Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > PALAVRÕES NO AR

Ou tudo ou nada

Por Raphael Perret em 20/06/2001 na edição 126

PALAVRÕES NO AR

O artigo "Linguagem de gramado", de Rogério Barreto Brasiliense, publicado na última edição deste Observatório [ver remissão abaixo], levantou a questão sobre a qualidade dos comentaristas esportivos oriundos dos gramados, a propósito do despreparo do ex-jogador Neto, que proferiu sonoro palavrão na Rádio Bandeirantes AM, de São Paulo.

Palavrões, expressões chulas, de duplo sentido e afins fazem parte do vocabulário da maioria dos brasileiros. Quando empregados no momento apropriado, frutos de emoções intensas, e para o receptor certo, são absorvidos pelo ouvinte sem traumas e com naturalidade. Quando os palavrões são disparados com freqüência, sem critério, tornam-se banais. Demonstram vulgaridade. São grosseiros e mal-educados. Expõem o curto e fraco vocabulário do emissor.

Na grande imprensa, as notícias precisam passar credibilidade e seriedade. Senão, o veículo perde nesses dois quesitos. Os palavrões, a não ser que façam parte de citações, são evitados. Afinal, a gama de leitores/ouvintes/telespectadores é hiperdiversa e certamente o órgão de imprensa não quer chocar o receptor de suas informações. Colunas de jornal podem se constituir uma exceção: devido à periodicidade, o público-alvo é mais restrito, ou melhor, bem mais definido, o que cria maior intimidade entre leitor e colunista, que consegue usar os palavrões sem deixar rancores. Questão de sensatez.

Acontece que coerência também é sensatez.

A Rádio Cidade FM, do Rio de Janeiro, é especializada em rock ? embora sofra, não raro, alguns surtos de crise de identidade e mude de estilo da noite para o dia ? e, por isso, seus ouvintes são, na maioria, jovens de classe média. É compreensível, portanto, que os locutores tentem manter postura adequada ao modo de ser de seus ouvintes. O uso forçado de gírias, por exemplo, é freqüente (e irritante).

Das gírias ao palavrão é um pulo, e amiúde os ouvintes têm que aturar algumas expressões famosas que começam com "m" e "p", que rimam com "herda" e "zorra". O que é até razoável, tendo em vista que palavras mais grosseiras são empregadas pela maioria do público-alvo da emissora.

Um fato, porém, é esquisito. A Rádio Cidade tem um quadro de quiz em que o ouvinte que acerta todas as perguntas ganha prêmios. Quando o participante erra uma resposta, ele acaba proferindo um lamento em forma de palavrão. "Ora, se os locutores usam, por que eu não, que sou um cidadão comum e eles, teoricamente, preparados para exercer sua função de comunicador?", acredita inconscientemente o incauto. E não é que os radialistas repreendem o pobre rapaz que, nervoso, perde a chance de ganhar algum prêmio e por isso solta um compreensível palavrão, o mesmo que o locutor outro dia proferiu só para fazer gracinha?

Falta sintonia entre ouvinte e emissora. A Rádio Cidade precisa uniformizar suas atitudes. Ou libera o palavrão aos ouvintes, uma vez que os funcionários têm "direito" a exercer essa liberdade, ou repreende tanto participantes como locutores.

No caso da emissora, a primeira opção parece ser a mais adequada. Muitas das músicas veiculadas na Rádio Cidade têm palavrões e, obviamente, não há sentido em censurar trechos da letra, como se fazia nos anos 80, com os exemplos notórios de "Faroeste caboclo", da Legião Urbana, e "Bichos escrotos", dos Titãs. Se a música com palavrões e outras expressões chulas foi escolhida para ser veiculada na rádio é porque a emissora achou que os ouvintes iam gostar. Poderiam vetá-la por causa do palavrão. Como isso não é feito, então por que dois pesos e duas medidas quanto ao uso do palavrão no ar?

Não é questão de moralismo. Ou se usa ? o que acho mais adequado, no caso dessa rádio ? ou não se usa. E sejamos coerentes. Portanto, sensatos.

(*) Jornalista e analista de sistemas

    
    
                     

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