Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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“Os interesses das empresas vão induzir a opinião dos jornais”

Por Mauro Malin em 20/06/1997 na edição 24

O professor Thomas Skidmore, diretor do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Brown, em Rhode Island, EUA, é um “brasilianista” conhecido principalmente graças ao livro Brasil: de Getúlio a Castelo, em que realizou uma análise original do processo histórico brasileiro entre 1930 e 1964. Escreveu depois, entre outros livros, Brasil: de Castelo a Tancredo.

Nesta entrevista concedida ao OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA por telefone, Skidmore aponta transformações que tendem a mudar profundamente o panorama dos meios de comunicações, já claramente visíveis nos Estados Unidos e na Europa – embora haja aí diferença de um país para outro -, mas cuja chegada ao Brasil considera perfeitamente previsível.

Um dos pontos nevrálgicos dessa mudança é, na sua visão, a substituição das famílias tradicionalmente proprietárias de empresas de comunicação por grandes grupos como Gannett e Knight-Rider, e magnatas como Rupert Murdoch, interessados na operação como negócio.

“Os interesses das empresas vão induzir a opinião dos jornais, vão invadir de forma muito mais vigorosa do que até hoje sua área de atividade”, prevê.

Skidmore acredita que uma maneira de se contrapor a essa tendência é tentar encontrar fontes alternativas de informação, como as análises promovidas por Organizações Não Governamentais, entre as quais cita, no Brasil, o Ibase, dirigido pelo sociólogo Herbert de Souza, Betinho, e o Núcleo de Estudos da Violência da USP. “Em certo sentido, há hoje no Brasil mais pluralismo do que na década de 60”, constata.

Quanto ao fato de que essas fontes alternativas de informação não estão disponíveis para o grande público, o professor Skidmore aponta a alternativa do uso de vídeos informativos, já que há muito equipamento de vídeo disponível pelo país afora, e a televisão por assinatura, com sua oferta múltipla de canais, alguns dos quais veiculam material muito diferente do noticiário veiculado pelas grandes redes em 30 minutos de noticiário que, na verdade, não passam de 20 minutos líquidos.

A opção pela televisão como fonte de informação torna-se ainda mais premente fora das grandes cidades, onde, também devido ao fenômeno das grandes fusões empresariais na área das comunicações, é difícil encontrar jornais que publiquem noticiário de maior amplitude. Uma opção que não satisfaz a intelligentsia, claro, mas pode funcionar para o grande público, porque a TV a cabo tem muitas possibilidades, calcadas na diversidade e, por exemplo, na importância dada à História e à educação.

“Basta”, propõe Skidmore, “comparar a situação atual com a de minha adolescência, em 1948, quando as opções eram a família, o baseball e a comédia no cinema. Hoje, nos Estados Unidos, o número de jornais especializados – em motocicletas, selos postais, saúde, qualquer coisa que se imagine – é maior do que nunca.” O veterano “brasilianista” – começou a estudar o Brasil em 1961 – vê nisso uma demonstração de vitalidade da mídia impressa.

Em contrapartida, as revistas de interesse geral encontram dificuldade para sobreviver. Dá como exemplo a Harper’s Magazine, fundada em 1850 e que sobrevive graças à ajuda de mecenas, e a Atlantic Monthly, também centenária, ambas ameaçadas de extinção, assim como “o ensaísta geral, um homem de sabedoria capaz de escrever sobre qualquer assunto, que já se tornou um dinossauro”.

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