Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Otavio Frias Filho

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

SCHWARZNEGGER GOVERNADOR

“Califórnia dream”, copyright Folha de S. Paulo, 9/10/03

“A eleição do ator Arnold Schwarzenegger para o governo da Califórnia pode ser debitada às extravagâncias eleitorais do maior Estado norte-americano. Ali se combinam o coração da indústria do entretenimento, de onde provém o novo governador, e o culto a uma política alternativa, heterodoxa, que usa e abusa de plebiscitos.

Não se pode dizer que sua vitória, apesar de surpreendente, traduza uma novidade. Ela confirma outra vez que a política se tornou uma forma de espetáculo regido pela linguagem publicitária da mídia. O precedente mais óbvio, no caso, é o de Ronald Reagan, também ator, também governador da Califórnia (1966-1974).

Mas as semelhanças ficam aí. Desde o fim dos anos 40, Reagan militava como dirigente do sindicato dos atores. Candidatou-se quando fazia quase 20 anos que o público não estava acostumado a vê-lo nas telas. Presidente, colheu a vitória na Guerra Fria e foi um dos artífices da ideologia econômica liberal que prevalece desde então.

Schwarzenegger é um oportunista que tem uma noção vaga dos problemas da administração. Fez a campanha prometendo menos impostos e mais gastos sociais -para usar os termos de seus filmes, seria como poupar munição e descarregá-la no inimigo ao mesmo tempo. E explorou o tema ambiental num Estado onde existe uma obsessão ecológica.

Sua conversão de mito do cinema em político profissional foi muito mais fulminante e postiça do que a de Reagan. Nem por isso, agora que ela se consumou, deveria ser vista como mero acidente eleitoral ou simples resultado da obstinação com que Schwarzenegger persegue fama, dinheiro e poder desde que chegou aos EUA, em 1968.

O inglês não era a língua dos pais da maioria dos californianos, dos quais 25% são estrangeiros. A eleição do herói de filmes classe B significa a vitória do imigrante que venceu como poucos na saga percorrida por tantos de seus eleitores. Schwarzenegger representa bem a ideologia do imigrante adaptado, que se torna mais realista que o rei.

Sua imagem está perfeitamente sintonizada com o clima belicoso em que os atentados e a política de Bush jogaram os americanos. Está em sintonia também com a idéia infantil, verdadeira ?mensagem? de seus filmes, de que os grandes esquemas da corrupção, da injustiça, do ?mal?, enfim, só podem ser exterminados por um justiceiro.

Além da crise no setor da internet, a Califórnia é vítima de uma demagogia antiimpostos, inaugurada por Reagan, que vem depauperando a capacidade do Estado para investir e é uma das causas da crise energética que se somou à outra. A solução encontrada pelo eleitorado é de um escapismo à altura de sua fábrica de sonhos. Otavio Frias Filho escreve às quintas-feiras nesta coluna.”

“Eleito, Schwarzenegger se mantém vago”, copyright Folha de S. Paulo, 9/10/03

“O ator Arnold Schwarzenegger, eleito anteontem governador da Califórnia numa votação histórica, não mudou o principal traço de sua campanha ao dar sua primeira entrevista: foi vago sobre a maioria das questões.

Schwarzenegger, 56, não deu detalhes sobre como pretende sanear as finanças do Estado ao assumir, dentro de 40 dias. O déficit público, em torno de US$ 38 bilhões, foi o fator que desencadeou o processo cujo resultado foi o ?recall? -a votação que abreviou o mandato do governador Gray Davis e elegeu o ator.

?Ainda não sabemos o tamanho exato do déficit. Vamos ter de fazer uma auditoria para ver o tamanho do estrago. Num futuro próximo, vou poder anunciar os detalhes, mas não vou aumentar impostos?, declarou.

Ele reiterou promessas de campanha consideradas inexpressivas por seus críticos, como ?revogar o aumento dos tributos para licenciamento de veículos?.

O ?recall? e a vitória do neófito Schwarzenegger, no Estado cujo PIB é o equivalente ao da França (quinto economia do mundo), foram encarados pela mídia americana como uma advertência para os políticos tradicionais.

O ator capitalizou: ?Para que o povo vença, a política tradicional deve perder. Vou congregar republicanos, democratas e independentes -e aqueles que votaram a favor do ?recall? e contra ele?.

O discurso do republicano reflete o que deverá ser uma de suas principais dificuldades -o fato de que os democratas controlam o Legislativo na Califórnia e estão irritados com a derrubada de seu correligionário Davis, que havia sido reeleito 11 meses atrás.

Schwarzenegger contemporizou. ?Recebi telefonemas do governador Gray Davis e do vice Cruz Bustamante. Eles se mostraram dispostos a cooperar com a transição.? Bustamante, que permanecerá no cargo, provocou: ?Ele pode ficar quanto tempo quiser, mas vou manter os olhos bem abertos. Vou vigiá-lo bem de perto?, disse o vice, segundo mais votado na eleição.

Apoio feminino

A participação feminina foi decisiva para a vitória de Schwarzenegger. Mais de 40% das mulheres votaram no republicano. O segundo colocado, Bustamante, ficou com pouco mais de 35%.

O resultado surpreendeu, já que, na reta final da campanha, 16 mulheres acusaram o ator de assédio sexual. O escândalo, publicado em reportagens do jornal ?Los Angeles Times?, levou a mulher do ator, Maria Shriver, a sair em defesa do marido.

?Em quem vocês preferem confiar -em mim, que conheço Arnold há mais 20 anos, ou em pessoas que passaram no máximo cinco segundos com ele??.

O esforço de Shriver foi reconhecido pelo ator, que não negou ter assediado mulheres em estúdios de cinema. ?Eu quero agradecer a Maria pelo amor e pela força que ela tem me dado. Eu sei que consegui muitos votos por causa dela?.

Anteontem, 55% dos eleitores votaram ?sim? pela saída do governador Davis, enquanto 45% votaram ?não?. Esse apoio popular a Schwarzenegger, dizem analistas, poderia ser o combustível para uma candidatura do ator à Presidência. Mas, por não ter nascido nos EUA -ele é austríaco naturalizado americano-, essa ambição terá de esperar por uma emenda constitucional que permita a candidatura de imigrantes.”

***

“Resultado é visto com medo e entusiasmo”, copyright Folha de S. Paulo, 91/10/03

“Nas ruas de Los Angeles e na mídia californiana, uns apostam que a estrela do ?Exterminador? será suficiente para tirar a Califórnia da crise; outros acham que esse brilho de Arnold Schwarzenegger esconde um aventureiro sem nenhum tato político.

?Tenho certeza de que ele vai atrair investimentos para o Estado. O carisma dele, a simpatia e a experiência também vão chamar os jovens para a política?, avaliou o promotor público Steve Slavitt.

Já para a dona-de-casa Molly Culligan, a eleição de Schwarzenegger vai ter um impacto negativo. ?A mensagem que ele passa é a de que basta ser uma celebridade para ganhar. Não importa o caráter.?

A californiana passou em frente ao comitê de campanha de Schwarzenegger para protestar. Segundo Culligan, ela sempre buzina ou protesta de alguma maneira quando passa pelo local.

?Por que não tiram Bush??

Num protesto solitário, à frente do Los Angeles Convention Center, região central da cidade, o sindicalista Myron Staffeldch, 60, tentava atrair a atenção dos passantes para seu cartaz: ?Arnold vai exterminar o nosso Estado?.

Para Staffeldch, a eleição foi injusta. ?Gray Davis não fez nada de errado. O déficit não foi culpa dele. O presidente [George W. Bush] também tem um grande déficit. Por que ninguém tira ele??, perguntou.

Na mídia californiana prevaleceu o ceticismo com o anúncio da eleição de Schwarzenegger. Em editorial publicado ontem, o ?Los Angeles Times? fez alguns prognósticos sombrios sobre o futuro político do ator.

?O governador eleito Schwarzenegger terá de formar alianças com outros políticos. O governador Gray Davis falhou nessa missão e vejam o que aconteceu com ele. Os eleitores querem mais que um novo governador?, sentenciou o texto.

O jornal foi um dos principais críticos da campanha pelo ?recall? -a votação que abreviou o mandato de Davis e permitiu a eleição de Schwarzenegger. Na semana passada, às vésperas da eleição, o ?Los Angeles Times? publicou uma séria de reportagens nas quais mulheres acusavam Schwarzenegger de abuso sexual. O caso chegou a ameaçar a candidatura do ator.

Efeitos políticos

O ?San Francisco Chronicle?, que provém de uma região na qual a maioria da população era contra o ?recall?, expressou preocupação com os efeitos políticos que essa eleição pode trazer.

?Enquanto os outros comemoram o resultado imediato dessa eleição, nós nos preocupamos com as inesperadas consequências que esse ?recall? insano pode causar a longo prazo?, afirma o texto.

A possibilidade mais temida é que outros governadores com problemas de déficit sofram processo semelhante ao que derrubou Davis, ameaçando criar um caos nacional.

O ?Daily News?, jornal com um perfil mais popular, também fez comentários ácidos sobre a futura administração de Schwarzenegger.

Em editorial intitulado ?Schwarzenegger, agora vem a parte difícil?, o jornal enumerou as dificuldades administrativas e financeiras que aguardam o ator após a sua posse, entre elas governar diante de um Legislativo dominado por democratas, ?enfurecidos? pela convocação do ?recall?.”

“Bush lucra, mas deve se manter distante do ator”, copyright Folha de S. Paulo, 9/10/03

“A vitória de Arnold Schwarzenegger na Califórnia representa um avanço nos planos de reeleição de George W. Bush, mas também contém uma série de incógnitas que devem manter a distância entre o novo governador eleito e o presidente dos EUA.

A Califórnia é o maior colégio eleitoral dos EUA e tradicionalmente democrata. Na eleição presidencial de 2000, o adversário de Bush, Al Gore, nem sequer precisou gastar dinheiro de campanha para vencer no Estado.

Na eleição do ano que vem, os republicanos esperam, no mínimo, que a Califórnia agora drene parte dos fundos e da energia dos adversários democratas.

Mas Schwarzenegger é visto com muitas ressalvas pelos republicanos mais conservadores.

Considerado um ?outsider? sem experiência administrativa, o novo governador assumirá um dos Estados mais problemáticos do país em termos financeiros. E terá pela frente um Poder Legislativo estadual totalmente dominado pelos democratas.

O tipo de discurso e a atitude geral de Schwarzenegger também têm pouco a ver com Bush.

O ator de Hollywood venceu a eleição em meio a denúncias de assédio sexual. O texano Bush assumiu a Presidência com a promessa de ?recuperar a honra e a dignidade da Casa Branca? depois dos excessos assumidos por seu antecessor, Bill Clinton.

Schwarzenegger é a favor do aborto e do uso medicinal da maconha, temas rechaçados com energia pelo presidente.

Schwarzenegger terá, contudo, a sombra do ex-ator e ex-presidente Ronald Reagan (1981-89) a seu favor.

Considerado competente, Reagan foi eleito duas vezes governador da mesma Califórnia antes de chegar à Presidência.

Na semana que vem, Bush visitará a Califórnia. A Casa Branca não confirmou ontem se haverá espaço na agenda para um encontro com o governador eleito, mas informou que Bush telefonou para Schwarzenegger para cumprimentá-lo pela vitória.

Os republicanos mostraram-se otimistas com os resultados da eleição. Metade dos hispânicos da Califórnia, o novo alvo dos políticos, votou a favor do ?recall? eleitoral e um terço deles optou anteontem por Schwarzenegger.

Todas as análises do momento, no entanto, são consideradas prematuras pelos analistas do partido de Bush. Especialmente em se tratando da Califórnia.

Há dois anos, Gray Davis, o governador agora deposto, tinha popularidade suficiente no Estado para aspirar à Presidência na sucessão de Bush, ano que vem.”

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