Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Os fiéis escudeiros do barão de Münchhausen

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

MÍDIA & ENGAJAMENTO

Como e por que o mito da imparcialidade jornalística é pura ideologia ? e legitima conflitos armados nacionais e internacionais

Roberto Della Santa Barros (*)


"Vejamos: é desejável, para um jornalista, para um órgão de comunicação, uma postura de neutralidade, imparcialidade ou isenção no lugar de seu contrário, isto é, a tomada de posição? Na medida em que o jornalismo tem de tratar do mundo real, ?natural? ou ?histórico?, e que esse mundo real é repleto de contradições reais, de conflitos, de antagonismos e de lutas, o que significa realmente ser neutro, imparcial ou isento? ?Neutro? a favor de quem, num conflito de classes? ?Imparcial? contra quem, diante de uma greve, da votação de uma Constituição? ?Isento? para que lado, num desastre atômico ou num escândalo administrativo? Assim, é defensável que o jornalismo, ao contrário do que muitos preconizam, deve ser não-neutro, não-imparcial e não-isento diante dos fatos da realidade. E em que momento o jornalismo deve tomar posição? Na orientação para a ação. O órgão de comunicação não apenas pode, mas deve orientar seus leitores/espectadores, a sociedade, na formação da opinião, na tomada de posição e na ação concreta enquanto seres humanos e cidadãos."


Desta forma, o jornalista e professor Perseu Abramo desconstrói o mito da imparcialidade jornalística que ? pela hegemonia da escola funcionalista americana no jornalismo mundial ? erigiu-se historicamente à condição de "categoria deontológica" do saber-fazer jornalístico ou, em outras palavras, num condicionamento profissional pretensamente situado em formulações éticas. Por outro lado, pretende-se legitimar uma postura ideológica com uma argumentação "metodológica" sobre o processo de investigação da realidade circundante que caracteriza o trabalho social do jornalista. Ainda, tenta-se encarnar neste mesmo trabalho social uma fundamentação epistemológica, como se o objetivo de atingir a "verdade dos fatos" demandasse "naturalmente" algum nível de neutralidade ? e ainda ? que fosse efetivamente possível. Como se tudo isso fosse necessário pura e simplesmente em função de (nada mais nada menos do que o bom e velho) "bom senso".

F. Fraser Bond, professor emérito da Escola de Jornalismo da Universidade de Nova Iorque, publicou em 1954 o livro-manual Introdução ao jornalismo". Em tal obra, o autor estabelece o que considera os "deveres da imprensa", os quais seriam: independência, imparcialidade, exatidão, honradez, responsabilidade e decência. O jornalista Adelmo Genro Filho, em sua teoria marxista do jornalismo, faz uma crítica devastadora de tais pressupostos, fazendo com que suas bases epistêmicas desmoronem violentamente e sua argumentação "desmanche no ar" ? com a virulência radical de quem se propõe a "profanar tudo o que há de sagrado". Sua análise nos serve de ponto de partida para analisar determinadas concepções de homem, de mundo e de jornalismo.

"Naturalmente, ao omitir essa discussão, ele adota as acepções correntes que a ideologia dominante atribui a essas palavras. Independência e imparcialidade significam, no fundo, ter como pressuposto que o capitalismo desenvolvido norte-americano e sua hegemonia imperialista é um tipo de sociedade ?normal?, e deve ser preservada contra todas ?patologias? políticas, sociais e econômicas. A exatidão quer dizer, quase sempre, a submissão do jornalista às fontes oficiais, oficiosas ou institucionais. A honradez não é outra coisa senão uma boa reputação entre as instituições da ?sociedade civil?, no sentido atribuído por Gramsci a essa expressão, isto é, entre aquelas entidades que reproduzem a hegemonia burguesa. A responsabilidade é o respeito às leis e preceitos gerais da ordem estabelecida. A decência significa, como diz o próprio autor, ?a censura do bom gosto?, ou seja, o reconhecimento da hipocrisia que fundamenta a moral burguesa como um valor digno de ser reverenciado e acatado."

Adesão e solidariedade

Daí apreendemos que o problema da "objetividade jornalística" encerra pressupostos profunda e marcadamente funcionalistas (e positivistas). Por um lado, apóia-se numa visão que infere "necessidades de informação do organismo social" ? do ponto de vista burguês, de uma democracia liberal (com a tão famigerada liberdade de imprensa como alicerce ideológico), porém com pretensões de neutralidade, ou seja, assumindo como "normalidade passível de aceitação" ou "inevitabilidade da natureza" algo que na verdade é uma construção erigida historicamente pela atividade dos homens: o modo de produção capitalista. Outro pressuposto falso, segundo Adelmo Genro, é que "os fatos jornalísticos são, em si mesmos, objetivos". "Os próprio fatos, por pertencerem à dimensão histórico-social, não são puramente objetivos", conclui o jornalista em sua análise.

Algumas posições intermediárias argumentam que de maneira efetiva isso seria impraticável, mas, tido como ideal a ser perseguido, poderia configurar-se como "porto seguro". Esse aspecto alude a um falso problema: o de que a subjetividade individual daquele que escreve estaria entreposta como obstáculo a ser superado durante a realização de uma entrevista, reportagem ou investigação jornalística. É preciso frisar que não se trata de maneira alguma de uma questão relacionada ao foro pessoal ou ainda algo em torno do estilo discursivo adotado. Na verdade o problema é bem outro. A despeito do grau de consciência política do jornalista, o produto de seu trabalho é invariavelmente público e encontra-se na perspectiva de grupos sociais e forças políticas que disputam a hegemonia ideológica nos mais diversos campos.

Assim, existe um sujeito histórico que, de maneira simplificada, coloca-se ou na perspectiva da manutenção da ordem ou na luta pela transformação social. Em outras palavras, em favor da classe que se apropria ilegitimamente da mais-valia produzida pela exploração dos trabalhadores; ou então se apóia na classe que gera valor e cuja luta se associa diretamente à utopia de emancipação da humanidade.

A grosso modo, é este tipo de posicionamento que se apresenta, necessariamente, no cotidiano dos jornalistas ? e é assim que se consolidam visões sociais de mundo distintas ou mesmo antagônicas que determinarão a práxis jornalística a ser adotada. Desde reportagens, pautas, políticas editoriais, entrevistas, notícias, interpretações, investigações até o próprio conceito de fato jornalístico existe um enviesamento ideológico resultante das posições sociopolíticas e de classe (por mais gerais que sejam), adotadas pelos jornalistas. Enviesamento este que, por fim, acabamos por perceber materialmente na produção concreta destes profissionais.

Não se trata, entretanto, de observar individualmente as posições adotadas por estes sujeitos concretos (os jornalistas), mas sim observar analiticamente a totalidade social que encerram, representam e expressam. Desta forma, devemos considerar enquanto elementos centrais de nossa análise as condições objetivas nas quais se desenvolve a produção jornalística e midiática, tanto material quanto ideologicamente. Da forma que expõe Genro, "isso quer dizer que os fenômenos são objetivos, mas a essência só pode ser apreendida no relacionamento com a totalidade. E como estamos falando de fatos sociais, a totalidade é a história como autoprodução humana, totalidade que se abre em possibilidades cuja concretização depende dos sujeitos". "Por isso, captar a essência implica, necessariamente, um grau de adesão ou solidariedade em relação a uma possibilidade determinada, tanto da totalidade histórica quanto do fenômeno que inserido nela vai adquirir seu sentido e significado", diz o também professor de Comunicação.

Precarização do trabalho

É mediante esta análise concreta que podemos compreender o trabalho social dos enviados especiais "de guerra", os quais reportam conflitos armados, nacionais ou internacionais, à grande imprensa do mundo contemporâneo. As guerras de libertação nacional, os grandes conflitos armados, as guerras imperialistas, a falsa "coalizão contra o terror" e a questão ilusória do "combate ao narcotráfico" não são alheias aos interesses das próprias corporações empresariais que as veiculam. Neste sentido os trabalhadores de imprensa são engajados na manutenção simbólica do capital em meio à hegemonia material e ideológica do neoliberalismo. Sustentar a palavra de ordem "imparcialidade" em verdade funciona como o suplemento moral necessário para manter a coesão dos jornalistas enquanto sujeitos deste processo que fatalmente se sujeitam, ao vivo e em cores, aos horrores de uma ordem fundada na exploração, dominação e opressão da maioria da população mundial em seu nível de antagonismo social e contradição estrutural mais profundos: massacres, genocídios, morticínios, guerras e muito, muito sangue.

Alain Accardo, professor de Sociologia da Universidade de Bordeaux III (França), desvenda de maneira crítica e minuciosa como ocorrem as dinâmicas sociais que caracterizam o dia-a-dia do jornalismo contemporâneo, e diz que os jornalistas em geral "não estão maquiavelicamente preocupados em manipular o público para aumentar o lucro dos acionistas das empresas em que trabalham, em particular, e dos capitalistas, em geral". De acordo com sua análise, os jornalistas "agem de forma orquestrada sem necessidade de se orquestrarem" pois, "tendo internalizado a lógica do capitalismo, a maior parte dos profissionais da imprensa adere livremente às suas exigências".


"Para tanto, basta entregar as rédeas do poder jornalístico nas redações aos homens e mulheres geralmente qualificados como ?excelentes profissionais?, o que significa que nunca deixaram de dar provas de sua adesão a uma visão de mundo cujas crenças fundamentais compartilham, explícita ou implicitamente, com seus patrões. Com profissionais ideologicamente confiáveis nos postos de comando, o mecanismo de cooptação, aberta ou dissimulada, garante, aí como em toda parte, um recrutamento destinado a impedir a entrada de raposas no galinheiro ou de hereges na missa. Esse mecanismo começa a funcionar nos cursos de jornalismo e continua permanentemente em ação nas redações dos jornais. Portanto, os meios de comunicação são solidamente dominados por uma rede à qual basta trabalhar ?como se sente? para trabalhar ?como se deve?, isto é, em defesa das normas e valores do modelo dominante (…)."


O sociólogo francês, colaborador do jornal Le Monde Diplomatique, traz em sua análise elementos que ? uma vez mais ? aproximam-se dos conceitos que pretendemos problematizar neste ensaio. Co-autor de Journalistes précaires" (jornalistas precários), Accardo examina de que forma setores assalariados, de frações intelectuais das camadas médias urbanas, são cooptados ? seja de forma ?aberta? ou ?dissimulada? ? para se tornarem quadros profissionais orgânicos da imprensa burguesa. O professor afirma que determinadas frações das chamadas "classes médias" ligadas à "produção e difusão de bens simbólicos" ? tais como: "atividades intelectuais relacionadas ao ensino, à informação, ao serviço social, à consultoria e ao recrutamento, à apresentação e à representação etc." ? cumprem um papel determinante na manutenção do status quo.


"Foi sobretudo essa nova pequena burguesia que, entregando-se de corpo e alma a esse sistema, injetou nele a dose de humanidade, inteligência, imaginação, tolerância, psicologia, em suma, o suplemento moral necessário para que ele pudesse passar da exploração selvagem do trabalho assalariado ? que ainda grassava antes da Segunda Guerra Mundial ? a formas aparentemente mais civilizadas compatíveis com o aumento das aspirações democráticas. Poderíamos então dizer que a modernização do capitalismo consistiu em desenvolver métodos de ?gestão dos recursos humanos? e de comunicação visando a apresentar os abusos patronais por meio de eufemismos e a envolver psicologicamente os assalariados na sua própria exploração. Tal colaboração acarreta, sem dúvida, diversos ganhos materiais e morais, sendo o primeiro deles a garantia da subsistência dos interessados e o segundo o sentimento de uma certa importância e utilidade para seus semelhantes. O que não é pouco. Mas acontece que, por uma dessas artimanhas objetivas de que a história está cheia, seu trabalho acaba sendo muito mais útil ao sistema e aos feudos que o dominam e que, pensando servir a Deus, servem também, e às vezes principalmente, ao diabo."


Desta forma observamos um enfoque no cotidiano, nos saberes e fazeres destes jornalistas precários particularmente atingidos pelo processo de precarização e flexibilização do trabalho ? próprio do estabelecimento da hegemonia do neoliberalismo, da qual também foram publicistas ativos e "militantes" (como bem descreveu Perry Anderson). Por outro lado não se pode afirmar que todos os jornalistas estejam conscientemente engajados na reestruturação neoliberal-conservadora.

Ovo de Colombo

Nas palavras do jornalista Adelmo Genro Filho, "eles colocam seu talento, honestidade e ingenuidade a serviço do capital com a mesma naturalidade com que compram cigarros no bar da esquina". À medida que o jornalismo contemporâneo foi mais e mais racionalizando sua produção, industrializando-se, foi-se exigindo a especialização de seus profissionais, e, mais e mais, o jornalista ? antes um profissional intelectual advindo de diversas áreas das humanidades ? foi se transformando em mão-de-obra precária da chamada ?cultura de massas? ou ?indústria cultural?. Mão-de-obra precária por quê? Porque a profissão de jornalista é, hoje, uma das mais desregulamentadas do mercado profissional de nível universitário. É o que constata o jornalista Ignacio Ramonet quando diz que "a degradação das condições dos jornalistas" explica-se tão somente enquanto um "acelerado processo de proletarização" destes.

Retomamos, todavia, as reflexões do intelectual comunista Antonio Gramsci sobre o papel dos intelectuais e da cultura numa sociedade dividida em classes. Aos intelectuais que desempenham um papel fundamental na reprodução-manutenção (material e simbólica) da complexa sociedade capitalista, Gramsci referiu-se como intelectuais orgânicos do capital ? profissionais que estão em conexão direta com as necessidades da empresa ou do Estado. E, segundo Alfredo Bosi, "o seu papel ? e a razão de sua existência ? é o de órgão pensante dos sistemas a que servem." Para Accardo, esta nova geração de profissionais apresenta valores coincidentes em sua visão de mundo.


"Se tivéssemos que resumir em poucas palavras sua crença fundamental, diríamos que eles acreditam sinceramente, no fim das contas, no saldo positivo de um capitalismo com face humana ? e acreditam firmemente que essa crença não tem nada de ideológico, nem de ultrapassado (…). Conseguem ver claramente, por exemplo, as várias manifestações de desumanidade da ordem capitalista onde quer que esteja instaurada; mas se recusam a ver nelas um traço consubstancial, inerente à própria essência do capitalismo, transformando-a num simples acidente. Falam de ?disfunções?, de ?desvios?, de ?rebarbas?, de ?excesso?, de ?ovelhas negras?, condenáveis, é claro, mas que de modo algum comprometem o princípio mesmo do sistema que tendem a defender espontaneamente."


Ao fim e ao cabo, como denuncia o professor Michael Löwy, as posições que propugnam alguma medida de "imparcialidade" nas pesquisas sociais ? e no nosso caso, para o jornalismo ? derivam do positivismo de Durkheim. "Pode-se perceber que todas essas formulações são psicológicas: pôr de lado as pré-noções, fazer calar as paixões, chegar através do sangue-frio à imparcialidade, ignorar preconceitos etc.", argumenta o sociólogo. Ou, nas palavras de Lourival Sant?anna, repórter internacional e enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo ao Afeganistão, "deve-se deixar de lado qualquer bandeira ? não acredito em jornalistas que carregam bandeiras". O profissional em questão, ao mesmo tempo que reivindica a ausência de visões ideológicas de mundo no jornalismo, é pós-graduado em filosofia de Kant. "Não se pode confundir sujeito e objeto, o objeto é o que importa. A objetividade deve ser o fim último de nossos esforços, ou como dizia Kant, uma idéia reguladora da razão." Löwy diz que "essa é a receita clássica do positivismo para resolver o problema da objetividade na ciência social, para resolver a contradição entre a existência de ideologias [e o imperativo da neutralidade] (…) a solução é um esforço para eliminar esses elementos perturbadores". Como bem disse o jornalista do Estado de S. Paulo: "O bom-senso substitui qualquer regra jornalística."

O sociólogo traz então uma pequena comparação. "Para resumir esta teoria, acho que não existe nada melhor que uma história famosa, do barão de Münchhausen, famoso personagem de histórias infantis na Alemanha, personagem fanfarrão, sempre contando vantagens e relatando aventuras incríveis. Uma de suas histórias, das mais espetaculares, ilustra ao meu ver perfeitamente a concepção positivista da objetividade. O barão de Münchhausen estava em seu cavalo quando afundou num pantanal. O cavalo foi afundando, afundando, o pântano já estava quase chegando à altura do ventre do cavalo e o barão, desesperado, não sabia o que fazer, temendo morrer ali com seu cavalo. Nesse momento, teve uma idéia genial, simples como o ovo de Colombo: ele pegou-se pelos seus próprios cabelos e foi puxando, puxando, até tirar a si mesmo e depois o cavalo, saindo ambos ? de um salto ? do pantanal."

Adesão silenciosa

Assim, a imparcialidade jornalística que tantos reivindicam seria algo como estarem, os jornalistas, intelectuais etc., enterrados "até a cintura no pantanal de sua ideologia, de sua visão social de mundo, de seus valores, de suas prénoções de classe" e então puxarem-se pelos próprios cabelos arrancando-se desse "pantanal" até atingirem um terreno limpo, asséptico e neutro: a objetividade no jornalismo.

Contrariamente, defendemos que esses elementos são determinantes e necessários para realizar uma investigação social sobre a realidade que nos cerca ? das guerras, das relações econômicas, do jornalismo contemporâneo e da imprensa do grande capital ? e então apreender, enquanto concreto pensado, a "síntese de múltiplas determinações" que constituem um fato jornalístico. Em poucas palavras, não há fato jornalístico sem o trabalho social de jornalistas concretos. Não há reportagens sem que haja o trabalho social de repórteres. E esse trabalho, em nenhum momento, é neutro. A relação subjetividade-objetividade é dialética, e é o sujeito que apreende, interpreta e constrói ? mediante uma relação social e histórica ? o objeto de suas entrevistas, reportagens ou investigações jornalísticas. O fato só é jornalístico se alguém decide que assim o é. Ou existe tal coisa como jornalismo sem jornalistas?

O jornalista kantiano, o repórter especial Lourival Sant?anna, apesar de discordar veementemente de que "carrega bandeiras", de fato tem uma visão social de mundo sobre as guerras, o jornalismo da grande imprensa brasileira e sua própria cobertura jornalística. Acreditar que enquanto redige, investiga, seleciona e apura fatos jornalísticos consegue se desvencilhar disso é mera ilusão. E sua opinião sobre a política editorial adotada pelo clã familiar Mesquita, em relação à guerra declarada ao Afeganistão, é no mínimo curiosa: "A família Mesquita prestou grande solidariedade à nação dos EUA."

Eufemismo é pouco para caracterizar esta avaliação sobre o que há de mais atrasado, em termos políticos, nas oligarquias clientelistas do Brasil. Sant?anna já denunciava sua filiação ideológica com diversos estrangeirismos utilizados enquanto cedia entrevista coletiva sobre seu trabalho desenvolvido no mundo árabe, entre eles "low profile, off the record, deep background information". Uma de suas preocupações centrais era descobrir se o regime talibã do Afeganistão estava "antes ou depois do iluminismo". Ou seja, se já fazem parte da civilização ocidental ou se ainda se enquadram na "barbárie fundamentalista do Oriente". Melhor ainda, se eram seres humanos dotados de razão ou, enfim, terroristas. Em última instância, Sant?anna acredita que "esses exóticos barbudos de turbante" na verdade "não pensam como nós [ocidentais], não são nem desejam ser o que somos". A "coalizão contra o terror" começa com a adesão silenciosa ? porém militante e incondicional ? da maioria dos jornalistas e das empresas da grande imprensa mundial. Do you understand?

(*) Estudante de Jornalismo da Unesp, aluno do 1? Curso de Informação sobre Jornalismo em Situação de Conflito Armado, promovido pela Oboré Projetos Especiais e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, no Projeto Repórter do Futuro de 2002

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