1821, ambos na igreja de St. Mary Abbott?s, na paróquia
de Kensington, em Londres.

Já no dia seguinte, nova carta. (Nesta fase, as correspondências
foram quase diárias.) Com esta, vieram muitas fotografias
e uma singela descrição: “Hurley é uma
linda aldeiazinha perto de Maidenhead, no condado de Berkshire,
à beira do Tamisa”.

Na seqüência, Gastão descobriu que Anne Shirley,
filha de Hipólito, casou-se com um tenente de nome Whitworth
Porter e com ele teve um menino que se chamou Reginald da Costa
Porter e uma menina, Catherine da Costa Porter. Continuando as pesquisas,
reencontrou esses descendentes já adultos mais adiante, e
casados, tanto que em 6 de maio de 1955 anunciava, em carta, nomes
de bisnetos e trinetos.

Reconstruindo árvores genealógicas, logrou reunir
todo um elenco de descendentes que envolviam nomes de uma dezena
de famílias. [Em discurso proferido em cerimônia no
Itamaraty, Rizzini esclarece: “Ann Shirley, casando com o tenente
Whitworth Porter, que atingiu o generalato no exército inglês,
é a fonte de toda a longa e numerosa descendência do
redator do Correio Braziliense, onde se cruzam as famílias
Jefferies, Crosse, Sellon, Bates, Oliver, Bellasis, Lockyer, Lewis,
Prynne, Kelly, Stewart, Mollesworth, Leonard, Huggins e Swan”,
apud O Jornal, Rio de Janeiro, 10/1/1958.] Localizando tais
nomes na lista telefônica de Londres, passou a fazer ligações,
perguntando às pessoas se porventura teriam algum vínculo
ancestral com um tal mister Costa, jornalista brasileiro
que se estabelecera em Londres no início do século
XIX etc. etc. E conseguiu. Conseguiu localizar descendentes vivos
de Hipólito, inclusive um certo coronel Arthur Sidney Bates,
de 76 anos de idade, que Gastão anuncia, muito animado, como
“o historiador da família”. Sobreveio, então,
por intermédio deste coronel, uma catadupa de informações
novas, retratos, fotografias, objetos, pormenores genealógicos
etc.

Com todo esse material, e mesclando-o às informações
que ao longo de anos colhera de outras fontes, Carlos Rizzini publicou
um longo artigo, fartamente ilustrado, na revista O Cruzeiro,
de 29 de outubro de 1955, com o título: “Descoberto,
na Inglaterra, o túmulo do Fundador da Imprensa Brasileira”,
acrescido do subtítulo “A vida de Hipólito da
Costa, que deixou no Reino Unido numerosa descendência”.
A matéria se estendeu amplamente, dividida nos seguintes
tópicos: “Um fugitivo em Londres, Missão em Filadélfia,
Missão em Londres, Prisão e fuga, Lançamento
do Correio Brasiliense, Na diplomacia, Morte, A família,
Atividades maçônicas comprovadas, Hipólito comediógrafo,
Casamento em 1817, O filho varão, As duas filhas, Descendentes
e O túmulo”. Foram incluídos, como ilustrações,
o último retrato de Hipólito e um de sua mulher Mary
Ann, bem como os de Anne Shirley da Costa, major Whitworth Porter,
tenente Reginald da Costa Porter, Catherine da Costa Porter e coronel
Charles Robert Crosse. Reproduziram-se também as certidões
de casamento de Hipólito e Mary Ann, Anne Shirley e Whitworth
Porter, e Augusta Carolina (a outra filha de Hipólito) com
seu primo Adolfo Charles Troughton.

Não faltaram ainda as fotografias da igrejinha de Santa
Maria, em Hurley, com o seu pároco, a lápide tumular
e uma placa em memória de Hipólito mandada gravar
pelo seu grande amigo, o duque de Sussex, ambas dentro da igreja.
Para completar e para cumprir promessa feita por Gastão ao
coronel Bates, aparecem duas fotografias: uma da família
de Bates e descendentes, em atitude formal, especialmente tirada
para a ocasião; e uma outra na qual o casal Bates “corta
o bolo comemorativo de suas bodas de ouro, no dia 26 de abril, em
sua acolhedora residência de campo, em Basingstoke, Hampshire”
[O Cruzeiro, 29/10/1955, pp. 84-90].

Sem dúvida, acabou tudo em família. Hipólito
? ao menos para Rizzini e Gastão ? não era mais apenas
um vulto histórico. Era um amigo do peito. Quase um parente.

Méritos compartilhados

Carlos Rizzini deu a Gastão Nothman seu justo valor. Na
referida matéria de O Cruzeiro, em 1955, incluiu uma
janela na qual inseriu a fotografia do adido de nossa embaixada
em Londres e escreveu que, se a biografia de Hipólito agora
era uma das mais conhecidas, dentre as das grandes figuras de nossa
história, devia-se “tão inestimável serviço
[…] a Gastão Nothman, da embaixada brasileira em Londres,
um dos homens mais inteligentes, prestigiosos e prestativos que
encontrei entre os nossos diplomatas”.

No prefácio de seu livro Hipólito da Costa e o
Correio Braziliense,
de 1957, Rizzini reiterou os elogios ao
colaborador de Londres:

Gastão Nothman é legitimamente co-autor deste
livro. Durante quatro anos aplicou as horas do seu repouso e
os recursos de sua economia individual em árduas e aturadas
pesquisas na Inglaterra partindo da simples nota que lhe deixei
com algumas datas da presença e da morte do grande publicista
brasileiro. Nada então se sabia de sua vida privada.
Hoje, sabe-se tudo, porque Gastão Nothman, passo a passo,
com dedicação e inteligência, tudo desvendou
[Op. cit., p. xvi].

Lendo as cartas que acima transcrevemos, mais a janela da matéria
de O Cruzeiro, e agora esta declaração do prefácio,
pode ficar a impressão de que Rizzini nada fez de relevante
nessa pesquisa referente ao histórico familiar.

Errado. A pesquisa teve êxito porque a parceria funcionou
bem. E funcionou bem porque ocorreu uma perfeita soma de elementos:
à extraordinária dedicação de Gastão,
associou-se o cabedal de conhecimentos históricos de Rizzini.

Nas cartas, Gastão se reporta várias vezes às
solicitações de Rizzini, deixando perceber que este
último, em suas missivas, orientava, questionava, sugeria,
cobrava, lembrava, conduzia, discordava, estimulava, aplaudia.

Infelizmente, pelos motivos já explicados, restaram poucas
cópias das cartas enviadas por Rizzini. Uma das poucas existentes,
porém, talvez seja suficiente para exemplificar como se desenvolveu
o trabalho em dupla, realmente em dupla:

Gastão,

Acabo de receber a sua carta de 14 em resposta à minha
sem data.

Você deve ter recebido uma outra carta com novas questões.
Para bom entendimento vou recapitular aqui os pontos obscuros.

NATURALIZAÇÃO ? Estou espantado com a informação
do Home Office. Conheço dois ofícios de d. Domingos
Coutinho, embaixador português em Londres, entre 1808
e 1817, um ofício de d. Rodrigo Coutinho, ministro de
Estrangeiros de d. João VI no Rio, todos dando Hipólito
como naturalizado cidadão inglês, “graças
à bondade do duque de Sussex”. Foi por esse motivo
que fracassaram as tentativas de d. Domingos para expulsar Hip&ooacute;lito
da Inglaterra em 1810, conforme ele confessa “ofício
de 7/3/1810”. Também o periódico Padre
Amaro
publicado em Londres de 1820 a 1822 declara ser Hipólito
pouco brasileiro, pois estava naturalizado inglês. Como
conciliar esses testemunhos pessoais e contemporâneos
com a informação do Home Office? Sugiro procurar
a nacionalidade de Hipólito declarada no registro de
casamento e no registro de óbito.

FOREIGN SECRETARY ? Tenho dúvidas sobre se Hipólito
foi secretário de Sussex ou se foi secretário
do Grão Mestrado quando Sussex era o grão-mestre.
Isso pode ser verificado no Freemason?s Hall.

WILLIAM PRESTON ? A dúvida que precisamos esclarecer
é sobre a data do tratado assinado por Hipólito
e Heseltine. Preston na edição de 1804, 11a
edição, conta a diligência de Hipólito
em 1802 para obter a autorização da Grande Loja
da Inglaterra para a filiação das lojas portuguesas,
o que não foi completamente conseguido. Portanto o tratado
teria sido assinado posteriormente, talvez quando Hipólito
já estaria morando em Londres. Quando? Essa data é
muito importante.

FILHO NATURAL ? É positivo que José Felix da
Costa nasceu em Londres. Possivelmente na paróquia a
que pertence Paternoster Row. Teria nascido, pelos meus cálculos,
entre 1806 e 1811. Como já disse presumo que a amante
ou esposa de Hipólito tivesse as iniciais A. L. Este
L seria Lewis, nome do impressor do Correio Braziliense.
Um dos inimigos de Hipólito aludiu ao seu “sogro
impressor de Pasternoster Row”. Se Hipólito casou
com A. Lewis na igreja católica, ele poderia apresentar-se
no casamento com Mary Ann, como ?bachelor??

CARTA SOBRE A FRAMAÇONERIA ? Deve existir no
museu o livrinho ?Cartas sobre a Framaçoneria?, editado
em Londres (dizendo Madri) 1805. Quer ver se a data é
mesmo 1805? Haverá outra edição? O livrinho
é anônimo. Mas é do Hipólito.

I ? As cartas ao barão de Eben devem ser curiosas. Esse
barão servia como general no exército inglês.
Como tal foi para Portugal. Lá meteu-se na conspiração
de 1817. Foi expulso de Portugal e da… Inglaterra! O duque
de Sussex defendeu-o na Câmara dos Lords.

II ? No New Inn, Wych Street, só viviam solteiros? Apurou
algo sobre sua localização?

III ? Atendendo a um pedido de Sussex e a um requerimento da
viúva Mary Ann, o imperador mandou, por decreto de 29
de outubro de 1824, dar-lhe ?100 por ano. Isso foi comunicado
pelo ministro de Estrangeiros ao encarregado de negócios
em Londres em ofício de 30/10/1824. Constará a
respeito algo aí na embaixada? [Esta carta de Carlos
Rizzini &eeacute; de 19 de março de 1956. O José
Félix da Costa, nela referido, é o filho natural
de Hipólito, nascido antes de seu casamento com Mary
Ann.]

Pela riqueza de pormenores contidos nas observações
de Rizzini, torna-se evidente que sua participação
na parceria revelava-se indispensável. Eram as cartas de
Rizzini que norteavam boa parte das buscas na Inglaterra.

Ademais, o livro, cuja co-autoria Rizzini generosamente confere
a Gastão, não se resume ao levantamento da vida privada
de Hipólito. Como veremos adiante, esse levantamento, embora
muito valioso pelo ineditismo, responde por apenas uma parcela,
e relativamente pequena, do conjunto da obra, a saber: a primeira
parte e a iconografia. Coube a Rizzini, sozinho, as quatro demais
partes: uma, a respeito do cenário histórico da época,
e três outras, resultantes da análise pormenorizada
do conteúdo do Correio Braziliense em seus catorze
anos de circulação.

Mas, ainda assim, foi justa a homenagem. Os esforços despendidos
por Gastão foram enormes. Realizou sua pesquisa, ao longo
de cinco anos, aproveitando quase sempre a hora do almoço
nos dias úteis da semana, porque, segundo lembrou ele, na
embaixada trabalhava também aos sábados e, nesse dia,
as repartições públicas britânicas fechavam
ao meio-dia. Fez várias viagens à cata de informações.
Até dinheiro gastou, do próprio bolso. Na parceria,
portanto, cada qual cumpriu integral e fielmente o seu papel. E
mais.

Com o passar dos anos e das cartas, nasceu uma forte cumplicidade
“histórica”. Pudera! Foram 66 as cartas de Gastão
[incluem-se nesta soma todas as cartas desde a de 4 de março
de 1952 até a última, de 28 de dezembro de 1957; pode
ter havido mais alguma, porventura perdida ou não encontrada,
mas é pouco provável, pois a viúva de Rizzini
sempre foi muito organizada e cuidadosa, em especial com o material
do arquivo do marido], e imaginamos que em quantidade equivalente
tenham sido as de Rizzini. Por meio delas, manteve-se uma amizade
epistolar incomum na qual raras foram as frases que envolveram outros
assuntos, e quase inexistentes as que chegaram à vida privada
de qualquer dos correspondentes. Hipólito ? a grande paixão
? ocupava os dois homens por inteiro.

O terceiro apaixonado

Durante o período em que aqueles dois parceiros entretinham-se
com Hipólito, um outro pesquisador ? um professor de história
nascido no Pará e residente no Rio de Janeiro ? também
vasculhava, com igual entusiasmo, a vida do precursor do jornalismo
brasileiro. Seu nome: Mecenas Dourado.

Com grande afinco, este terceiro apaixonado desenvolveu intensas
pesquisas sobre Hipólito na seção de manuscritos
da Biblioteca Nacional e em uma quinzena de outros arquivos, principalmente
no Arquivo Histórico do Itamaraty. Em vários recintos,
suas cartas devem ter cruzado com a correspondência ou com
as pegadas de Rizzini e Gastão: em Lisboa, na Torre do Tombo;
em Évora, no Arquivo Público; na Maçonaria
inglesa e em outros lugares. [As cartas devem ter se cruzado, dissemos,
porque Mecenas somente veio a ter a oportunidade de visitar a Europa
em 1963, cinco anos após a publicação de seu
livro, segundo informação que foi prestada ao autor
por Hugo Dourado, filho de Mecenas Dourado.]

Mecenas leu e estudou toda a coleção do Correio
Braziliense
, com o objetivo de fazer “a análise
das idéias do jornalista”, segundo explicou na introdução
de seu livro Hipólito da Costa e o Correio Brasiliense,
as quais acabou por conhecer pormenorizadamente.

Em suas pesquisas, Mecenas mobilizou outros historiadores, como
o professor Robert C. Smith, da Universidade de Pensilvânia,
que havia publicado nos Estados Unidos uma tradução
inglesa de parte do Diário de minha viagem para Filadélfia,
[veja-se em Mecenas Dourado, op. cit., p. 49, nota 46: “Deste
?Diário? o prof. Robert C. Smith, da Universidade de Pensilvânia,
publicou uma tradução inglesa da parte referente à
estada de Hipólito em Filadélfia no The Pennsylvania
Magazine of History and Biography
, volume 78 (jan. 1954), do
qual tirou uma separata com o título “A Portuguese Naturalist
in Philadelphia, 1799”; Mr. Francis M. Rogers, professor de
línguas e literaturas românicas na Universidade de
Harward, anuncia a próxima publicação de uma
integral tradução inglesa, acompanhada de notas, do
Diário de Hipólito, pelo prof. Ramon Martinez Lopes,
na Universidade de Texas. Ver Francis M. Rogers, “A Brief Survey
of Current Research Projects concerning Hipólito da Costa”,
setembro de 1954, distribuída a escritores que se interessam
pelos estudos sobre Hipólito da Costa”] e, dentre os
nacionais, contatou Plínio Salgado, Francisco de Assis Barbosa
e Hélio Viana.

A partir de algum momento, tanto Rizzini, quanto Mecenas, passaram
a saber que estavam lavrando, ambos, no mesmo terreno.

Em carta de 25 de novembro de 1952, endereçada a Rizzini,
Gastão Nothman lança uma nota manuscrita pela qual
se depreende que alguém, “do Brasil”, estava pesquisando
Hipólito, mas ele não informa quem seria a pessoa.
Considerando que, afora Rizzini e Mecenas, ninguém mais realizou
qualquer trabalho de vulto sobre o tema nos anos seguintes, é
tentador imaginar que essa pessoa seria, já, Mecenas Dourado.

Três anos depois, em carta de 25 de abril de 1955, na qual
anunciou ter “resolvido o segredo de 132 anos a respeito do
Hippolyto”, Gastão datilografou o seguinte comentário
no final do texto: “Ao meu ver deve você agir com presteza
na publicação de sua obra, pois, depois de tanto pesquisar,
muita gente anda alertada”. Quem seria a “muita gente”?
Mecenas, é de se supor, de novo.

Em um pós-escrito, que coloca em missiva do dia imediato
(26 de abril), Gastão conta ter estado, há tempos,
no Conselho Luso-Brasileiro de Londres, onde lhe mostraram “cópia
de carta distribuída pelo Francis H. Rogers da Universidade
de Harvard, que li com grande interesse, notando entre outros
o seu nome
“. Ora, essa carta, em verdade, era uma
circular enviada, em 1954, pelo professor norte-americano para todos
aqueles que andavam estudando Hipólito. Nela, Gastão,
como comenta acima, notou o nome de Rizzini. A circular é
expressamente mencionada por Mecenas em seu livro (veja-se nossa
nota 26). Logo, ao menos em 1954, Mecenas já sabia, com certeza,
que Rizzini estava desenvolvendo pesquisas sobre o mesmo tema em
que ocupava as suas.

Existe uma correspondência de Helio Viana, fornecendo informações
para Rizzini, na qual o grande historiador da imprensa, com muita
lealdade, informa estar enviando os mesmos dados para Mecenas.

Em 5 de setembro de 1955, três semanas antes de chegar às
bancas o número de O Cruzeiro com a matéria
que desvendaria para o público, pela primeira vez, grande
parte da vida privada de Hipólito, Gastão informa
que seu chefe, na embaixada, mostrou-lhe um ofício do Itamaraty,
“pedindo os certificados de óbito do Hip., o do seu
casamento, os do nascimento dos seus filhos, e Deus sabe mais o
que…”. Pelo que se pode concluir, o êxito das
pesquisas vazara, e chegara a Mecenas, que logo se mexeu. Chegou
tarde, porém, o pedido. Gastão disse ao embaixador,
segundo relata em carta de 10 do mesmo mês, que aconselhasse
Mecenas a “dirigir-se diretamente ao Rizzini”, pois os
documentos já haviam atravessado o Atlântico e chegado
às mãos do parceiro. [Mecenas Dourado voltaria à
carga no ano seguinte. É o que relata Gastão em carta
de 1o. de junho de 1956: “O Itamaraty enviou um
ofício pedindo minha colaboração quanto ao
Hipp. Vejo nisso claramente do Mecenas [sic]. Pedi ao meu chefe
que respondesse que não possuo mais nenhuma documentação
que foi tudo enviado para você no Brasil…”. Quanto
ao fato de Gastão não ter guardado cópias,
convém lembrar, que, à época, não existia
xerox. Mais tarde, Mecenas Dourado, em nota lançada ao pé
da p. 254 de seu livro, registraria uma dissimulada queixa: “As
cartas que escrevemos ao coronel Arthur Sidney Bates, casado com
uma bisneta de Hipólito, não tiveram resposta. O sr.
Gastão Nothman, auxiliar do consulado brasileiro em Londres,
que fez investigações sobre Hipólito para o
sr. Carlos Rizzini, não nos pôde dar nenhum esclarecimento”.]

A acesa atenção e a notória preocupação
de Mecenas para com todos os pormenores demonstra o quanto ele estava
concentrado no assunto e obcecado por não deixar escapar
qualquer detalhe a respeito de Hipólito. Aqueles documentos
não lhe seriam vitais, tanto que o seu livro não sofreu
prejuízo essencial com a falta deles, e pôde se reportar
a todos os dados neles contidos, transcrevendo-os de O Cruzeiro
e dando o crédito devido à dupla pesquisadora. [Mecenas
Dourado se reporta às pesquisas de Rizzini, publicadas em
O Cruzeiro, nas páginas 10, 118 (nota 149), 255 (nota
332), 256 (nota 333), e 257-58 (nota 337) de seu livro, acima citado.]

O trabalho de Mecenas Dourado, quando ainda inédito, conquistou
o Prêmio Pandiá Calógeras de 1956, concedido
pela Biblioteca do Exército. E foi publicado no ano de 1957.

Trata-se de livro de grande importância, sem dúvida,
para a história do fundador de nossa imprensa. Com dois volumes
que somam 642 páginas, editados pela Biblioteca do Exército,
a obra confirmou, pelo porte, ter exigido o árduo trabalho
de pesquisa que mencionamos no início deste tópico.
[O primeiro volume do livro de Mecenas Dourado desenvolve os seguintes
capítulos: “I ? A família; II ? O universitário;
III ? Missão aos Estados Unidos; IV ? Amizades científicas;
V ? A primeira reportagem; VI ? A prisão; VII ? O duque de
Sussex; VIII ? Exílio na Inglaterra; IX ? Atividade maçônica
e literária; X ? O Correio Brasiliense; XI ? Os emigrados
portugueses em Londres; XII ? A condessa de Oyenhausen; XIII ? Um
amigo; XIV ? Um inimigo; XV ? Um discípulo; XVI ? Denizen;
XVII ? A história doméstica; XVIII ? A reação
contra o Correio Brasiliense; XIX ? Panfletos e panfletários”.
O segundo volume ocupa-se dos seguintes capítulos: “XX
? Os jornais portugueses em Londres: O Investigador Português;
XXI ? Os jornais portugueses em Londres: O Espelho, O
Português
e O Campeão Português; XXII
? O suborno do Correio Brasiliense; XXIII ? O Chalaça,
leitor e agente do Correio Brasiliense; XXIV ? O processo;
XXV ? Paralelo da Constituição portuguesa com a inglesa;
XXVI ? A revolução de 1817; XXVII ? A emancipação
das colônias espanholas; XXVIII ? Planos e projetos renovadores;
XXIX ? A Independência; XXX ? Retoques de um perfil; XXXI
? O reconhecimento da Independência; Apêndice”].

O ano de Hipólito

O ano de 1957 foi extraordinariamente benéfico para a memória
de Hipólito. Antes, quase nada se sabia a seu respeito. A
partir de então, quase tudo passou a ser conhecido. Nesse
ano, além do livro de Mecenas Dourado, veio à luz
também o de Carlos Rizzini.

Em comentário de 31 de janeiro de 1957, na sua coluna “Vida
Literária” do jornal Última Hora, de São
Paulo, o cronista e crítico Fernando Góes informa
que “o próximo volume da Brasiliana Gigante, da Cia.
Editora Nacional, é o estudo de Carlos Rizzini sobre Hipólito
José da Costa, no qual trabalhou dez anos”. G&oacutoacute;es
aborda, ao longo de seu texto, todos os tópicos, quase item
por item, do “índice sumário” do livro,
e, ao fim, acrescenta que a obra “já está em
impressão, devendo a Cia. Editora Nacional lançá-lo
ainda este semestre”.

Algum problema causou atraso, já que Rizzini somente veio
a fazer sua noite de autógrafos em 13 de setembro de 1957.
O livro estava pronto, entretanto, em fins de agosto, pois há
um exemplar com dedicatória manuscrita por Rizzini para sua
mulher, Áurea, datada de 29 de agosto.

A obra de Rizzini, com 310 páginas, e mais 22 de ilustrações,
distribui-se em cinco partes, por ele denominadas “livros”.
[Esses livros da obra de Rizzini desdobram-se nos capítulos
abaixo arrolados. Livro I (Vicissitudes de um semeador de idéias
no ocaso do absolutismo), capítulos: I ? Os caminhos da liberdade;
II ? Os 18 anos de Inglaterra; III ? A ?terrível invenção
de um jornal português em Inglaterra?. Livro II (Ensaio sobre
o estado mental, social e político do Brasil no limiar do
século XIX), capítulos: I ? Entrada e circulação
dos conhecimentos e das idéias: escolas, livros e periódicos;
II ? Assimilação: a literatura colonial publicada
em tempo e fora de tempo, e a inédita ou perecida, academias
literárias, correios; III ? Formação de uma
consciência própria: academias secretas, clubes maçônicos,
pasquins, pruridos autonomistas. Livro III (A ação
esclarecida e tenaz do Correio Braziliense contra a opressão,
a ignorância, a corrupção e o servilismo nos
Estados portugueses), capítulos: I ? Um periódico
livre entre Portugal subjugado e a América espanhola rebelada;
II ? Combate às instituições anacrônicas,
ao despotismo dos governantes e à censura ao pensamento escrito;
III ? Esforços ininterruptos para disciplinar o comércio
e o crédito, incrementar a navegação, varrer
os monopólios e moralizar as finanças públicas;
IV ? Um abolicionista, entusiasta da imigração branca,
a braços com as arbitrariedades da Inglaterra e a ameaça
de súbita extinção da escravatura. Livro IV
(Partidário da unidade da pátria portuguesa, opõe-se
obstinadamente o Correio à separação
do Brasil), capítulos: I ? Pela volta dos Estados portugueses
às franquias e às corporações eletivas
da sua primitiva organização política; II ?
Pregando caber as revoluções aos governos, reprova
o Correio o levante republicano e aprova o constitucional
do Porto; III ? Preservando a integridade da Monarquia, apóia
Hipólito a descentralização do governo do Brasill,
o enfraquecimento das províncias e a revocação
do príncipe-regente. Livro V (Revoltado com a dilaceração
e a degradação do Brasil, adere o Correio,
em julho de 1822, ao movimento da Independência), capítulos:
I ? Acima da união dos Reinos, a integridade territorial
e política do Brasil; II ? Constituição simples,
reformas lentas, ministros responsáveis, política
americana, finanças saneadas, uma poderosa força naval,
as últimas advertências do Braziliense.].

No primeiro, Rizzini se ocupa da biografia de Hipólito;
no segundo, das características sociais e políticas
da época; e nos três outros (“Livros III, IV e
V”), das idéias de Hipólito, em especial as veiculadas
por meio do Correio Braziliense, e do relacionamento delas
com os fatos ocorridos naqueles tempos.

A obra de Rizzini revelou-se de enorme importância e, como
legítimo fruto de muitos anos de pesquisa e reflexão,
impressiona fortemente o leitor. É um trabalho que, embora
publicado à mesma época da obra de Mecenas, revela-se
igualmente indispensável para o pesquisador de Hipólito.

Não só pelo fato de terem sido editadas no mesmo
ano, mas também porque cravaram, juntas, um marco fundamental
no seu campo de estudos, dedicaremos o próximo tópico
para verificar que comparações tornaram-se possíveis
entre elas.

Antes, porém, precisamos fazer uma observação.
Não passará pela cabeça de alguém de
bom senso comparar dois livros somente em função do
seu número de páginas. No entanto, para acautelar
aqueles que terão oportunidade de ler este texto, mas não
o de compulsar aqueles livros, devemos informar que os dois livros
têm, substancialmente, a mesma extensão. O livro de
Mecenas conta com 642 páginas, mas em formato 12 x 18 cm.
e letras de corpo graúdo, enquanto o de Rizzini, soma 310
páginas (sem contar as ilustrações encartadas)
de 16 x 24 cm. em letras bem menores. Em outras palavras, se ambos
os livros tivessem sido compostos e diagramados com igual corpo
de letra, mesmo formato de papel e equivalentes medidas de mancha,
ou seja, se tivessem ambos igual feição gráfica,
resultariam em dois livros com o mesmo, ou quase o mesmo, número
de páginas.

A comparação dos livros

Deixando de lado os vários artigos que se limitaram à
resenha, e não alcançaram o patamar superior da verdadeira
crítica, lançaremos mão de dois textos de autores
de inegáveis méritos que, contemporaneamente à
edição dos livros, publicaram críticas comparativas
sobre eles. Um dos textos é de Wilson Martins, intitula-se
“Hipólito José da Costa” e foi publicado
no jornal O Estado de S. Paulo, em 1o. de fevereiro
de 1958. O outro, de Barbosa Lima Sobrinho, “Os biógrafos
de Hipólito da Costa”, saiu no Jornal do Brasil,
do Rio de Janeiro, em 1o. de dezembro de 1957.

Os dois críticos enaltecem o valor de ambas as obras no
que tange às pesquisas realizadas. “Ambas são
excelentes, sérias, documentadas”, proclama Barbosa
Lima Sobrinho. “Com méritos perfeitamente iguais
no que se refere à pesquisa biográfica”, confirma
Wilson Martins.

Concordam, os dois, que ambos os biógrafos abordaram igualmente
os aspectos pertinentes ao assunto. “Os temas a que dão
maior destaque são quase os mesmos”, assinala Barbosa
Lima Sobrinho. “Coincidem, nas linhas gerais, as informações
veiculadas pelos dois”, reitera o outro.

Decidiram os críticos colocar em especial relevo duas questões
levantadas nos livros e as destacaram, por coincidência ou
por gerarem dúvidas, justamente as mesmas, a saber: a da
aquisição de suposta nacionalidade britânica
por Hipólito e a do pagamento de suborno a ele por d. João
VI. Quanto à segunda, ambos concordam que Rizzini poupou
Hipólito, enquanto Mecenas mostrou-se mais realista. Escreve
Wilson Martins: “Quanto à delicada questão do
suborno a que ele fora levado ou de que tivera a iniciativa, é
visível o propósito do sr. Carlos Rizzini de atenuar-lhe
a significação (já que o fato em si mesmo,
segundo parece, não pode ser contestado), enquanto o sr.
Mecenas Dourado estabelece, sem sombra de dúvida, a responsabilidade
de Hipólito, com o esclarecimento de todos os meandros desse
sinuoso episódio”. E, na mesma direção,
o outro crítico diz: “Pareceu-me o sr. Rizzini mais
tolerante, no explicar a questão do suborno do jornalista
do Correio Braziliense, embora não deixe também
de ser compreensivo o sr. Mecenas Dourado”.

Já com relação à naturalização
de Hipólito, dividiram-se as opiniões, tanto dos biógrafos,
quanto dos críticos. Mecenas acredita que Hipólito
“prestou juramento de fidelidade ao rei da Inglaterra”,
adquirindo certos direitos de cidadania por ato de denization,
com o que concorda Wilson Martins, [Cf. Wilson Martins, “Hipólito
José da Costa”, O Estado de S. Paulo, 1/2/1958:
“Além disso, é exato que, por um processo jurídico
diferente da naturalização, Hipólito José
da Costa adquiriu a cidadania britânica, se é verdade
que cidadania quer dizer, antes e acima de tudo, gozo dos direitos
que a cidadania confere. Isso posto, não estavam absolutamente
enganados, como parece crer o sr. Mecenas Dourado, os que viam em
Hipólito José da Costa um cidadão britânico.
Não se deduz desse postulado que o biógrafo devesse
desprezar o esclarecimento da questão, e o sr. Mecenas Dourado
o faz com argumentação e documentos mais convincentes
que os do sr. Carlos Rizzini. Este último afirma que ?o jornalista
não se naturalizara inglês, nem por letters of denization
nem act of naturalization; mas obtivera os mesmos direitos
por um meio possivelmente mais rápido e discreto: comprara
ações do banco da Escócia (p. 39). Ora, o sr.
Mecenas Dourado demonstra que foi, precisamente, a denization
que Hipólito José da Costa escolhera como maneira
de se tornar cidadão britânico sem perder a cidadania
portuguesa e sem renegar a sua pátria; a aquisição
das ações escocesas é, indubitavelmente, posterior
àquele juramento. Nesse particular, o sr. Carlos Rizzini,
citando, como o sr. Mecenas Dourado, um trecho famoso do Correio
Braziliense
, parece não ter observado que o próprio
Hipólito indicava essa cronologia. Deduz-se dessa importante
passagem que a compra das ações pôs a circular
o boato da naturalização; Hipólito acentua,
entretanto, que os privilégios da cidadania britânica
?já os tinha o redator a muito tempo? e que ?a aquisição
dos fundos de Escócia só lhe podia dar de mais o direito
de possuir bens de raiz e de assento no Parlamento?. Não
pode ser mais claro: tornando-se acionista do Banco da Escócia,
Hipólito José da Costa viu aumentadas as suas prerrogativas
cívicas na Inglaterra, mas elas já existiam antes
disso, em consequência do processo de denization a
que o sr. Mecenas Dourado longamente se refere. Nenhum dos dois
biógrafos, porém, esclareceu pormenor de alguma importância
que se prende a essa questão, o de saber se não decorria
justamente da sua condição de denizen a possibilidade
de adquirir os fundos escoceses. Seja como for, acentua o sr. Carlos
Rizzini, Hipólito José da Costa ?viveu e morreu cidadão
português?, sem que isso o tivesse impedido de viver e morrer
cidadão britânico: essa duplicidade, muito coerente
com o que se sabe do seu caráter, adquire todo o seu significado
profundo à luz de circunstâncias biográficas”.],
enquanto Rizzini defende que o redator do Correio nunca se
naturalizou, nem praticou o tal ato de denization, conclusão
endossada por Barbosa Lima Sobrinho. [Cf. Barbosa Lima Sobrinho,
“Os biógrafos de Hipólito da Costa”, Jornal
do Brasil
, 1/12/1957: “No caso da naturalização
o sr. Rizzini entende que as regalias, de que Hipólito da
Costa gozava na Inglaterra, provinham exclusivamente de sua posição
de acionista do Banco da Escócia. O sr. Mecenas Dourado admite
uma situação de denizen, que não é
bem uma naturalização, mas uma espécie de compromisso
de subordinação ao rei, ou uma situação
intermediária entre o estrangeiro e o naturalizado. Tirara
essa conclusão de uma informação do barão
d?Eben, segundo o qual Hipólito ?prestara juramento de fidelidade
à Inglaterra?. Os textos do Correio Brasiliense, nos
volumes 21 e 26 ? sobretudo neste último, parecem mais ajustados
à tese do sr. Rizzini. Foi esse, aliás, outro ponto
esclarecido pelas investigações do sr. Gastão
Nothman, que obteve informação do diretor do Home
Office da Inglaterra”.]

(Sobre essa questão, concordamos com Barbosa Lima Sobrinho.
Rizzini transcreveu o texto de uma declaração do diretor
do Home Office britânico, na qual este nega a pretensa denization
de Hipólito. É um documento, e não foi desmentido
por qualquer outro.)

Quando fazem a avaliação global das duas obras, divergem
bastante os críticos.

Barbosa Lima Sobrinho ressalta que “o sr. Mecenas Dourado
esclareceu muita coisa das origens da família de Hipólito
da Costa na Colônia do Sacramento e no Rio Grande do Sul”,
mas, no cômputo final, emparelha os dois livros: “Não
há, pois, que concluir, entre as duas obras, qual a que mais
interessa”. E completa:

Uma não dispensa a leitura da outra, pois que ou não
se detiveram sempre nos mesmos aspectos ou os encararam de maneira
diferente. Se o livro do sr. Mecenas Dourado tem sentido mais
acentuadamente biográfico, nem por isso deixam de ter
o mesmo interesse as observações, de ordem mais
geral, do livro do sr. Rizzini. O que cumpre reconhecer, e proclamar,
em homenagem aos dois autores, é o merecimento de seus
estudos e a profundeza das pesquisas realizadas, sob altos critérios
de rigor e de exatidão.

As referidas “observações de ordem mais geral,
do livro do sr. Rizzini”, isto é, o material do chamado
“Livro II”, acima louvadas por Barbosa Lima Sobrinho,
foram objeto de dura crítica de Wilson Martins:

É, […] tanto mais surpreendente, e lamentável,
que o sr. Carlos Rizzini, cedendo, com certeza, à atração
da facilidade, tenha quebrado a unidade essencial do seu livro
introduzindo-lhe um “ensaio sobre o estado mental, social
e político do Brasil no limiar do século XIX”
que, durante sessenta páginas, constitui um verdadeiro
corpo estranho na exposição. Não que o
assunto, em si mesmo, fosse incompatível com um estudo
biográfico sobre Hipólito da Costa. Ao contrário,
até, é inegável que o conhecimento da “situação”
brasileira no momento em que o jornalista exerceu as suas atividades
permite medir com objetividade muito maior todo o significado
e o alcance do Correio Braziliense. Mas, era matéria
a ser integrada no corpo, mesmo, do ensaio, e não a ser
transcrita, em termos quase literais, da obra anteriormente
publicada pelo sr. Carlos Rizzini.

Por outro lado, no fundamental, Wilson Martins favoreceu Rizzini
e foi duríssimo com Mecenas. Vejamos com suas próprias
palavras:

Contudo, é sensível a diferença de qualidade
entre esses dois volumes: o livro do sr. Mecenas Dourado, fundado
embora em pesquisas exaustivas, muitas delas originais, ressente-se
de uma certa estreiteza de visão e de uma falta evidente
de unidade. Dir-se-ia que, soterrado sob as fichas e a documentação,
não conseguiu ordenar o conjunto pelas suas linhas mestras:
a existência de Hipólito que foi, como a de todos
nós, uma coexistência, uma simultaneidade, aqui
aparece como uma sucessão de quadros fragmentários
e sucessivos. É assim que o sr. Mecenas Dourado trata
separadamente da “missão aos Estados Unidos”
e das “amizades científicas” nesse país,
da mesma forma por que estuda, em capítulos diversos,
os amigos e os inimigos de Hipólito, a colônia
portuguesa de Londres, a reação contra o Correio
Braziliense
etc. Ainda que o autor possa invocar, em favor
desse método (ou dessa falta de método), uma preocupação
de clareza, é inegável que ele amputa o biografado
de sua “terceira dimensão”, se assim me posso
exprimir, da sua dimensão em profundidade e em complexidade
que é, precisamente, a dimensão característica
e definitiva. Além disso, o sr. Mecenas Dourado não
“depurou” suficientemente a sua redação:
são freqüentes as obscuridades, os desleixos de
escrita, as repetições, as alusões inoportunas
e banais a fatos da atualidade.

Em contrapartida, quanto a esses aspectos, Rizzini foi brindado
por Wilson Martins com elogios quase retumbantes:

Com méritos perfeitamente iguais no que se refere à
pesquisa biográfica (e, até, algo mais acentuados,
se pensarmos que o sr. Mecenas Dourado pôde beneficiar-se
de algumas de suas descobertas, publicadas anteriormente em
periódicos), o sr. Carlos Rizzini apresenta-se com a
dupla superioridade de um estilo mais vigoroso e polido, e de
uma visão profundamente histórica do seu assunto.
Com efeito, além da elucidação propriamente
biográfica acima mencionada, desejou o sr. Carlos Rizzini
esclarecer ” analisando os escritos de Hipólito
da Costa à luz das controvérsias que suscitaram,
e dos fatos envolventes, a influência por ele exercida
na formação da nossa consciência pública,
salientando as razões que, levando-o a longo e pertinaz
combate aos erros e males sociais, administrativos e políticos
do Brasil e de Portugal, também levaram a opor-se à
separação dos dois Reinos” […] o sr. Carlos
Rizzini deve ser louvado, antes de mais nada, por ter sabido
compreendê-lo e por tê-lo visto dentro de uma perspectiva
orgânica sem a qual não há biografia, e,
sobretudo, biografia de um intelectual, digna desse nome.

Hoje, passado quase meio século desde o lançamento
dos dois livros, o que se pode dizer a respeito?

Com os dois livros, o de Rizzini e o de Mecenas, temos uma visão
quase completa, suficiente (se é que, em história,
alguma vez algo possa ser suficiente) de Hipólito.

Claro que há diferenças entre as duas obras: de estrutura
e de estilo. Rizzini dá realmente uma visão de conjunto,
que Mecenas não consegue transmitir, e, ao mesmo tempo, alcança
esmiuçar os pormenores. Age como o artista competente que,
diante de uma paisagem, pinta-a com riqueza de cores e grandes pinceladas
de efeito, mas, concomitantemente, desdobra-a, planta por planta,
alcançando o detalhe de um herbário. Mecenas limita-se
ao herbário e descreve as plantas em linguagem corrente,
sem maior encanto, embora com clareza didática. Pode ser
que, com as limitações vocabulares dos leitores atuais
e as mudanças naturais no uso do léxico, decorrentes
da passagem de mais de quarenta anos, a modéstia estilística
de Mecenas lhe seja até benéfica. Seu texto, hoje,
deve ser o mais acessível para a maior parte dos leitores
que, ademais, na pressa atual, satisfazem-se com o trivial. Em contrapartida,
Rizzini saboreia, e faz saborear a história, em alto estilo.
Sintetizando: enquanto Mecenas nos oferece um jantar suculento,
Rizzini nos serve um banquete.

Ambas as biografias, porém, são importantes, cada
uma a seu modo, e igualmente necessárias. Depois de várias
décadas, os comentários de Wilson Martins e Barbosa
Lima Sobrinho sobre as duas obras continuam pertinentes, em especial
na frase deste último: “Uma não dispensa a leitura
da outra”.

Há, entretanto, um crédito extra, em favor de Rizzini,
que os dois grandes críticos não ressaltaram: a recuperação
da iconografia do biografado, a qual, de tão importante,
merecerá um relato à parte.

A iconografia de Hipólito

Em verdade, devemos a Gastão Nothman a descoberta e a Carlos
Rizzini a divulgação de quase toda a iconografia de
Hipólito hoje disponível.

Até à época das pesquisas dos dois parceiros,
quase nada havia em matéria de imagem nesse setor. Dispunha-se
daquele retrato que Hipólito fizera imprimir na Narrativa
da perseguição
, com matriz gravada em metal por
H. R. Cook, o qual acabou por tornar-se seu retrato, por assim dizer,
“oficial”, já que era o único conhecido
e tinha sido por ele escolhido.

Publicada em Londres em 1811, a Narrativa veio a ser, porém,
obra raríssima e, por conseqüência, a imagem,
que nela se contém, igualou o livro em raridade.

Tanto era difícil encontrar a efígie de Hipólito,
que Rizzini não a apresentou em O livro, o jornal e a
tipografia no Brasil
, de 1946, embora nessa obra tenha dedicado,
como vimos, um capítulo ao “fundador da imprensa brasileira”.

As coisas estavam nesse pé, quando, em 26 de abril de 1955,
Gastão Nothman iniciou uma carta com um vaticínio
equivocado, equivocadíssimo: “Meu caro Rizzini. Estou
dando como quase terminada minha missão”.

Mal ele sabia que, em pouco tempo, desencadearia toda uma série
de descobertas, enveredando, inclusive, por um rumo até então
insuspeitado. De fato. Três meses depois, em 27 de junho,
informa:

[…] desde anteontem a situação, quanto às
próprias pesquisas, mudou radicalmente. Estou em contato
com todos os descendentes do Hippolyto que por sua vez (ao que
declaram) estão cheios de documentos, miniaturas, fotografias
e não sei mais o quê. Vou me encontrar em oito
dias com o chefe da família que prontificou-se a mostrar-me
tudo. Então, sim, as pesquisas tomarão um vulto
tremendo.

Na missiva seguinte, de 18 de julho, menciona pela primeira vez
a existência da tela pintada a óleo que servira de
modelo à gravura da Narrativa e anuncia a existência
de um outro retrato de Hipólito: “Dentro de poucos dias,
remeter-lhe-ei tudo o que há e que pode haver nesta terra
sobre o nosso herói. Seguirão as fotografias do retrato
original dele, que um dos descendentes hoje possui. […] Alias,
tem um outro quadro a óleo representando o H. como muito
moço, com uns 19 anos, mais ou menos. É encantador”.

Como veremos adiante, a mesma família, a do coronel Arthur
Sidney Bates, possuía também o último retrato
feito em vida de Hipólito, em 1823.

Com a carta de 3 de agosto de 1955, chegam fotografias, em grande
número. Estas, juntamente com aquelas que acompanhariam uma
nova carta do dia 19 seguinte, haveriam de ilustrar, no mês
imediato, a matéria publicada por Rizzini em O Cruzeiro.

Tendo em vista a importância desse momento para o resgate
da iconografia de Hipólito, transcreveremos aqui boa parte
da missiva enviada por Gastão em 3 de agosto de 1955:

Meu caro Rizzini,

Muito grato pela sua última carta. Hoje você receberá
a quase totalidade da documentação que falta.

Arthur Sidney Bates ? É este o historiador da
família, casado com Mary da Costa Crosse. Moram os dois
velhinhos numa linda casa de campo no condado de Hampshire,
chamado “MANYDOWN PARK”. Foi ele quem me forneceu
a lista do “pedigree” da família, e as fotos
que junto lhe remeto. Faltam as fotos dos parentes da Mary da
Costa Bates que seguirão em alguns dias, como também
o “pedigree” mais completo ainda, e pelo qual se vê
que existem numerosos descendentes diretos e vivos do Hippolyto.

[…]

RETRATOS ? Dentro de alguns dias, depois do Bates me fornecer
os últimos detalhes do “pedigree” e mais uma
foto, tentarei entrar em conversas com o coronel a respeito
da venda dos retratos do Hippolyto, ou ao menos de um deles.
Aquela marcada N? 1 (O H. quando moço) encontra-se de
fato em condições muito superiores ao que parece
na foto. Foi mal tirada pelo fotógrafo. A da filha do
H. (Anne Shirley da Costa) foi tirada creio em 18?0 [O terceiro
algarismo da data está ilegível no original],
mas estou acertando, para saber a data exata. Caso se pretender
fazer um artigo ilustrado, gostaria imensamente que se incluísse
uma das fotos do coronel Bates, ou a das bodas de ouro cortando
o bolo, ou a dele e da esposa com seus filhos e netos.

Por enquanto é só.

Um abraço saudoso,

Gastão Nothman

[Como já mencionamos, Rizzini atendeu o pedido constante
do final da carta. Publicou em O Cruzeiro, além
das demais, também as duas fotos do coronel, a das bodas
e com a família.]

Na seqüência, alargando as buscas para outros setores, Gastão consegue desencravar um desenho reconstitutivo do edifício Lower Philimore Place, em Kensington, em cujo número 7 morou e faleceu Hipólito. Em carta de 29 de dezembro de 1955, com a qual envia essa reconstituição feita pela London Topographical Society, Gastão esclarece: “As casas não existem mais, e a Lower Phillimore Place foi absorvida por Kensington High Street (quando alargaram essa artéria). O n? 7, corresponde hoje a 106 Kensington High Street, Londres, W8, e é ocupado por uma farmácia denominada GARNER”. [Mais tarde, em carta de 13 de agosto de 1956, Gastão volta ao assunto: “Consegui atrás de mapas antigos, etc. localizar DEFINITIVAMENTE a residência de 7 Lower Philimore Place. Hoje o local é o n? 108 (que abrange o n? 110) de High Street Kensington, Londres, W8. Ali será colocada (espero em novembro) uma placa em bronze comemorativa erguida pela Anglo-Brazilian Society.”]

Na mesma linha de pesquisa, levantou a fotografia do New Inn, de Wych Street, outro local de moradia do jornalista exilado, que ali residiu de 1809 a 1814. A foto resultou, segundo informa em carta de 26 de maio de 1956, de um negativo pertencente à Prefeitura de Londres, que fotografara o local antes de arrasá-lo para a construção “das grandes artérias de Aldwych a Kingsway”. Depois da foto, o prédio foi demolido, em 1905.

Em 2 de julho de 1956, Gastão não vira ainda, mas já se avizinhava do retrato mais importante: “Estou à cata do retrato original a óleo, do qual foi tirada a gravura que figura no livro do Hipp. sobre as suas experiências com a Inquisição”. Em 19 do mesmo mês, começando a deslindar a questão, [trecho de carta de 19 de julho de 1956 de Gastão para Rizzini: “RETRATOS ?Ontem fui visitar o cel. Bates no campo. O genro dele trouxe consigo o original do retrato [Gastão se refere, aqui, ao retrato que serviria de base para a gravura da Narrativa] […] Está em má condição, e ofereci mandar consertar o quadro a minha custa. Declarei que, caso a família gostaria de desfazer-se do quadro, você era comprador nas medidas do possível. Vamos ver o que diz o comandante Neville Porter (o genro em questão). O mesmo também assegurou que o outro quadro do Hipp. com um exemplar do Correio Braziliense nas mãos está com uma irmã, e que ele tratará de descobri-lo e deixar-me examiná-lo”], Gastão vem a saber da localização de dois retratos a óleo de Hipólito. Um deles, aquele, o que serviu de base à gravura, lhe é inicialmente exibido pelo comandante Neville Porter, trineto de Hipólito. [Não entendemos porque Gastão se refere ao comandante Neville Porter (ver nota anterior) como sendo genro do coronel Bates. De acordo com a árvore genealógica que o próprio Gastão enviou para Rizzini, e ele, Gastão, revisou em 13 de agosto de 1955, Neville Porter, assim como sua irmã Rosemary, se enquadram como trinetos de Hipólito. Eram filhos do bisneto Reginald Adolphus, que por sua vez era filho do neto Reginald. Este era filho de Anne Shirley, filha de Hipólito, casada com Whitworth Porter. Não resta dúvida, pois, que Neville e Rosemary eram trinetos. Nem se diga que Neville tivesse casado com a filha do coronel Bates, o que até seria possível, por acaso. Este só teve uma filha, Anne Mary, que se casou com John Oliver Belassis. E, ademais, a mulher de Neville vem indicada com o nome de Lindsay. Conclui-se que Gastão estava equivocado ao referir-se a Neville Porter como genro de Bates. Em verdade, ele era trineto de Hipólito.] Um outro, no qual Hipólito aparece com um exemplar do Correio Braziliense na mão direita, constava estar com uma irmã do referido Porter. Depois, acaba por constatar que ambos os retratos pertenciam à mesma referida irmã: Rosemary Claire Porter.

Entabulam-se longas conversações. Por fim, a proprietária dos retratos se dispõe a doar um deles, o “da gravura”, para Carlos Rizzini, que a essa altura já publicara o seu livro biográfico, e com ele empolgara os descendentes de Hipólito. O outro, “o do Correio na mão direita”, ela decide doar para o Itamaraty, isto é, para o governo brasileiro. [Carta de Gastão para Rizzini de 10 de setembro de 1957: “Por isso está a combinação em pé que você receberá de graça (pois ela recusa pagamento) o primeiro de cabelo ?poudré? e o outro ela presenteará, através do Chatô ao Ita para pendurar no salão de Imprensa (novo)”. O retrato de cabelo poudré, isto é, empoado, é o que temos referido como o retrato “da gravura”. “Chatô”, obviamente, era o jornalista Assis Chateaubriand que, pouco tempo depois, viria a ser embaixador do Brasil na Inglaterra.]

O retrato doado a Rizzini foi trazido para o Rio de Janeiro pelo diplomata Raul Vicenzi, a pedido de Gastão. Carlos Rizzini, já residindo em São Paulo, foi correndo à então Capital Federal para buscá-lo, recebendo-o em 16 de dezembro de 1957. [Carta de Gastão para Rizzini de 10 de setembro de 1957: “Por isso está a combinação em pé que você receberá de graça (pois ela recusa pagamento) o primeiro de cabelo ?poudré? e o outro ela presenteará, através do Chatô ao Ita para pendurar no salão de Imprensa (novo)”. O retrato de cabelo poudré, isto é, empoado, é o que temos referido como o retrato “da gravura”. “Chatô”, obviamente, era o jornalista Assis Chateaubriand que, pouco tempo depois, viria a ser embaixador do Brasil na Inglaterra.]

O outro, o do Correio, viajou de especialíssima classe. Veio para o Brasil trazido por Rosemary Claire Porter, em vôo no qual teve a companhia de Assis Chateaubriand, já então no exercício da chefia da representação diplomática brasileira na Inglaterra. Em 9 de janeiro de 1958, a inglesa formalizou a doação do quadro em cerimônia realizada no gabinete do ministro das Relações Exteriores, embaixador José Carlos de Macedo Soares, que destinou a obra recebida ao Museu Histórico do Itamaraty. (Foi adequada a escolha do local. Não podemos esquecer que Hipólito fora nomeado, às vésperas de sua precoce morte, cônsul geral do Brasil na Inglaterra. Pela nomeação, portanto, passara a fazer parte da história do Ministério das Relações Exteriores.) Compareceram à solenidade, além de Chateaubriand, muitas figuras da diplomacia e do mundo jornalístico. [O periódico carioca O Jornal, de 10/1/1958, registrou os presentes à cerimônia nestes termos: “A solenidade, que contou com a presença do ministro das Relações Exteriores, foi assistida por algumas das mais destacadas figuras do nosso alto mundo político, como, por exemplo, os srs. embaixador Décio Moura, secretário-geral do Itamarati; a embaixadora Odete de Carvalho Souza, chefe do Departamento Político; o jornalista, escritor e acadêmico Austregésilo de Athayde, diretor dos Diários Associados; Herbert Moses, presidente da Associação Brasileira de Imprensa; José Simeão Leal, chefe do Serviço de Documentação do Ministério da Educaç&atild
e;o; o embaixador Assis Chateaubriand; professor José Honório Rodrigues; o sr. R. F. Hammond, diretor dos Associated Newspapers Limited, de lord Rothermere, cadeia jornalística que reúne os mais prestigiosos órgãos de imprensa da Grã-Bretanha (Daily Mail, Evening News, Sunday Dispatch, Daily Sketch e mais quinze jornais pelo interior inglês além de estações de televisão), e inúmeras outras personalidades de destaque, além, naturalmente, da srta. Rosemary Claire Porter e do sr. Carlos Rizzini, biógrafo de Hipólito da Costa, que, como orador, fez a apresentação do quadro a ser doado”.]

Logo de início, Assis Chateaubriand, após rápido discurso, passou a palavra a Carlos Rizzini que narrou as pesquisas que realizara e enalteceu a participação de Gastão Nothman: “Todas essas dúvidas e incertezas, estão hoje esclarecidas e delineadas, constando de um livro por mim recentemente publicado, graças às diligências e às pesquisas que encetei na Inglaterra, e graças principalmente à paixão com que as continuou e estendeu um brasileiro de bela inteligência e invulgar pertinácia: Gastão Nothman”.

Em seguida, contou um tanto da vida e da importância de Hipólito, e se deteve nos retratos. Referindo-se àquele que estava sendo, naquele momento, objeto de doação, afirmou ser “de autoria ignorada, mas data certamente de 1820”. Em seguida, falaram a doadora e o ministro Macedo Soares, e, segundo relata O Jornal, [O Jornal pertencia aos Diários Associados e, seguramente por isso, em total contradição com o próprio discurso de Rizzini, que, aliás, o jornal transcreveu na íntegra nessa reportagem, atribuiu, erradamente, todos os méritos do feito a Chateaubriand: “Agora, nos últimos meses de 1957, coube ao último embaixador do Brasil na Inglaterra, que também é jornalista, a descoberta do retrato de Hipólito da Costa, bem como de seus descendentes”. Pois é. Amarra-se o cavalo como manda o dono. Não sabemos, porém, se, no caso, o dono (entenda-se: Chateaubriand) mandou deturpar os fatos a seu favor. Talvez não o tenha feito, mas não nos parece impossível que o fizesse. Tendo em vista o temperamento autoritário de Chateaubriand, é bem possível, até, que ele se julgasse mesmo o “descobridor” de tudo. Rizzini era seu funcionário, diretor dos Diários Associados, quando começou a pesquisar na Inglaterra, e Gastão, por sua vez, pelo que revela nas cartas, demonstra uma certa reverência com relação ao insistentemente lembrado Chatô, mantendo-o, por meio de freqüentes contatos, informado das pesquisas que desenvolvia. Para o ego avantajado de Chateaubriand, talvez essas circunstâncias parecessem suficientes: o “descobridor” era ele.] retomou a palavra “o sr. Assis Chateaubriand, para dizer aos presentes que mandara oferecer à srta. Rosemary Claire Porter uma avultada soma em dinheiro pelo quadro de seu bisavô, mas a jovem que é extremamente pobre, e com ela seu irmão, recusou, dizendo que só tinha aquele quadro e o seu coração para dar ao Brasil”. Se ofereceram mesmo a “avultada soma em dinheiro”, não dá mais para saber, mas que a senhorita Rosemary não recebeu nada, com certeza não recebeu. Beneficiou-se apenas da viagem e de alguns passeios no Brasil, que Chatô conseguira para ela.

Fazendo um resumo, podemos dizer que existem quatro retratos originais de Hipólito, pintados enquanto ele vivia, e são os seguintes:

1. Hipólito, moço: O retrato mais antigo. Pintado a óleo, de autor desconhecido. Pertencia, em 1957, a Mary da Costa Bates, e foi reproduzido, pela primeira vez, por Rizzini em seu livro Hipólito José da Costa e o Correio Braziliense, como encarte entre as páginas 228 e 229.

2. O retrato de 1810: O retrato “oficial”. Pintado a óleo sobre tela, em 1810. O original pertenceu a Rosemary Claire Porter que o doou a Carlos Rizzini. Com a morte deste biógrafo, a obra passou para sua viúva, Áurea Ferreira Rizzini, que ainda a detém.

Este retrato a óleo, até este momento, não havia sido reproduzido em publicação alguma. Serviu, porém, de modelo para a gravura lavrada por H. R. Cook e impressa na Narrativa da perseguição. Essa gravura foi muitas vezes reproduzida, inclusive no volume primeiro desta reedição do Correio Braziliense.

3. O retrato de 1820: Hipólito aparece com o Correio Braziliense na mão direita. De autor desconhecido, pintado provavelmente em 1820. Pertenceu ao duque de Sussex, passando por sua morte à viúva de Hipólito, Mary Ann da Costa, e, em sucessão, aos seus descendentes. Hoje pertence ao Itamaraty, por doação de Rosemary Claire Porter. Foi reproduzido, pela primeira vez, no livro de Carlos Rizzini, Hipólito da Costa e o Correio Braziliense, na página anterior ao frontispício.

4. O retrato de 1823: O último retrato de Hipólito. Em miniatura, oval, assinado por Childe, pintado em 1823. Contém dedicatória de próprio punho de Hipólito da Costa para a mulher, Mary Ann, datada de 1823. Pertencia, em 1955, ao coronel Arthur Sidney Bates e sua mulher. Foi reproduzido, pela primeira vez, no artigo de Carlos Rizzini publicado em O Cruzeiro de 29 de outubro de 1955, e em seu livro Hipólito da Costa e o Correio Braziliense, no encarte entre as páginas 276 e 277.

Ainda em se tratando de iconografia, convém registrar que em 1974 a Casa da Moeda do Brasil produziu um selo postal alusivo ao bicentenário de nascimento de Hipólito [Hipólito nasceu em 25 de março de 1774 na Colônia do Sacramento] e, para acompanhar o lançamento, a ECT Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos utilizou um carimbo com a efígie de Hipólito, visivelmente copiada, de modo simplificado, da miniatura de Childe. [Há, no Brasil, outros retratos de Hipólito, sempre copiados de algum desses aqui descritos. Na Associação Paulista de Imprensa (API), em São Paulo, há dois retratos. Um deles, pintado a óleo sobre madeira, de 1947, muito bom, está assinado por Arnaldo Barbosa e visivelmente se baseia na gravura da Narrativa, com um acréscimo: Hipólito repousa a mão esquerda sobre um livro em cuja capa se lê “Correio Braziliense 1810”. O outro retrato da API, óleo sobre tela, é assinado por “Osv. da Sylveiyra”, tem data de 1956, e é inspirado na miniatura de Childe. Há, ainda, mais um retrato, cópia também inspirada na gravura da Narrativa, na Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro, pois Hipólito é o patrono da cadeira 17 daquele sodalício. Existe um retrato de Hipólito pintado a óleo por Victorio Gobbis por encomenda de Carlos Rizzini, cuja localização nos é hoje desconhecida.]

Por fim. Em suas pesquisas, Gastão descobriu, inclusive, o brasão dos Costa. Como estava registrado no recinto de seu túmulo, cuja localização até seus descentes ingleses desconheciam, acabou corporificando uma informação iconográfi
ca resgatada só depois de mais de um século de total esquecimento. O brasão encima a placa mandada lavrar pelo duque de Sussex, em homenagem ao amigo morto, e localizada, por Gastão, na parede esquerda da nave da igreja Santa Maria Virgem, de Hurley, onde o fundador de nossa imprensa foi enterrado. [Na recriação das cores do brasão, Gastão contou com o auxílio do Coronel Bates. Campo: vermelho. Cruz: prata. Os seis ossos de costelas: prata. Pequeno quadrado à esquerda, no topo: prata. Letra H: vermelho.]

Mas o túmulo de Hipólito, por sua vez, enseja mais um tópico.

O túmulo, a lápide e a última viagem

Logo que descobriu o túmulo, já na carta de 25 de abril de 1955, na qual noticia a novidade, Gastão propôs: “Agora venho propor-lhe em poucas palavras o seguinte: Você e eu iniciaríamos um projeto para trasladar os restos mortais do Hippolyto para um local mais apropriado com o apoio da imprensa brasileira, e do nosso governo, principalmente do Itamaraty. Erigiríamos um monumento apropriado e bonito, ou aqui ou no Brasil”. E em pós-escrito completou: “Ao meu ver devia-se proceder a uma cerimônia anual ao lado do túmulo do Hippolyto, pois aqui jaz na Europa o único brasileiro de sua altura”.

Foi essa a primeira proposta referente à trasladação dos despojos de Hipólito para o Brasil. Gastão voltou ao tema poucos meses depois, em 3 de outubro de 1955: “Será que V. poderá indagar sobre a possibilidade da trasladação do corpo do Hipp. Ou então a possibilidade de mandar erigir um novo monumento aqui na igreja onde se encontra o túmulo dele? A ABI se interessa? Ou a Fundação Cásper Líbero?”

E cobrou resposta um mês depois: “Houve qualquer reação da parte da ABI ou de qualquer dos jornais quanto a subscreverem para uma nova laje ou então trasladar o corpo?”

Em fevereiro de 1956, Gastão consegue fazer com que Chateaubriand se interesse pelo projeto. Em carta de 27 desse mês, relata: “Falei duas vezes pelo telefone com Chatô. Não fui visitá-lo, em vista dos compromissos sem fim que ele adora aceitar em Paris. Disse que vinha para cá, mas desistiu. Declarou também que voltaria em abril ou março. Disse que se interessava muito ainda na trasladação”.

Animado, o adido traça planos. Propõe uma série de medidas: nova laje, exumação e “remessa do corpo para o Brasil num caixão apropriado”. Toma também outra iniciativa em homenagem a Hipólito: “É bem possível que por minha intervenção, a Anglo-Brazilian Society de Londres conseguirá das autoridades para colocar uma placa co-memorativa ao Hipp. no local do antigo n? 7 Lower Philimore Place”. [Na carta seguinte, em 9 de março de 1956, há uma outra nota, escrita à mão na margem esquerda do papel: “A Anglo Brazilian Society daqui está promovendo a colocação de uma grande placa comemorativa na fachada da casa que hoje representa o antigo Philimore Place, com a presença de importantes representantes do governo e da imprensa britânica”.]

Passado um ano desde a descoberta do túmulo, a questão da trasladação continuava na estaca zero. Gastão desanimava:

Tenho chegado à conclusão que estou chateando demais a respeito, e resolvi não pensar mais nisso, já que a ABI ?s?en fou?. Assim vou conseguir de amigos INGLESES dinheiro para construir um bonito monumento ou nova laje na própria igreja, declarando que isso foi feito em vista da indiferença no Brasil. Claro isso não atinge meu bom amigo que tudo tem feito para conseguir o meu desejo, nem tampouco o Chatô, sempre camarada em tudo. Mas mandar para o Rio Grande, isso não. [Ocorrera, entretanto, uma sugestão no sentido de levar os despojos de Hipólito para o Rio Grande do Sul. Segundo carta de Rizzini, parece que a idéia de trasladar Hipólito para o Rio Grande do Sul havia sido de Chateaubriand ou, no mínimo, este a defendia nessa época.]

Gastão ameaçava desistir, mas não desistia. No mesmo mês, em carta de 26 de março de 1956, voltou ao assunto, inconformado por Herbert Moses, da ABI, não ter mostrado interesse. Diz que vai escrever para ele e pergunta a Rizzini o que lhe parece a idéia.

Gastão tornara-se, sem o perceber, um tutor da memória “do nosso herói” na Inglaterra, e, por isso, exultou com uma visita de jornalistas brasileiros à igrejinha de Hurley em 1956. [Em carta de 4 de maio de 1956, relata o episódio: “JORNALISTAS BRASILEIROS ? Apareceu aqui uma caravana de 4, sendo eles o João de Scatimburgo, L. A. Bahia (Correio da Manhã), João Barreto Leite F? (O Jornal) e Walter Ceneviva (A Gazeta). Vieram convidados por parte do governo britânico, e aqui passaram 4 semanas. Por sugestão minha, o governo de S. M. organizou uma romaria ao túmulo do Hippolyto […] Depois do almoço procedemos todos à igreja de Hurley onde o Scatimburgo em nome dele e dos seus companheiros depositou uma linda gerba de flores no túmulo do Hippolyto, sendo essa a primeira homenagem jamais prestada à memória do nosso herói. Ponto interessante. Fez parte do grupo o atual cônsul-geral do Brazil em Londres, ministro Frederico Chermont Lisboa, representando isso uma homenagem ao primeiro cônsul-geral brasileiro em Londres pelo último, e atual”.]

Mas, quanto ao túmulo… A questão do túmulo era mesmo de amargar. Em carta de 7 de junho de 1956, desabafa:

TÚMULO ? Resolvi não mais fazer nenhum esforço quanto à renovação da pedra tumular, com gente da terra. Creio que com um pequeno esforço conseguirei o que desejo através dos ingleses aqui. Vai haver uma reunião da Sociedade Anglo-Brasileira em poucos dias quando será ventilada a questão. Vou propor que se coloque uma placa na antiga residência em 7 Lower Philimore pela Sociedade, ou então na casa onde morava em Hurley. O resto ficará por minha conta particular.

Você é o único que conheço que tem verdadeiro entusiasmo por essas coisas. Você já fez o impossível, e agora vou eu fazer um esforçozinho.

Na Inglaterra, parece ter sido mais fácil obter algum apoio. Gastão conseguiu, segundo informa, os fundos necessários para fazer uma nova laje e colocá-la em substituição da antiga.

Em 10 de setembro de 1957, no mesmo ano em que Hipólito foi lembrado no Brasil com a edição dos livros de Rizzini e Mecenas, Gastão informa:

Sexta-feira passada, dia 6, segui para Hurley para assistir a remoção da antiga laje e a colocação da nova. Tirada a laje descobri que por baixo havia uma camada de areia. Depois de ligeira escavação demos com uma ?vault?, creio que se chama em português uma abóbada, muito sólida, construída de tijolos em perfeito estado de conservação. Não tendo recebido autorização de mexer com a mesma, deixamo-la em paz. Junto remeto-lhe a fotografia da nova laje.

Ao examinarmos à luz do sol a antiga pedra, e conhecedor do fato que o Hipólito foi enterrado nessa ?vault?, há uma correção a fazer quanto a decifração do texto gravado na antiga la
je, que em vez de ?Under this stone? deve rezar ?In this Vault…?

Outro fato curioso é que onde se lê ?aged 46 years? a cifra 4 não foi completada pelo mação, e o texto lê: ?aged 16 years?, prova que o texto foi esculpido às pressas por um escultor indiferente.[Acresce notar que Hipólito morreu aos 49 anos de idade.]

A colocação da nova laje não foi ocasião naturalmente de nenhuma cerimônia ou homenagem, pois era impossível prever o que íamos encontrar por baixo da laje antiga.

Essa homenagem se prestará mais tarde com a presença de um novo embaixador, ou coisa que valha. Pena que não poderá ser você. […]

Quanto à antiga laje tumular, tenho-a guardado. Seria possível ou de interesse a você presentear a ABI? Já falei há muito tempo a respeito ao Moses que infelizmente anda tão preocupado com os interesses dele que nunca presta atenção nem faz nada. Não custaria nada a ninguém, pois tenho a certeza que a Mala Real faria o transporte de graça. Não sei como seria para a Alfândega.

Depois dessa data, só há mais três cartas de Gastão para Rizzini. Com a última delas, de 28 de dezembro de 1957, cessa a correspondência disponível. Não temos notícia do destino da laje antiga. No entanto, Hipólito ficou agasalhado, sob a pedra nova, pelos carinhos de Gastão.

Passaram-se dezenas de anos.

Na manhã de 4 de julho de 2001, uma urna foi depositada por quatro cadetes da Polícia Militar do Distrito Federal em um monumento construído no Museu da Imprensa Nacional, em Brasília.

Eram as cinzas de Hipólito.

E nada mais justo que se destinassem a Brasília. A cidade, em si mesma, corporificou uma idéia lançada por Hipólito no Correio Braziliense de março de 1813. Como grande visionário, que era, ele propôs a construção da capital do Brasil no Planalto Central, “imediato às cabeceiras dos grandes rios”.

Enfim, o exilado estava de volta, e no lugar certo. [Transcrevemos aqui um relato das ações mais recentes que levaram a esse sepultamento, publicado na página 18 do Jornal ANJ, da Associação Nacional de Jornais, de agosto de 2001: “Há dois anos, a Fundação Assis Chateaubriand, em iniciativa do seu diretor executivo Márcio Cotrim, iniciou novo esforço nesse sentido. Contou com o decisivo apoio do embaixador brasileiro junto ao Reino Unido, Sérgio Amaral, ex-porta-voz da Presidência da República. A exumação e o traslado de restos mortais constituem um difícil exercício jurídico, agravado pelo fato de Hipólito da Costa ter se casado com uma cidadã britânica, Mary-Ann Troughton, e de não ter retornado ao Brasil. Supõe-se, neste caso, que pretendesse ficar para sempre na Inglaterra. O governo brasileiro precisou usar diversos recursos. Exibiu carta enviada por d. Pedro I, logo após a Independência, nomeando Hipólito primeiro diplomata do país. Apresentou também escritos de Hipólito da Costa no Correio Braziliense […] mostrando os vínculos do jornalista com seu país. Precisou ainda consultar a comunidade da paróquia Mary-The-Virgin, em Hurley-on-Thames, perguntando se havia oposição à retirada dos restos mortais. Por fim, os descendentes precisaram autorizar a remoção.”]

“Na quarta parte nova os campos ara.”

(*) Professor universitário há mais de trinta anos. Lecionou na Universidade de São Paulo, na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero e em outras instituições de ensino, como a Escola Superior de Jornalismo, no Porto. Atualmente, dá aulas no curso de jornalismo da FIAM, em São Paulo, cidade na qual também foi advogado e procurador municipal. Publicou 26 livros, que se dividem em a) obras técnicas nas áreas de direito e história da comunicação e da arte, como O controle da informação no Brasil (Petrópolis: Vozes, 1970), Direito da comunicação (São Paulo: Revista dos Tribunais, 1976), Comunicação ? Do grito ao satélite (4a. ed. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2001) e Legislação da comunicação social ? curso básico (no prelo); b) livros para o público geral, sendo mais conhecidos os livros de viagem nos quais o narrador é o seu cão; e c) literatura infanto-juvenil. É também artista plástico, dedicando-se à xilografia e à pintura. Organizou e dirige a Casa da Xilogravura, museu fundado em 1987, na cidade de Campos do Jordão.

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