Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O CRIME NA IMPRENSA

Os números da morte

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

O CRIME NA IMPRENSA

Carlos Vogt

A violência descontrolada, que se abate sobre as cidades brasileiras e abate os nossos cidadãos, assusta pelo descontrole e mais ainda pelo controle que os seus agentes, sejam eles quem forem, mostram ter do processo.

Estamos ensanduichados entre o descontrole dos resultados e o controle perversamente eficaz das ações criminosas pelas organizações interessadas.

O assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, semana retrasada, e do prefeito de Campinas, Antonio Costa Santos, o Toninho, em setembro do ano passado, alertam para uma situação extrema a que estamos, cotidianamente, todos expostos.

As estatísticas divulgadas recentemente pela mídia e pela imprensa mostram dados apavorantes: são assassinadas por ano, no Brasil, 40 mil pessoas, numa média de 24 pessoas por cada grupo de 100 mil.

Comparativamente, para o mesmo grupo de referência, nos EUA, são assassinadas 8 pessoas, e na Inglaterra, 1. Em São Paulo, o número sobe para 34 e no Rio de Janeiro, para 36.

Ouvi, na terça-feira, dia 21 de janeiro, a jornalista Maria Lydia entrevistar na CBN o prefeito de Guarulhos, Elói Pietà, também do PT, que fazia uma análise, assustada, é claro, mas consistente da situação de instabilidade social criada pelo assassinato consecutivo de dois prefeitos, sobre o fundo de violência disseminada em São Paulo e no país.

Dizia o prefeito de Guarulhos que, estatisticamente, era muito improvável que o assassinato de Celso Daniel e de Toninho pudessem ser atribuídos ao simples acaso da violência e que o fato de terem sido mortos os prefeitos de duas das cidades mais importantes do estado apontava para a probabilidade de outros prefeitos do Partido dos Trabalhadores, de outras cidades importantes, Guarulhos entre elas, estarem na lista do banditismo organizado.

Na entrevista, o prefeito de Guarulhos descartou totalmente a possibilidade, indagada pela jornalista, de que os crimes pudessem ter origem em insatisfações de setores mais radicais do partido, descontentes com aberturas democráticas propugnadas e defendidas pelas suas lideranças nacionais.

Como disse, a avaliação feita pelo prefeito Elói Pietà sobre a intencionalidade política dos crimes que levaram à morte seus dois colegas de partido é, no mínimo, verossímil.

Mas "político", nesse caso, deve ser entendido num contexto não propriamente ideológico, que propiciaria o embate de forças da esquerda e da direita, como a história, classicamente, registra, mas num cenário pós-moderno de luta pela desestabilização social como meio para garantir o funcionamento das estruturas paralelas de poder que o crime organizado necessita para o sucesso de seus "empreendimentos industriais, comerciais e de serviços".

Entre os elementos da organização criminosa é preciso contar como parte constitutiva e integrada o crime desorganizado, isto é, o conjunto de atos aparentemente não dirigidos a esta ou àquela pessoa em particular e que também faz vítimas aos milhares no país.

Sociedade acuada

O desemprego, a exclusão social, a situação econômica, as condições de vida, a desesperança, a falta de projetos, a falta de não poder sentir a falta de projeto, a exposição à banalização crescente da violência são traços, entre outros, que vão compondo as ruínas dos cenários em ruína do estágio atual do processo civilizatório, sobretudo em países como o Brasil, que atravessam mares e desertos de grandes mudanças estruturais na sua cultura política e econômica.

Em qualquer hipótese, nesses novos cenários de intensa fragmentação social, de errância ética e de pulverização cultural, o assassinato do prefeito Celso Daniel e o assassinato do prefeito Toninho são crimes políticos, mesmo que venha a ser provado, hipótese hoje mais remota, que eles foram mortos pela ação não dirigida de bandidos comuns.

Na verdade, não há, a rigor, mais bandidos comuns. Há criminosos inconscientes do papel político desestabilizador de suas ações que, no entanto, resultam, cada vez mais, não só em estatísticas ameaçadoras, mas em sentimentos e percepções sociais que contribuem enormemente para o clima de medo e insegurança que, quanto maior, mais favorece a organização do crime e os atrevimentos trágicos do crime organizado.

De fato, a questão é social e necessita urgentemente de ações e iniciativas que modifiquem as condições de produção e reprodução de sua perversidade.

Mas é também política, no sentido de que, dirigida ou não, com ou sem intencionalidade, ela resulta num acuo e numa instabilidade que atingem desde o cidadão até as instituições que permitem e alimentam a vida em sociedade.

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