Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > A NOVA GENI

Os porcos e os interesses pessoais

Por lgarcia em 05/08/2003 na edição 236

A NOVA GENI

André Montanhér (*)

Em nada difere o método utilizado pela mídia do método do sistema social em que está inserida. Nesse sentido, se ao final do embate secular da história nos deparamos com uma via de mão única liberal capitalista democrática, não cabe à mídia questionar esse modelo com arroubos revolucionários, mas dedicar-lhe os melhores serviços dentro de seus parâmetros.

Sociedade dos indiscretos

A ação livre da imprensa, de modo geral, trouxe muitos benefícios a uma sociedade pouco afeita a se olhar no espelho. Crimes foram desvendados e homens públicos indignos foram alijados do poder graças ao incessante trabalho de profissionais sedentos de verdade. Enquanto nossos tão bem afamados políticos evocam a pré-definição de um modelo, domesticado e encoleirado pelo extremamente vago adjetivo "de interesse público", os profissionais de imprensa dão a vida e se acotovelam por informações que, se às vezes desastradas e deformadoras do frágil cronograma de um processo social lento, às vezes mudam demasiado positivamente a história do país.

Cada homem público e seu modelo de trabalho de imprensa mal sobreviveriam à oportunidade de cinco minutos de exposição sobre o que pensam que deveria ser a mídia. João Pedro Stedile utiliza a retórica revolucionária para se manter na testa do MST e, flagrado mantendo a fidelidade do discurso perante a sociedade, clama por alegada injustiça. Tony Blair se envolve em procedimentos bem próximos aos do III Reich, e questiona o conceito de TV pública inglesa quando um cadáver lhe cai no colo. João Paulo Cunha, talvez o mais despreparado presidente da Câmara da Nova República, tão tem peito para assumir um ato que se provou mais que necessário, quando a integridade física dos parlamentares se mostrou ameaçada, e joga na imprensa a acusação de distorcer os fatos.

Entre todos os modelos da imprensa na história, ao longo da história, sobreviveu aquele em que o editor manda às ruas o repórter pautado em busca da verdade. O debate sobre interesse público, se porventura for pertinente no sentido de restringir a morbidez de nossos programas policiais, se estendido à cobertura política ganha ares daquele debate dos porcos do livro A revolução dos bichos, de George Orwell, em que cada qual tenta adequar a realidade ideológica do novo regime aos seus interesses pessoais.

Viva os paparazzi, viva os abelhudos, viva os indiscretos! Vocês já imaginaram nossa sociedade sem eles?

(*) Jornalista, Limeira, SP

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