Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > O CRIME NA IMPRENSA

Palavras fora de lugar

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

O CRIME NA IMPRENSA

Luiz Weis (*)

O seqüestro e morte do prefeito Celso Daniel levou a imprensa ? e quase todos que a ela têm acesso ? a repetir que a união dos governantes, dos políticos e das forças sociais se havia tornado mais necessária do que nunca para levar adiante a luta pela paz, contra a violência.

Nem a imprensa, muito menos o público parecem notar que paz e violência, nesse contexto, são palavras deslocadas. Essa confusão semântica revela um embaralhamento de problemas que pode atrapalhar a percepção do combate que interessa de verdade ? pela segurança, contra o crime.

É escandalosamente óbvio que assaltos, seqüestros e homicídios são atos de violência. Assim como o estupro, as agressões domésticas contra a mulher, os conflitos brutais e estúpidos nos estádios de futebol. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

As grandes cidades brasileiras, como todos sabem, estão mais perto da barbárie do que da urbanidade ? o duplo sentido é intencional. A prepotência e a cafajestice que permeiam as relações cotidianas, em uma multiplicidade de circunstâncias, a começar do trânsito e passando por cima dos mais elementares direitos das pessoas, não precisam ser demonstradas.

Essa é a violência urbana, no sentido mais apropriado do termo. Em qualquer de suas manifestações, ela se define por uma característica essencial: os que a praticam não o fazem por serem criminosos profissionais. Eles não vivem das violências que cometem. De caso pensado ou de improviso, o comportamento anti-social, sempre execrável e quase sempre impune, é um crime praticado por homens comuns. Estes se tornam criminosos quando cometem ações violentas. Outros cometem ações violentas porque são criminosos.

Os primeiros agravam o ambiente socialmente primitivo que já lhes serve de estímulo. Esse ambiente é produto, entre outras coisas, da tradição autoritária nacional, da cultura de apartheid social que divide os brasileiros entre "vocês" e "doutores", da falta de contrapesos morais e institucionais para o capitalismo selvagem que nunca deixou de prosperar no Brasil.

Por si só, a mobilização coletiva contra a banalidade desse mal decerto será insuficiente para reduzir a sua incidência a níveis civilizados ? o duplo sentido é de novo intencional. Mas ela é imprescindível para criar um clima de convicções e atitudes que inibam e reprimam a extravasão da brutalidade no dia-a-dia.

Entrevista polêmica

O segurança Erison da Silva Santos, de 32 anos, que matou com um tiro na cabeça um jovem de 16 anos dentro de um ônibus, no Rio de Janeiro, na quarta-feira (23/1), porque ficou irritado com o rap que o moço e mais quatro amigos cantavam, é um exemplo de violência urbana a que a sociedade não pode ficar indiferente.

Isso requer: promover campanhas para proibir o comércio de armas de fogo, enfrentando o nefasto e violento lobby da indústria internacional do setor; multiplicar o número de veículos e itens de vestuário exibindo a inscrição "sou da paz"; organizar atos de repúdio às condutas delinqüentes; colocar a escola nesse circuito ? em suma, usar os meios conhecidos e criar outros para deter a degradação do convívio humano nas socialmente irrespiráveis megalópoles brasileiras.

A imprensa ainda não se deu conta da importância de discutir a crença de que existe necessariamente uma linha de continuidade entre a violência dos que se conduzem como criminosos e a daqueles que criminosos são ? embora estes, por isso mesmo, sejam mais propensos a praticar atos de violência gratuita, isto é, que não lhes trará ganho material.

Outra falsa verdade, que a mídia bem poderia pôr em xeque, é acreditar que a população tem a obrigação de participar da "guerra à bandidagem".

Cem mil pessoas na Candelária e no Vale do Anhangabau exigindo "Cadeia, já" para os assaltantes, seqüestradores, traficantes de armas e de drogas e assassinos profissionais pode dar a cada uma delas a merecida sensação de recobrar aquela ampla porção da cidadania tornada refém do crime.

Cem mil pessoas clamando pela diminuição urgente dos hediondos índices nacionais de miséria e desigualdade social ? fermento da criminalidade, pela desagregação familiar que provoca, expondo a infância sem pai à tentação do tráfico onipresente ?, pode dar a cada um o sentimento também merecido de estar contribuindo para a mais justa e humanitária causa concebível no Brasil de hoje.

Mas as vítimas do banditismo não precisam sair às ruas, vestidas de branco-luto, para que a autoridade enfim descubra o tamanho da fúria da sociedade com a impotência do Estado perante o crime. Da direita à esquerda, não há político nem burocrata que não tenha sido exposto, até no âmbito familiar, às repercussões da ira dos brasileiros com a desmoralização dos carcomidos aparatos de segurança pública.

É bom lembrar, a propósito, que a polêmica entrevista do candidato do PT ao governo de São Paulo, deputado José Genoíno, à Folha de S.Paulo, foi dada antes, não depois, da tragédia de seu companheiro Celso Daniel. Ciente, com certeza, de todas as conotações malufistas que a expressão provoca, Genoíno defendeu a "Rota na rua".

Obrigação da imprensa

Crime é caso de polícia ? agora, sem duplo sentido ? e não de mobilização popular pela "paz", contra a "violência", o que mistura estações e põe no mesmo balaio o assassino numa briga de trânsito e o seqüestrador e o traficante, que se dedicam à suas abjetas atividades, com as mesmas avaliações racionais de custo/benefício de qualquer empresário.

Bem-intencionada, mas equivocada, a mídia participa desse contraproducente chamamento à sociedade. Até o dia em que este texto foi redigido, o Jornal da Tarde, de São Paulo, tinha sido o único periódico a se referir ao problema dessas palavras fora de lugar, numa passagem do editorial de terça-feira (22/1) sobre a execução do prefeito de Santo André.

"Começa a se desviar da verdade e das boas soluções quem fala de ?violência? ? que não inclui necessariamente a noção de intenção (…) ? e não de ?crime?, que não só inclui essa noção como a ressalta como a essência diferenciadora de certo tipo de ação violenta", ponderou o jornal. "Foi um crime, e não uma violência, que se praticou contra Celso Daniel."

Duas coisas básicas o público tem o direito de esperar da imprensa, nesse contexto. Uma é que ela cerque por todos os lados a pergunta que não pode calar sobre as mortes de Daniel e do prefeito Antonio da Costa Santos, de Campinas, em setembro (uma tragédia esquecida, até a semana em que seu colega de Santo André foi assassinado): será que eles morreram por pertencer ao PT, ou por criarem, como prefeitos, problemas para os bandidos, ou ainda por razões de natureza diversa?

A outra obrigação da imprensa é ? já não sem tempo ? ir até a medula dos motivos pelos quais a polícia, sobretudo em São Paulo, não segura o crime, mostrando o que pode ser feito, realisticamente, para mudar essa situação de pesadelo. Matéria-prima ? fatos, dados, estudos, análises, projetos ? é que não falta.

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