Sexta-feira, 26 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Os jornais na rede

Por lgarcia em 20/10/1999 na edição 77

The New York Times

“Belgrado, Iugoslávia – Quando um jornalista de Montenegro deu a entender que a imprensa sérvia precisava ‘deixar de ser nazista’, dois respeitados editores sérvios acharam que ouviram demais e deixaram a conferência da qual participavam com claro desgosto. Três semanas depois, Dragoljub Zarkovic, editor do jornal semanal independente Vreme, continua repudiando a acusação. ‘Estão acusando o povo sérvio e a imprensa independente do pior crime da história, traçando uma linha ultrajante e difamatória de igualdade entre o regime, nação e imprensa – a qual tem travado batalhas sangrentas contra as autoridades por dez anos. Eu senti então que não tinha outra opção senão sair’, afirmou Zarkovic.

A conferência, promovida pela Organização para Segurança e Cooperação na Europa, tinha a intenção de possibilitar o encontro de jornalistas sérvios, montenegrinos e alguns albaneses e promover discussões sobre as coberturas durante o bombardeio da ONU sobre Kosovo, suas causas e conseqüências.

Afinal, a imprensa independente falhou ao tentar despistar a censura? Eles deveriam ter suspendido as publicações? Eles combateram o regime de Slobodan Milosevic ou de alguma maneira colaboraram com ele? Publicaram o suficiente sobre Kosovo e as atrocidades cometidas pelo exército sérvio e estão publicando o suficiente agora?

Durante a guerra, a imprensa sérvia teve de trabalhar sob forte censura, além do acesso a Kosovo ter sido bastante restrito. A atmosfera patriótica, influenciada pela mídia, levou os sévios a se oporem ao bombardeio, ainda que fossem contra o regime de Milosevic ou denunciassem a expulsão de albaneses de Kosovo.

O encontro, realizado em Montenegro – uma das duas repúblicas que está sob o controle da Iugoslávia – acabou gerando enorme amargor, e os jornalistas sérvios reclamaram de arrogância moral, sujeira e hipocrisia. ‘Os organizadores queriam que revivêssemos nossas consciências e nos forçaram a questionar nossas condutas e moral’, afirmou Veselin Simonovic, editor do tablóide independente Blic, ao retornar à discussão depois de ter se retirado.

Ao mesmo tempo, ele afirmou, ‘isso nos foi posto de maneira direta; eles deixaram claro que deveríamos nos auto proclamar cúmplices de um crime, com solgans e clichês prontos, e tentaram nos forçar a justificar nossas ações, para disséssemos que não éramos tão criminosos quanto eles diziam’. Ele acrescentou que ‘não poderia continuar com isso e sinto muito pelos colegas que continuaram’. De acordo com Simonovic, os organizadores fizeram um estudo complemente inadequado da cobertura, com poucas distinções entre a cobertura feita pelo Estado e pela imprensa independente.

Gerard Stoudmann, organizador chefe da conferência, disse que ‘o objetivo era fazer com que as preocupações sobre as responsabilidades e o papel do jornalista ficassem mais claros em uma sociedade civil. Houve por parte dos jornalistas enorme preocupação em se defender, o que mostra que a sociedade sérvia está ficando autista e paranóica’, afirmou. ‘Mas o objetivo principal foi atingido, pois temas reais foram discutidos e isso inicia um processo de reflexão.’

Mas Simonovic, cujo jornal não recebe dinheiro internacional ou do governo, disse que a discussão mais parecia um tribunal. Uma das organizadoras, Natasa Kandic, foi explícita. ‘Eles pagam vocês para eles terem o direito de questionar sua conduta durante a guerra.’ Kandic, diretora do Centro de Direito Humanitário de Belgrado, viajou para Belgrado por conta própria para investigar os abusos sérvios. Em uma entrevista, ela afirmou que a imprensa falhou em suas responsabilidades profissionais durante a guerra e estavam falhando agora ao abrir a questão de responsabilidade coletiva pelos crimes de Kosovo. ‘Temos a obrigação de nos doar para o nosso trabalho e lutar pela democracia na Sérvia, mas não com palavras vazias.’

Simonovic, reconhecendo que algumas críticas foram válidas, não acredita que Kosovo continue sendo um ‘assunto tabu’ na Sérvia. ‘Essa é uma discussão que deve ser aberta para o nosso próprio bem e a imprensa abrirá. Mas agora isso poderia fazer com que a fúria do regime caísse sobre nós e o governo nós nos proibiria de continuar trabalhando.’

Esta seria, ele afirmou depois de pressionado, uma das razões pelas quais seus repórteres ainda não cavaram fundo nas causas e táticas dos sérvios em Kosovo – respostas que serão dadas em Belgrado e não em Kosovo, onde já não é mais seguro para os jornalistas sérvios trabalharem. ‘Nossos esforços estão concentrados na cobertura do regime e em todos os esforços possíveis para tirá-lo ou mudá-lo de rumo’, afirmou Simonovic.

Mas tanto Simonovic quanto Zarkovic notaram que sob censura a imprensa independente não cedeu à linguagem histérica e agressiva da imprensa controlada pelo Estado. Jornalistas independentes traçaram distinções entre a campanha popular e patriótica contra o bombardeio da ONU e a campanha sustentada por Milosevic. Eles publicavam matérias sobre Kosovo vindas do ocidente e da ONU, que incluíam histórias de massacres e estimativas sobre o número de mortos.

Ambos os editores argumentaram que com o amplo acesso de rádios, TVs e veículos da internet, poucos sérvios ficaram sem as informações básicas do que estava acontecendo em Kosovo. Eles afirmam ser ridículo esperar que a imprensa independente dê assistência a um bombardeio em seu próprio território em tempos de guerra.

Eles e outros jornalistas chegaram a concluir que o Ocidente não estava nada interessado na conduta profissional dos jornalistas sérvios ou em proteger os albaneses de Kosovo; eles estariam preocupados apenas em encontrar erros cometidos pela ONU. ‘O Ocidente falhou ao tentar criar uma região pacífica com várias etnias em Kosovo, criando ao invés um sentimento anti-americano na Sérvia. Os orientais precisam culpar alguém: setores civis, os sérvios, a imprensa – todos, para eles, são colaboradores’, afirma Simonovic.

Oficiais americanos estão condenando a imprensa sérvia por ter se deixado censurar durante a guerra, disse Zarkovic, do jornal semanal Vreme. Kandic chegou a afirmar que recusar a publicar era a melhor posição a ser tomada. Isso seria, segundo Zarkovic, uma renúncia a sua responsabilidade. ‘Teria sido um grande erro se o governo tivesse fechado Vreme.

Para os americanos a guerra contra Milosevic continua. Operadores do governo Clinton disseram que estão criando um anel de mídia patrocinada ao redor da Sérvia, tanto na Bósnia como em Montenegro, com mais programas em servo-croata nas rádios Free Europe e Voice of America.

Isso ajudará veículos como o de Zarkovic a entrar na Sérvia com alguma facilidade. ‘O único resultado que interessa aos americanos é derrubar Milosevic’, afirma Zarkovic. ‘Os americanos vêem a mídia como uma arma política para derrubar Milosevic. Eles não se importam muito com o que acontecerá depois da queda. Eu até posso entender: os americanos não viverão aqui. Mas eu sim, e por isso publicarei o meu jornal’, afirmou Zarkovic.”

“Jornalistas sérvios independentes defendem seu trabalho”, copyright The New York Times, 6/10/99. Tradução: Isabela Nogueira

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