Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Os escândalos de papel

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

LIÇÕES INESQUECÍVEIS

Marco Aurélio Mendes de Farias Mello (*)


Apresentação de O jornalismo dos anos 90, de Luís Nassif, 320 pp., Editora Futura, São Paulo, 2003; preço R$ 45,00; <http://www.edfutura.com.br>; título e intertítulo da redação do OI.


“Um livro de fato muito bom!”, murmurei, impulsivamente, para os meus botões, como acontece sempre que me percebo diante de uma constatação definitiva, daquelas que não cedem um mínimo espaço a contestações. À minha frente, mais uma obra do admirável Luís Nassif, cuja verve impressionante realça, a cada dia, a marca inconfundível do talentoso jornalista: a paixão inarredável por tudo que faz, o desvelo ímpar, incansável, a esperança imorredoura nos bons frutos do ofício que em boa hora escolheu e que desde imberbe vem sabendo honrar.

Não que eu tenha sido tomado por alguma surpresa: leitor assíduo de suas bem talhadas colunas, nada poderia esperar senão um trabalho de excelência. Mas é que, desta vez ? como, de resto, em todas ?, Nassif acaba por se superar. O jornalismo nos anos 90 é uma verdadeira lição de história sobre os rumos percorridos pela mídia brasileira nas últimas e decisivas décadas. De forma clara, impecável, com a elegância costumeira, o autor destrinça, um por um, os vezos que levaram a nossa imprensa às curvas perigosas do desastre ora entrevisto. E tudo parece de uma lógica tão simples quanto óbvia ? depois de escrito, compreenda-se. É como se, num estalo, pudéssemos compor um filme do qual só houvéssemos tido acesso a poucas e desconcatenadas partes ? dando a impressão de que jamais se alcançaria o desfecho. Então, como por encanto, o final do imbróglio se evidencia ? tão natural, direto e irrefutável que só poderia mesmo ser coisa de mestre.

A maestria de Nassif reside numa insuplantável lucidez. Mais que uma inteligência fora do comum, mais que a honestidade de propósitos e a competência que lhe pavimentaram o caminho da credibilidade, mais que uma apurada ética como norte inquestionável, Luís Nassif brilha, com luz própria, por seu inconteste amor à verdade. E nisso, muito nos aproximamos. Como juiz, persigo, com o ânimo de um D. Quixote enamorado, a quintessência da verdade, sem a qual não há como alcançar a Justiça. Daí meu entusiasmado aplauso, minha sincera vibração, ao deparar com o sábio entendimento de Nassif acerca da necessidade de se adotarem como parâmetros, na investigação jornalística, procedimentos semelhantes aos utilizados nos processos judiciais, quando menos em relação ao efetivo cumprimento do princípio do contraditório, ou seja, segundo o próprio autor, “a capacidade de contrapor cada argumento de uma parte à outra, até chegar-se à conclusão final sobre o caso em questão”. Para um magistrado absolutamente convicto na realização da Justiça como alicerce do Estado de Direito, essas palavras soam como antídoto contra a descrença, nestes tempos de tanto ceticismo.

História mal contadas

Além de história, somos brindados com uma síntese das dicas sugeridas por Nassif no “Manual de sobrevivência na selva”, publicado há dois anos ? na realidade, um roteiro a ser seguido pelos que têm a louvável ousadia de, mirando-se no exemplo de coragem e talento do autor, aventurar-se na trilha árdua, mas não impossível, do jornalismo de qualidade. Amante devotado da causa ? apesar de profundo conhecedor ?, Nassif, coerente e responsável como ele só, não poderia se furtar de semear seus ótimos conselhos, provindos da larga experiência na extenuante seara da boa informação. O mais interessante é que tais orientações não se destinam apenas aos iniciados na arte, mas aos leitores como um todo, especificamente aos que, atentos, apuram o faro na penosa tarefa diária de separar o joio do trigo, isto é, a notícia que acresce, contribui, aperfeiçoa, daquela que só visa ao lucro fácil resultante da exploração inconseqüente e perniciosa de sucessivos ? e, na maioria das vezes, vazios ? escândalos de papel.

A boa-nova é que, felizmente, esse modelo de desserviço agoniza a olhos vistos, esgotado que restou pelo abusivo uso do mau filão. E o que é melhor, como nos relata o autor, é que coube a nós outros, aturdidos e quase sempre parvos leitores, o veto a essa perigosa direção. E nem tínhamos ciência disso. Alertados, imaginem o que não faremos doravante.

Sim, venha-nos a luz, mais luz! O trabalho de Nassif é, sem sombra de dúvida, iluminador, já que luz e verdade andam de mãos dadas. Obras como esta clareiam os caminhos da cidadania e, por isso mesmo, as trilhas institucionais que conduzem ao fortalecimento permanente da democracia. Em razão disso tudo, é que lamentei haver chegado ao término deste volume. Queria continuar sabendo o final de outras histórias mal contadas, quase todas convenientemente inacabadas. É certo que Nassif ainda tem muito para narrar. O ideal, nesse caso, é aguardar por mais momentos desse craque do jornalismo contemporâneo.

Por ora, preciso pedir-lhe que, logo no lançamento, trate de separar-me uns muitos volumes autografados para eu ofertar aos diletos amigos, pois não é sempre que aparece um regalo que, a um só tempo, envaidece quem presenteia e, supinamente, elogia a inteligência do agraciado.

(*) Ministro do Supremo Tribunal Federal

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