Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >

Os dentes do dragão

Por lgarcia em 20/05/1999 na edição 67

Nilza Amaral (*)

 

N

essa nossa modernidade o sofisma “Penso, logo existo” está completamente obsoleto e deveria ser na verdade “Penso, mas não avalio”, porque a mídia é quem avalia nos dias de hoje e vem se transformando na formadora mais resistente desde o aparecimento do logos – “o princípio da inteligibilidade; a razão”, segundo o Aurélio. Além da globalização, a grande desnorteadora de idéias é a mídia. McLuhan, de quem não sou contra nem a favor, já dizia que “o meio é a mensagem”, querendo dizer que a mensagem depende do meio de comunicação utilizado. O importante é como se escreve, e não do que se escreve.

Dizem os filósofos que as letras são os dentes do dragão, referindo-se ao alfabeto. Com elas podemos construir ou destruir idéias.

Fico pensando se estou sendo muito radical – talvez por haver sido durante 25 anos professora de línguas, e agora escritora – quando procuro a beleza da língua portuguesa nos textos que leio. Sendo a sedução da palavra entre os que escrevem a arma para arrebatar leitores, não é justo encontrar entre os que são do meio, os jornalistas, um aviltamento da linguagem ou um desconhecimento de regras básicas para o desenvolvimento de um texto, um tecer de frases tão malcuidadas, uma ignorância até de concordância, propiciando a total incompreensão de quem lê.

A língua portuguesa vem sendo tratada como objeto de cama e mesa, tão domesticada que no vale-tudo do coloquial descarta-se qualquer elegância do vernáculo.

Sei que a Revista da Folha não está voltada à literatura, mas mesmo num artigo de moda há que se ter cuidado com o que se diz, ou o articulista poderá dar a impressão ao futuro comprador de que a mercadoria apresentada é tão ruim como o texto que a descreve. Também não sei a quem a Revista é dirigida, mas uma vez que é encarte do jornal de domingo, supõe-se que se destina a pessoas no mínimo alfabetizadas.

Essa preleção é para grifar as palavras de um artigo sobre moda, assinado por quem não conheço, e portanto não vai aqui nenhum ataque pessoal: “Todo dia elas nunca fazem sempre igual e aparecem em situações caseiras pouco comuns. Mero pretexto para mostrar tricôs. Coloridos e imprescindíveis.”

Os puristas que se cuidem.

(*) Autora de O Florista

 

Teresa Barros

 

O título pode ser manjado, mas a causa é justa. Que fim levou Paulo Henrique Amorim? A última vez que o viram, foi numa reunião de pauta na redação da Rede Bandeirantes, em São Paulo. Teria sido demitido ou pedido demissão. Estaria de férias ou em licença médica; voltaria em breve, disseram. Apresentaria apenas o Fogo Cruzado mas o Fogo Cruzado saiu do ar. Seria correspondente internacional da Rede Record mas, até agora, nada. Paulo Henrique Amorim simplesmente sumiu. Não dá entrevista, não telefona, não manda recado, não tem site na Internet. E isso já faz um bocado de tempo.

Como alguém desaparece sem deixar traço? Em meio ao fogo cruzado das informações desencontradas, achei que este era um caso para o Observatório da Imprensa, que também já estava no encalço de Paulo Henrique, o jornalista, que sumiu quando fazia o maior sucesso numa emissora de pouca audiência – o que torna tudo ainda mais estranho, tão esquisito quando acreditar que Elvis Presley não morreu. Estaríamos diante do nascimento de um novo mito?

Alguns acreditam que Paulo Henrique Amorim esteja gastando o avião de dinheiro que recebeu da Bandeirantes pela rescisão do contrato e curtindo a vida em Deauville ou no hotel George V, em Paris. Como o trabalho do jornalista não se parece com o do juiz Nicolau, digo que a pista é falsa. Dá para imaginar um legítimo Paulo Henrique Amorim flanando com sua Ferrari vermelha nos Champs Elysées ou se banhando em alguma estação de águas decadente, enquanto a Otan arrasa a Iugoslávia e o Brasil vive a temporada de caça das CPIs?

Também estou achando muito esquisito o Jornal da Band, numa louvável busca de audiência, ter exibido há poucos dias uma série sobre os arquivos secretos da antiga KGB, a polícia secreta da extinta União Soviética. O camelódromo russo de papelório oficial desencavou desta vez sumiços misteriosos de outra natureza, cirurgias em ETs e caças supersônicos, ainda em bom estado, sendo abatidos por discos e charutos voadores. Fiquei tão impressionada com a série que terminei sonhando com o Paulo Henrique, o jornalista. De terno Armani, gravata inglesa e sem um fio reluzente de cabelo fora do lugar, ele gritava da janelinha de um Ovni que voltaria no próximo bloco com a matéria mais exclusiva de todos os tempos.

Taí. Pra mim, o homem sumiu porque foi abduzido, e essa série da KGB, na verdade, foi apenas uma cortina de fumaça editada, um despiste. Quero que a Band mostre o material completo, sem cortes, porque tenho certeza de que em algum trecho aparece o Paulo Henrique insistindo com um homenzinho verde: “Leve-me ao seu líder!”

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem