Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Otavio Frias Filho

Por lgarcia em 31/10/2001 na edição 145

JORNALISMO POLÍTICO

"Factóides", copyright Folha de S. Paulo, 25/10/01

"A realidade é o que resta das previsões políticas depois de devastadas pelo imprevisto. Ou seja, é quase inevitável que análises feitas hoje sobre a sucessão presidencial, por exemplo, percam seu já duvidoso valor nos próximos meses. Ainda assim, elas ajudam a pensar os panoramas mais prováveis para 2002. O slogan atribuído aos bastidores da campanha do ministro Serra -continuidade sem continuísmo- pode ser estendido aos demais postulantes com chance real de vitória. Depois de três eleições presidenciais livres desde o fim do regime militar, o eleitorado se mostra mais cético e cuidadoso, menos facilmente iludível. Deve intuir, à sua maneira, o quanto as restrições hoje em dia impostas pela economia à política limitam a latitude de opção do governante. E preza, conforme sugerem todas as pesquisas de opinião, o estatuto de estabilidade monetária e política que se firmou ao longo da década de 90, o principal legado de FHC. Se essa sensibilidade não se alterar, o vetor da campanha presidencial será uma desesperada corrida para o centro, com forte retórica de compromisso ?social?, mas centro. Todos tratarão de se distanciar da desgastada imagem do governo há oito anos no poder, mas com vistas a ocupar-lhe o mesmo lugar no espectro. Quando os candidatos não diferem pela ideologia, numa assemelhação que abarca até o PT, a tendência é pautar suas divergências por ?propostas concretas?. O debate terá a pretensão de ser ?técnico?, traduzido na vistosa linguagem publicitária que se tornou o centro da política contemporânea. Os críticos têm razão de implicar com essa política de ?factóides?, irrelevâncias e pirotecnias com intenso apelo simbólico. É importante que seja criticada. Mas é um erro considerá-la um aspecto ornamental e secundário, como no passado, pois ela se tornou o próprio cerne da política na sociedade midiática. Numa cultura dominada por imagens, a forma de comunicação do político profissional não é mais o palanque, o discurso, o programa, mas isso que se passou a chamar entre nós de ?factóide?. Quando compreendido e decifrado, o ?factóide? revela mais do que mil debates supostamente programáticos. Baseada no modelo de cobertura habitual, que se cristalizou ainda nos anos 80, estará a mídia preparada para traduzir um debate que vai se apresentar como ?técnico? e ?propositivo?? Estará equipada para ir mais além da superficialidade do ?factóide?, não para ignorá-lo, mas para explicar o que oculta e revela?

Comentário publicado aqui na semana passada criticava o presidente da República por ter-se manifestado de forma vaga e tardia sobre a conjuntura mundial pós-11 de setembro. Leitura mais detida das íntegras desses pronunciamentos sugere que o reparo quanto à demora se mantém, mas não quanto à vagueza."

 

PARCIALIDADE

"Está difícil", copyright Folha de S. Paulo

Dia 28/10 – Sou leitor da Folha desde 1974. Um outro leitor levantou, no dia 24/10, a questão da tendência dos colunistas da Folha nos comentários aos atentados terroristas de 11 de setembro, a resposta americana etc. Tendo a concordar com ele: a Folha se tornou um jornal dos jornalistas (de alguns deles), não um órgão de informação. Todos os colunistas políticos diários da Folha, que escrevem na pág. 2, e Janio de Freitas são pessoas de esquerda. Mesmo Gaspari é de esquerda, apesar de mais para o centro, social-democrata. Há apenas um comentarista diário neutro, e escreve no caderno Dinheiro, Nassif. Mas não chega a ser conservador. Há colunistas semanais conservadores, como Delfim Netto e Antônio Ermírio. O jornal pode ter uma linha editorial de esquerda, sem problema. Mas a questão é que aqueles que deveriam estar analisando as notícias diariamente são praticamente todos de esquerda. No tangente ao terrorismo e aos EUA, isso está claro. Outra coisa: todos, sem exceção, criticam continuamente o governo. Mesmo Clóvis Rossi, que tenta dar um ar mais eclético à sua coluna, só fala mal do governo. Janio de Freitas é um caso patológico, beira a histeria. Cony ainda tem seus momentos mais literários, mas no restante também só desanca o governo. Há algo errado com isso. Um jornal que se pretende um órgão de informação precisa ter um posição mais eclética dos seus comentaristas diários. Também deve reservar sua linha política editorial para o espaço editorial, e não estender isso ao texto de todos os colunistas (na verdade, os editoriais são mais de centro do que os comentários diários). O Brasil, neste momento importante, em que estamos prestes a escolher um novo presidente, precisa ser mais bem servido em termos jornalísticos. Não é possível ler todos os jornais, e tenho apreço pela Folha. Só que está cada vez mais difícil lê-la diariamente sem sentir um certo mal-estar. (Renato Pedrosa, Campinas, SP)

29/10 – O sr. Renato Pedrosa (?Está difícil?, ?Painel do Leitor? 28/10) critica a Folha por ter se transformado num ?jornal de jornalistas de esquerda?. Assim como o sr. Pedrosa, sou leitor da Folha há muitos anos, mas não concordo com ele. O jornal é um dos porta-vozes do pensamento (neo)liberal vigente. A adesão quase completa à essência das teses do Consenso de Wahington -abertura escancarada da economia, privatizações, ajuste fiscal- ficou demonstrada nos seus editoriais nos últimos dez anos. Raros foram os momentos em que se posicionou de maneira contrária. Pelo menos tem denunciado as consequências desastrosas do sistema. Não se diga o mesmo dos colunistas. O sr. Pedrosa confunde independência com esquerdismo. O tempo tem se encarregado de mostrar que as posições defendidas por eles (e, justiça seja feita, também pelo jornal) estavam corretas. (Antonio Constantini, Santa Rita do Sapucaí, MG)

Tendo em vista a carta do sr. Renato Pedrosa e considerando o espaço democrático da Folha, gostaria também de me manifestar. Sou leitor da Folha desde muito antes de 1974, e nunca o jornal esteve tão ético, transparente, objetivo, dinâmico e do lado da maioria da população brasileira. (Silas C. Leite, São Paulo, SP)

Faço minhas as palavras do sr. Renato Pedrosa. Também eu assinei, por 18 anos, o ?Estado de S. Paulo? e, por cansar-me das colocações narcisistas e das opiniões emitidas, mudei para a Folha. Mas vejo que o mal é o da falta de jornalismo. Não se investiga mais, divulga-se o contexto da notícia e se derramam opiniões sobre o fato. Será que é pedir muito? Só quero notícias com clareza, detalhadas, profundas e principalmente imparciais, para que eu mesmo tire conclusões. (Vladimir Perez, Santos, SP)"

    
    
                     
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