Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > 4.

Os números-notícia da eleição

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

PESQUISAS & PESQUISISMOS

Antonio Fernando Beraldo (*)

“A vida é uma roleta!”, já berrava aquele inacreditável boleraço dos anos 60. Quem trabalha com estatísticas e cálculo de probabilidades já aprendeu na carne e nos nervos (e, alguns, na reputação) o que significam os caprichos da bolinha entontecida volteando por sobre os números do destino… (nossa!). Emoções muito parecidas teve quem acompanhou pela internet, no domingo (6/10), a apuração dos votos do primeiro turno das eleições. As “parciais” se sucediam num ritmo cada vez mais rápido: 26% das urnas apuradas, 28%, 32%, 40%… a bolinhas “Lula” e “Serra” oscilavam e caíam milimetricamente, lá pela primeira ou segunda casa decimal: 46,85% x 24,56%, 46,81% x 24,53%… Foi demais para qualquer coração, mas, como todo jogador que se preza, não conseguimos desviar os olhos da bolinha, quer dizer, da telinha do micro.

A Folha Online deu um banho na concorrência e teve número para tudo quanto é gosto, nacionais, regionais e municipais. Acaba-se misturando tudo, e pensando que o Joaquim Roriz é candidato a suplente de senador do Fernando Collor em Santa Catarina, mas deixa pra lá ? este é um país de dimensões continentais mesmo, e com um número também continental de candidatos, na casa da dezena de milhares. Mas voltemos ao que interessa.

Na manhã de domingo, dia das eleições, os jogadores, digo, os jornais, se dividiram em mais ou menos arrojados e mais ou menos contidos diante do crupiê. A Folha de S.Paulo veio com a manchete “Garotinho disputa com Serra 2? lugar; Lula segue na frente”, sem arriscar se haveria ou não segundo turno. Como sempre, prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, ainda mais com os números da última pesquisa Datafolha: 48% dos “votos válidos” para Lula.

O Globo veio pela tangente, ao manchetar: “Maioria dos estados poderá eleger governador no 1? turno”. Muito bem, mas e a eleição para presidente? Ninguém vai arriscar ou as cartas “quentes” estão escondidas nos cadernos especiais? O Estado de S.Paulo, fidelíssimo à sobriedade que o caracteriza, ostentava como título principal: “Pesquisas reforçam indefinição sobre 2? turno”. Ah! até que enfim. O velho e bom Jornal do Brasil passava a bola para frente: “Boca-de-urna decide se haverá segundo turno”, sem levar em consideração que boca-de-urna é proibido. Apostando quase todas as fichas, lá vinha o Jornal da Tarde: “Pesquisas apontam 2? turno”. Portanto, estamos acertados: Lula ganha o primeiro turno, mas não leva, já. E ninguém arrisca nem petisca um Serra, para adversário? Vamos lá, gente, façam seu jogo!

“Analismus cronicus”

Nada. E passamos a tarde inteira à espera da bolinha começar a se mexer. As notícias começam a preocupar: mais de 5.000 urnas quebraram, votação atrasada no Rio, em São Paulo, Brasília, pessoas que levavam até 30 minutos (!) para digitar seis votos… brigas, tumulto, “dios, para que quiero otros besos”, e lá vem: TSE anuncia para as 18h30 a divulgação dos primeiros resultados! Ótimo, pedimos mais um uísque, com aquele olhar blasé à la Bogart, e deslizamos calmamente a ponta dos dedos sobre o feltro verde. Nosso jogo é o seguinte: Datafolha, 48%, com uma amostra de 12.554 entrevistados; Vox Populi e Ibope, de 49% a 50% ? ôpa! roda, roda e não sai do lugar.

Já são quase 3 da madrugada e o jogo está chegando ao fim. Quase 100% das urnas apuradas, Lula não desgruda daquele 46 vírgula qualquer coisa, mas Serra cai um pouco, menos que 24%. Vamos dormir, não? Segunda-feira é dia de trabalho, como diz o tucano.

Na manhã de segunda-feira, dia 7, o primeiro susto: 18% de abstenções! Este, sim, é o número-notícia para arrebentar com todos os outros. Não há estatística, não há instituto, não há jornal que dê jeito com este absurdo imponderável. Na eleição de 1998, tudo bem (ali a abstenção chegou a 22%), nada mais sem graça, mas nessa de agora, tão disputada, com até o horário eleitoral cravando bons índices de audiência… tem alguma errada com esse processo.

Outro número-notícia (que deve estar ligado ao das abstenções) foi o percentual de urnas quebradas, superior a 1% do total. A complexidade, para muitos, de digitar os votos, além da quebra das urnas geraram filas de contornar quarteirões, e não há cristão que agüente esperar duas horas debaixo do sol inclemente (todo sol forte é inclemente) para votar, seja ele “lulista”, “serrista”, “cirista” ou infanto-juvenil (existe “garotista”?). Deste fato em diante, todos, absolutamente todos os institutos estão devidamente desculpados de qualquer premonição equivocada (isto, em tucanês, quer dizer “chute mal dado”). Golpe baixo na pesquisite, não? Mas lembro que o Mauro Paulino, diretor do Datafolha, cantou essa pedra, dias atrás.

Mas não desculpa a edição do Jornal do Brasil da segunda, 7/10, que comeu cru e cometeu uma barriga em seu próprio quintal: na pág. C1, baseado no Ibope, tascou: “Boca-de-urna indica o 2? turno no Rio”. Como sabemos, Rosinha Garotinho (PSB) faturou 51,2% dos votos, deixando Benedita da Silva (PT) com 24,5%. Não era mais fácil ficar “na sua”?

Mas deixa pra lá. Pela frente temos 20 dias, três semanas inteirinhas para a pesquisite, revigorada, se fartar, agora com novos e suculentos pratos condimentados. O cardápio das cifras deverá ser o seguinte:

1. “Mamãe, posso comer o doce de sobremesa do Juquinha?”, ou “para quem irão os votos do Ciro e do Garotinho?”. Este é um prato de sabor duvidoso, pois é servido de maneiras diferentes nas diversas regiões do país. Em São Paulo, por exemplo, onde este acepipe é chamado de “virado à paulista”, como voltará um eleitor de Paulo Maluf? Engrossará a espantosa corrente ascendente de José Genoíno, que atropelou todo mundo (previam 24%, o candidato chegou a 32%!), estremecendo de antipetismo, ou adere à herança do finado Mário Covas, inimigo figadal do malufismo? Esta dialética hamletiana causará frisson em todo mundo, e uma indigestão quase certa de analismus cronicus, um efeito colateral da pesquisite. A “nível de nacional”, então, nem se fala.

2. “Lula ao termidor”, aquecido lentamente e servido com a estrepitosa caninha “Levanta militância”. Será que o anticlímax de Lula não ter faturado logo na primeira fase irá desanimar as hostes petistas? Este é um prato feito para as chamadas “qualis”, as famosas pesquisas qualitativas, nas quais minha colega Rachel Moreno é mestre-cuca e deita e rola.

3. “Feijão perdidos-no-espaço com arroz unidos-venceremos”, que encerra (sem trocadilho premonitório) a dúvida metafísica “onde vai grudar o PFL?”. Este prato também é eivado (gostou?) de regionalismos, embora nem tanto quanto o n? 1, acima. Os pefelistas estão atordoados até agora com os seguidos tombos que levaram (Roseana Sarney, Ciro Gomes) de uma sela que montam há mais de 400 anos, e devem estar tentando comer sorvete com garfo. Essa é para cachorro-grande.

4. “Sopa de letrinhas”: que outro índice a Folha de S.Paulo vai inventar?

Enfim, pacientes leitores, lá vem a onda. Fiquemos atentos para não levar “caixote” (gíria dos anos 50) e suportemos firme. Na manhã do dia 28 de outubro tudo isso será passado, e os jornais amontoados no canto da sala serão nada mais que os yesterday papers, yesterday girls (outra música, dos Stones, anos 70). Sobreviveremos.

(*) Engenheiro, professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora

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