Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CADERNOS CULTURAIS

Outras dramaturgias

Por lgarcia em 19/02/2003 na edição 212

CADERNOS CULTURAIS

José Carlos Aragão (*)

Recentemente, andei publicando, aqui e ali (no Observatório da Imprensa e na Revista de Teatro, da SBAT), algumas opiniões acerca do ofício de escrever para o teatro. Como parte declaradamente interessada, andei defendendo a sobrevivência do dramaturgo, aquele sujeito que se senta à frente de um papel em branco ou de uma tela vazia de computador e escreve uma história que virá a ser representada por atores num palco.

Ao divulgar minhas idéias pela internet, recebi algumas respostas de amigos diretores que vêm alimentar o debate, particularmente sobre o papel do diretor nesse cenário (sem trocadilho). Da mesma forma, algumas notícias e entrevistas com gente de teatro publicadas em alguns jornais, acidentalmente, acabaram por botar mais lenha na fogueira.

Primeiro, leio no Estadão (7/2) matéria com o provocativo título "Cenógrafo cria a dramaturgia do espaço". Para quem não tomou conhecimento do meu artigo original, lá eu fazia críticas a uma certa proliferação de "dramaturgias" que, na verdade, só excluíam os verdadeiros dramaturgos. Na minha brevíssima carreira de dramaturgo eu já havia conhecido a dramaturgia do ator, a do diretor e até a do figurinista ? que ficava mudando falas dos personagens nos ensaios. Agora, vem a dramaturgia do cenógrafo ? ou "do espaço".

Estendendo esse princípio, digamos, de "dramaturgia", o teatro, em várias épocas, estilos, formatos e gêneros sempre contou, em maior ou menor escala, com outras formas bastante comuns de "dramaturgia" (desculpem-me a insistência pelas aspas, mas não vejo como ser diferente, no caso). Se uma determinada maquiagem precisou ser utilizada para que um ator representasse um determinado papel numa peça, teremos então um caso clássico de "dramaturgia da maquiagem". Se uma determinada sala de espetáculos foi construída com um urdimento três vezes maior que a altura da boca de cena, e isto acabou sendo fundamental para a troca de um cenário em Macbeth ? sem o que a encenação seria inviável ou a compreensão do público, impossível ? temos aí um caso típico de "dramaturgia do arquiteto", que foi quem projetou o teatro, ou a "dramaturgia do construtor", que foi quem executou a obra.

Costumo dizer, quanto a isso, que entre as habilidades que herdei ou desenvolvi com algum empenho e sacrifício está o desenho. Apesar disso, ao construir minha casa, preferi contratar um arquiteto, um especialista. Também no teatro, ainda não me meti a desenhar cenários (pode ser que ainda o faça, um dia, pois vontade até não me falta).

Ora, convenhamos: cenografia, iluminação, maquiagem, figurino, sonoplastia, música e todo o ferramental à disposição de uma encenação são importantes (e nem são indispensáveis!), mas não são dramaturgia.

Defendo ? insisto ? a tese do "cada qual no seu cada qual". Uma questão ? também ? de profissionalismo e de respeito. Sem qualquer pré-julgamento de ninguém, acho que este é um ponto básico para um trabalho inevitavelmente grupal, coletivo, como é o teatro, em que as especificidades de cada indivíduo ? ator, diretor, dramaturgo, figurinista, cenógrafo, iluminador etc. ? somam-se para um objetivo ou expressão artística comum.

O que eu vejo, entretanto, é muito diretor ? ou mesmo produtor, em especial, quando se trata de teatro de grupo ? que, em nome de uma pretensa "criação coletiva", acaba por chamar a si os holofotes, enquanto os nomes de autor ou elenco sequer aparecem nos cartazes, nos tijolinhos de jornal ou nos releases para a imprensa. Não é uma questão de vaidade, mas de direito.

Impressão de cada um

Dias depois da notícia do Estadão, leio em outro "Estado" ? o de Minas ? entrevista com o dramaturgo e escritor Alcione Araújo, que prepara um livro sobre a palavra. Como dramaturgo, ele mostra-se adepto do argumento de que "a imagem vem antes da palavra" ?, curiosamente, mesma justificativa usada por um amigo diretor e ator, que me escrevera dias antes dizendo que "o autor não entende nada de teatro: o que ele faz é literatura".

Gozado isso, porque nunca me perguntei, assistindo a uma peça de teatro, se uma determinada ação do personagem deveria vir antes ou depois de sua fala. Vejo tudo como um conjunto, em que ação e palavra se somam (ou não!) e traduzem um conceito, uma idéia nova, antiga, inusitada, comum, definitiva, dúbia, e que só eu (ou cada um) pode assimilar, esquecer, contestar, ignorar, perpetuar.

Estabelecer que exista uma ordem histórica e imutável de precedência entre ato e palavra, imagem e texto, é uma visão tão reducionista como comparar ? e lhes atribuir níveis de qualidade distintos ? obras escritas em máquina de escrever e em computador. É como querer que a humanidade volte a morar em cavernas porque, no princípio, não havia apartamentos ou moradias edificadas.


Um outro amigo diretor ? de quem democraticamente divirjo em muitas questões ? é quem veio resumir o que penso que seria um sólido armistício para essa eterna luta entre nós, autores, e eles, diretores, produtores, atores e outros "ditadores" do texto. Segundo ele, o diretor, como principal regente de todo o processo do fazer teatral, deveria ser o primeiro assumir a postura de "guardião dos princípios criativos, temáticos e ideológicos do texto".


Não tenho dúvidas de que, tentando agir assim, ainda restaria ao diretor e atores um vasto campo de criação, de interpretação, de construção do espetáculo e em que, ressalvada a fidelidade ao texto, o objeto final teria a impressão digital de cada um daqueles que contribuíram para a sua realização. É o que pretendo fazer, um dia, quando me sentir preparado para dirigir um espetáculo teatral, um filme ou um especial para TV. E que não seja um texto meu, para eu aplicar o que professo.

(*) Jornalista e dramaturgo, Belo Horizonte

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