Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

PRIMEIRAS EDIçõES > O IMPÉRIO ATACA

Os limites do espetáculo

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

O IMPÉRIO ATACA

Gilson Caroni Filho (*)

Alguma fratura travou o espetáculo. Ao contrário das últimas guerras americanas, "Choque e Pavor" está sendo um fracasso de crítica e de público. Hollywood, Rupert Murdoch, reverendo Moon e outros barões da imprensa estadunidense parecem não ter acertado a mão, e o resultado é um melancólico filme sem qualquer vestígio de arte. Péssima direção e elenco de baixíssimo nível. Nem sempre basta a imagem como critério da história. Às vezes, a farsa requer retórica convincente. Sem ela, inexistem a legitimação que precede o êxtase e o plano que oculta a morte.

A crença em um desmesurado poder manipulatório da mídia revela indigência de análise. O espetáculo só é possível porque a produção simbólica não se esgota em seu campo. Como destaca Silverstone, a circulação de significados, sua rica intertextualidade, não faz do senso comum um alvo passivo de versões deliberadamente distorcidas. Ele também produz, significa e é imprescindível aos que se julgam formadores de opinião. Em suma, o êxito de qualquer projeto ideológico depende de profunda afinidade eletiva entre produtores-consumidores e consumidores-produtores de bens simbólicos.Sem cumplicidade não há fluxo eficaz.

Necessidade de se apossar de jazidas petrolíferas estimadas em 112 bilhões de barris e a desesperada tentativa de manter o padrão dólar frente a um endividamento público excessivo são os móveis do que, com muita licenciosidade, podemos chamar de guerra. Objetivos prementes não têm grande margem de manobra estética. Seja como for, essa empreitada e seu eventual fracasso político podem ser o marco de uma importante inflexão histórica.

Eugênio Bucci, em ensaio publicado no livro Comunicação na Polis ? Ensaios sobre mídia e política (Editora Vozes) trata da "hegemonia dos meios de comunicação como fatores centrais, definidores e constitutivos de uma esfera pública mundial em formação". Esse projeto teria como função antecipar as ações políticas do governo americano, legitimando-as a priori. Desnecessário frisar a importância estratégica de emissoras como CNN, ABC, Fox e CBS nesse processo.

Embora tão precária como a noção habermasiana de esfera pública burguesa, trata-se, aqui, da sociedade civil global a ser conquistada pela universalização dos interesses estadunidenses. Tarefa que, apesar dos inúmeros conflitos existentes, parecia mais exeqüível nos dias que se seguiram ao atentados terroristas contra as torres do World Trade Center e o Pentágono, em 11 de setembro de 2001. Em que pese a especificidade de cada formação social, o Ocidente partilha, ainda que de maneira desigual, um imaginário comum. E foi ele que se tornou escombro. Físico e simbólico. Dos vergalhões fumegantes forjou-se o consenso e ressurgiu, agora legitimado, George W. Bush.

Ocorre que um Império luta acima de tudo por sua perpetuação. Convenções ambientais, controle e inspeção de armas químicas e biológicas no próprio território e a criação de um Tribunal Penal Internacional são mecanismos de frenagem de expansão. Donos de inconteste supremacia militar, o direito internacional é visto por eles como anacronismo de uma ordem passada. O esvaziamento da ONU e o esfacelamento da Otan seguem a mesma trilha. Nada pode deter os cruzados de Washington. "César" Bush faz ouvidos moucos aos protestos em escala planetária. Autonomizado da democracia, o governo americano opera com tirania de escala.

Mudança de cinema

A lógica imperial conspira contra o papel atribuído a sua própria mídia. Reavivando antigos ressentimentos, desfazendo-se de aliados, os Estados Unidos estão dispostos ao uso da coerção em detrimento da persuasão. Desprezam um poderoso mecanismo de engajamento textual: a retórica persuasiva. Para assegurar a dominação, abrem mão de qualquer veleidade hegemônica. Começa o ruído no espetáculo. A sociedade civil mundial, por meio de megamanifestações pacifistas, rejeita a farsa vendida como épica. A cada bombardeio engrossam os protestos. A imprensa estrangeira formata o discurso pós-neoliberalismo. Nele, Moab?s e Tomahawks não fascinam. E gastos militares de 380 bilhões de dólares são percebidos como uma bofetada na distinta platéia.

O sinal aberto da BBC foi um péssimo prenúncio. O fixador e o treino de teleprompter revelavam no camarim a canastrice do protagonista. As bombas caíam e a ausência de catarse revelaram o desalento do público. A história, ao menos temporariamente, resgatou a razão como critério.

No domingo (23/3), o interdito veio à ribalta. A TV al-Jazira mostrava a imagem de soldados americanos mortos no Sul do Iraque. Acabava aí a "imaterialidade" da guerra. Foram divulgadas, também, as imagens de cinco prisioneiros. Faltava o elemento pastelão, e ele não demorou a aparecer. No mesmo dia, o Jornal do Brasil online trazia a seguinte informação:


"Washington ? O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, afirmou hoje que as imagens da televisão iraquiana que mostram prisioneiros de guerra americanos são uma violação da Convenção de Genebra. Em declarações à rede de televisão CBS, Rumsfeld disse que a Convenção de Genebra proíbe que os prisioneiros de guerra sejam fotografados ou humilhados."


Realmente, nada se pode esperar de uma produção que conta, além de George Bush, com Condoleezza Rice, Donald Rumsfeld e Dick Cheney, entre outros.

Uma nova esfera pública mundial, talvez a primeira efetiva, pode ser o resultado dessa promessa de barbárie. Em momentos como o atual, o otimismo tem que morar secretamente na razão. Talvez estejamos mudando de cinema. Lentos, mas resolutamente, deixamos a sala que exibe Independence Day e nos encaminhamos para a obra-prima de Jean Renoir, A grande ilusão. Já não era sem tempo.

(*) Professor das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), Rio de Janeiro

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