Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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Para agir na formação e na prática jornalística

Por lgarcia em 03/04/2002 na edição 166

FÓRUM DOS CURSOS DE JORNALISMO

Documento Final do Fórum dos Cursos de Jornalismo, São Paulo, 31/3/2002

Reunidos no Fórum dos Cursos de Jornalismo, realizado na Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero, em São Paulo, dias 29, 30 e 31 de março de 2002, jornalistas, estudantes e professores de jornalismo analisaram e debateram as principais questões que envolvem a formação acadêmica e o exercício profissional do jornalismo no Brasil, organizadas nos seguintes grupos de trabalho: 1. Capital estrangeiro e oligopolização da mídia; 2. Valores e princípios da prática jornalística; 3. Democratização das comunicações; 4. Formação do jornalista e regulamentação da profissão; 5. Sistemas de avaliação dos cursos de jornalismo.

O debate aprofundado dessas questões ? após a palestra do professor Octávio Ianni, sobre "Globalização e Mídia" ? proporcionou aos participantes a identificação mais precisa dos inúmeros problemas que impedem o desenvolvimento do jornalismo como instrumento do conjunto do povo brasileiro para a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática, justa e que promova a igualdade e o bem-estar de todos. Nesse sentido, queremos afirmar o seguinte:

** A entrada do capital estrangeiro na propriedade dos meios de comunicação de massa representa uma grande ameaça à nossa cultura, às raízes culturais da Nação e à nossa identidade, além de favorecer uma concentração ainda maior dos veículos e dos conteúdos nas mãos de alguns poucos grupos políticos e econômicos.

** A oligopolização da imprensa torna a concorrência desleal de tal forma a absorver as empresas locais, com a constante eliminação de postos de trabalho e a geração de desemprego estrutural.

** A concentração da mídia representa uma ameaça direta à incipiente democracia brasileira e à limitada liberdade de expressão, na medida em que tende a eliminar ainda mais os espaços de manifestação de importantes segmentos da sociedade brasileira.

** O exercício pleno do jornalismo só pode se dar numa sociedade que assegure o direito de todos à informação, consignado na Declaração Universal dos Direitos do Homem.

** A padronização e a pasteurização impostas pela comunicação de massas elimina as diferenças culturais e regionais, empobrece a riqueza da diversidade e violenta o pensamento e a criatividade divergentes.

** É preciso resgatar os valores e princípios que sempre foram a razão de ser do jornalista. É preciso reapropriar-se da nossa profissão, e sobretudo resgatar o aspecto humanista daquilo que fazemos, seu caráter ético e questionador, sua responsabilidade social, sua indignação, seus laços com a verdade e a cidadania, a preocupação com os direitos humanos, com as minorias e os marginalizados, sua criatividade e autenticidade.

** É preciso combater as censuras políticas e econômicas que atuam de forma disfarçada nos meios de comunicação e a autocensura, estimulada desde os cursos de jornalismo e largamente praticada dentro das empresas jornalísticas.

** É preciso fortalecer todos os espaços e meios alternativos de comunicação, especialmente os veículos comunitários e que expressam os movimentos sociais excluídos e marginalizados pelos grupos de comunicação, mas, ao mesmo tempo, é preciso lutar para a construção de um sistema de comunicação que expresse realmente os interesses de todos os segmentos e classes sociais.

** A democratização da mídia passa necessariamente pelo acesso de todos ao ensino público e gratuito, pelo aumento da escolaridade e por uma formação superior comprometida com as populações marginalizadas, com o desenvolvimento social e com a formação do senso crítico em todas as áreas do conhecimento, e especialmente no jornalismo.

** A exigência de diploma para o exercício do jornalismo não apenas legitima a categoria no reconhecimento social e legal, confere dignidade para a profissão, mas sobretudo assegura maior controle social da prática jornalística e reduz o campo de manobra dos interesses econômicos na área.

** O exercício da profissão não é redutível a um adestramento técnico oferecido pelas empresas jornalísticas, pois só o ambiente universitário proporciona a possibilidade de reflexão e uma formação sólida que articula teoria e prática. E o papel da universidade não se reduz à capacitação profissional: estende-se a formar cidadãos críticos, agentes de transformação social, não podendo, portanto, ficar à mercê da lógica do mercado.

** A avaliação dos cursos de jornalismo deve ser permanente e necessária e não se esgota nos instrumentos oficiais; deve ser discutida pelos segmentos de cada curso, de forma a não se tornar um mero atendimento de exigências administrativas, mas que assegurem a variedade de percepções que a formação graduada em jornalismo possa ter.

** Os participantes do Fórum dos Cursos de Jornalismo sugerem a criação de uma comissão que estude a viabilidade de uma avaliação articulada entre escolas de jornalismo.

Esses pontos ? um resumo das discussões realizadas no Fórum ? sintetizam as nossas preocupações com o quadro atual do jornalismo brasileiro, mas também o estabelecimento de referências importantes para uma atuação coletiva concreta tanto na formação como na prática jornalística. A consolidação dessas referências já está em marcha; o primeiro passo foi dado, agora compete a todos nós assumirmos o compromisso de que a luta não termina aqui ? ela está apenas começando.

Fórum dos Cursos de Jornalismo

São Paulo, 31 de março de 2002

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