Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > TAMBORES DE GUERRA

Pacifismo é prevenção

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

TAMBORES DE GUERRA

Alberto Dines

Os pacifistas sempre chegam depois dos belicistas. Isso aconteceu na Primeira Guerra Mundial quando a fina flor da intelectualidade européia, tanto do lado germânico como francês, desfraldou a bandeira do patriotismo e só no meio da sangueira deu-se conta do erro.

As obras clássicas do pacifismo literário foram publicadas já no final da guerra ou na década seguinte. Para citar algumas: o drama em versos Jeremias de Stefan Zweig foi publicado em 1917; a novela Nada de novo na Frente Ocidental de Erich Maria Remarque saiu em 1929; e o Caso do Sargento Grischa", de outro Zweig, Arnold, em 1927.

Notável exceção foi do satirista, lingüista e crítico de mídia vienense Karl Kraus, com o seu monumental drama Os Últimos Dias da Humanidade, que começou a escrever em 1915. Partes dele foram lidas em seus famosos recitais, mas a obra só foi publicada integralmente em 1918-19, véspera do armistício, no jornal que Kraus produzia sozinho, A Tocha.

No lado francês o campeão foi o humanista Romain Rolland, que antes mesmo do conflito já se batia em favor da integridade da Europa ? da qual o romance Jean Christophe foi a obra mais representativa. Não falava na guerra que sentia iminente mas tentava preservar aquilo que a guerra destruiria (1912).

Durante o conflito, a atuação literária de Rolland foi intensa, mas através de candentes artigos publicados na Suíça reunidos num best seller de combate, Au Dessus de la Melée (Acima da confusão), lançado em 1915, que chegou a 100 edições. História de Uma Consciência (ou Clerambault, Um contra Todos) saiu em 1917 e reunia numa obra de ficção o ideário pacifista, humanista e individualista (naquele momento, a proposta antiguerreira era essencialmente contra o espírito de manada).

A Grande Ilusão, do jornalista Norman Angell, representa a contribuição anglo-americana. Publicado quatro anos antes de iniciado o primeiro conflito mundial (1910), teve grande impacto em toda a Europa e Américas. Brilhante arrazoado contra a lógica da guerra, não chegou a ser o livro de orações das massas mas foi certamente o livro de cabeceira das elites naquela e nas conflagrações seguintes.

Sem a pretensão de constituir um levantamento completo do pacifismo literário e intelectual iniciado no século 20, estas notas visam lembrar que o poder fenomenal da propaganda guerreira dificilmente pode ser batido. Mas pode ser antecipado.

Essa é a questão. Pouco adiantará enfrentar os tambores de guerra com os tambores da paz. O trabalho intelectual deve estar voltado para a criação de uma consciência contra a violência. Evitar as brechas produzidas pelas conjunções "mas" e "porém" por onde escorrem a argumentação cretina a favor das guerras "justas" e outras incongruências do infantilismo ideológico.

Se o intelectual toma partido a favor de um dos adversários desqualifica-se automaticamente como pacifista. Esta é uma coerência complicada, penosa e que fatalmente esbarra nas simplificações partidárias.

O pacifismo é antes de tudo uma opção preventiva com algo de visionária. Quando a candidatura Bush Jr. começou a mostrar a força do pensamento conservador, a esquerda americana deveria ter atalhado imediatamente a candidatura de Ralph Nader.

Não apenas na América do Norte mas também na América do Sul e Europa as esquerdas não conseguiram se lembrar dos momentos que antecederam a vitória de Hitler, em 1933, quando, para os comunistas alemães, o adversário era o "fascismo social" dos social-democratas e não o nacional-socialismo.

As esquerdas foram decisivas para colocar na Casa Branca o seu atual ocupante porque não conseguiram distinguir os adversários. Para elas, o democrata Al Gore era exatamente igual ao republicano George W. Bush. E mesmo quando começou a farsa da recontagem dos votos na Flórida ? e a Corte Suprema, em decisão inédita fez um julgamento político em favor de Bush ? não conseguiram sair à rua para indignar-se.

Quando intelectuais abdicam de discernir e acham que tudo é a mesma coisa, abrem mão da sua condição de homens de pensamento. Nestas condições, a vitória será sempre dos brutamontes.

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