Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > **

Para a mídia, vitória não valeu

Por lgarcia em 05/06/2002 na edição 175

COPA DE VACAS MAGRAS

Marinilda Carvalho (*)

Não tem meio termo: ou é jornalismo-exaltação ou jornalismo-espinafração. Após o sucesso do Brasil na estréia, a tônica da cobertura brasileira foi o erro do juiz coreano, que inventou um pênalti em Luizão. Nossa mídia é a única do mundo que rejeita resultados positivos se o time joga mal ou se há falha de juiz. Se o Brasil não jogar como em 58, 62 ou 70, a vitória não vale. A imprensa argentina, por exemplo, celebrou o bicampeonato conquistado com gol de mão de Maradona sem qualquer pudor ? o que não impediu que o diário Olé, na tarde de segunda-feira, ironizasse nossa vitória e criticasse nossa falta de "potência ofensiva" ? como se a Argentina tivesse feito muitos gols contra a Nigéria! A imprensa britânica nem percebeu que sua seleção empatou com a da Suécia porque o árbitro brasileiro na Copa, Carlos Eugênio Simon, deixou de marcar um pênalti claro a favor dos suecos.

Aqui, não: dos canais a cabo aos abertos mais chinfrins, os "técnicos do dia seguinte" minimizaram a vitória da Seleção Brasileira. Ora essa, antes do jogo os erros de Felipão e a má qualidade dos jogadores não deixariam sequer o Brasil vencer a Turquia! O Brasil venceu, mas…

Os jornais online foram atrás: "De virada e com gol roubado", disse um colunista do Correio Braziliense; "Árbitro ajuda e Brasil derrota Turquia de virada", titulou o JB Online; "Árbitro tira o brilho da vitória", era a frase na chamada da edição extra do Estadão. Na outra ponta, o Globo Online na Copa, de olho na porção negócio do Mundial, nem menciona o juiz na chamada: "Scolari dá nota 7 à Seleção", embora o jornalão de papel, na terça, mencione o erro no subtítulo.

Salvou a tarde de segunda a Folha Online, que, fazendo uma coisinha esquecida chamada apuração, descobriu que o Brasil não foi tão mal:


"A seleção brasileira teve a melhor eficiência nas finalizações (…). O ataque foi melhor até que a Alemanha. (…) O Brasil fez apenas duas finalizações certas, mas acertou 12 dos 19 chutes a gol ? aproveitamento de 63,15%. Já os europeus tiveram eficiência de 53,8% ? 14 finalizações certas em 26. Argentina e França acertaram nove chutes (…). Os sul-americanos tiveram um índice de 45% para bater a Nigéria por 1 a 0, e os atuais campeões mundiais, 60%, para cair diante de Senegal pelo mesmo placar."


Fora isso, o Brasil inteiro acordou cedo e foi pra rua torcer pela Seleção!

A frase é do Galvão Bueno, claro, chamando os repórteres ? uns oito ? que na madrugada de segunda-feira estavam em lugares marcados pela Globo para ver a torcida festejar. Fora desses lugares, quem foi à janela ouviu o silêncio. Segundo o Ibope, o torcedor acordou, sim, só que ficou em casa, de pijama, assistindo ao jogo pela TV. Segundo a Folha Online, "a estréia da seleção teve a maior audiência da história da televisão nacional em Copas do Mundo": o Ibope registrou 64 pontos de média e 89% de share (percentual de televisores ligados entre 6h e 8h no mesmo evento). Pelo jeito, poucos viram o jogo pelo Sportv, o canal pago das Organizações Globo, narrado pelo comedido Luís Carlos Júnior, com comentários do ótimo Júnior. O jogo só não superou mesmo os índices das novelas.

As Organizações Globo devem ter esfregado as mãos.
Afinal, a vitória do Brasil, com ajuda ou não do juiz,
garante novos e futuros recordes de audiência. Audiência
que redime os altos investimentos. O Globo até soltou
edição extra, que foi para as bancas quatro horas
após o fim do jogo. É a porção negócio
do futebol, que não pode jamais ser esquecida. A França
que o diga: o diário Libération deu com destaque
matéria da Reuters sobre a queda na Bolsa de Paris, logo
após o fracasso diante do Senegal, das ações
da TF1, a emissora francesa que detém os direitos de transmissão
das partidas. Isso é que é ângulo inédito
em cobertura de Copa!

Negócios à parte, até agora a Globo vem fazendo mais jornalismo, sem comparação com as demais emissoras. Tem mais gente, mais informação sobre as seleções e o Brasil. Apesar da chatura de Fátima Bernardes e Ana Paula Padrão, sempre enchendo lingüiça e repetindo clichês do futebol. Mas cometeu falha grave: na manhã em que Emerson se contundiu, o Globo Esporte abriu com matéria sobre um rally. Rally? Sim, e depois pulou para o Mundial de Motociclismo. Motociclismo? Foi a maior demonstração já vista de falta de termômetro sobre as expectativas do público. Acabou que a ESPN Brasil deu primeiro a convocação de Ricardinho. Se aí faltou, no dia 29 sobrou: foi um martírio assistir mais de 20 vezes à matéria sobre as cobranças de pênalti perdidas num treino pelos brasileiros.

No capítulo encheção de lingüiça, a emissora apresentou matéria soporífera no Jornal Nacional sobre o uso medicinal de ervas e raízes na Coréia. Nada a ver. No capítulo das apelações mórbidas, a Globo e todos os canais exibiram reportagens sobre o consumo de carne de cachorro na Coréia, com imagens detalhadas dos pratos. Efeitos colaterais da Copa na Ásia.

Pênaltis roubados

** Insuportável o boneco virtual lutador de sumô no Boletim da Copa, da Globo.

** Insuportável o Faustão no sorteio Gol da Copa, da Globo.

** No Globo, o Senegal virou Senegal. O presidente de Senegal, a seleção de Senegal. Onde foi parar o bom e velho artigo o do Senegal?

** O campeão de encheção de lingüiça na TV é o enviado especial da ESPN Brasil ao Japão: a maioria das matérias tratou do nada.

** Mea culpa: o JB enviou, sim, pequena equipe à Coréia, ao contrário do que foi publicado aqui em artigo anterior [remissão abaixo]. Informação errada dada ao OI pela própria redação!

** As edições da Copa dos jornais online estão pesadas demais, com muito gráfico, o que prejudica a navegação nesta época de muitos acessos. Os piores são o Globo Online e o JB Online.

** Na matéria sobre o recorde de audiência do jogo do Brasil, a Folha Online não cita o nome da Globo… Por que será?

** Trocando de bola: Guga deveria processar a ESPN Internacional ? que poderia assumir logo que é na verdade a ESPN Argentina. Detentora dos direitos de transmissão dos Abertos de tênis, a emissora fez questão de não apresentar ao vivo nem um joguinho sequer do tenista brasileiro.

Gols legais

** A análise de Armando Nogueira, Rivelino e Leivinha no Sportv, às 20h, com uma espécie de mesa de jogo de botão virtual usada para mostrar as táticas das seleções.

** A ESPN Brasil mandou o repórter que está cobrindo o Aberto de Roland Garros ao Chateau de Lesigny, onde a seleção ficou hospedada em 1998. Entrevistou funcionários, mostrou o quarto onde se deu o drama de Ronaldinho e contou que, com a derrota brasileira, o então dono do hotel teve enorme prejuízo, e foi obrigado a vender o negócio.

** A entrevista de Juca Kfouri ao Pasquim21.

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