Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > ESTÁCIO DE SÁ

Para compreender o trombone da ética

Por Felipe Pena em 20/06/2001 na edição 126

ESTÁCIO DE SÁ

O jornalista Alberto Dines é um ícone para várias gerações de profissionais da imprensa. Uma verdadeira unanimidade. Um indivíduo acima de qualquer suspeita. Autor de vários livros sobre jornalismo e protagonista de momentos cruciais da história da imprensa no Brasil. Talvez por isso tenha toda a autoridade para se intitular o observador oficial da mídia brasileira.

Do alto desta imaculada posição, Alberto Dines publicou na última edição do seu Observatório da Imprensa o artigo intitulado "Peter Arnett, quem diria, acabou na Estácio de Sá" [veja remissão abaixo]. Neste artigo, Dines afirma que o jornalista neozelandês, famoso pela cobertura da Guerra do Golfo, foi afastado da Rede CNN porque suas últimas matérias não foram suficientemente investigadas e que a Universidade Estácio de Sá pagou "uma boa grana" para que ele fosse seu garoto propaganda. É perfeitamente compreensível que o magnânimo Dines critique o colega Arnett pela falta de investigação, apesar de ele próprio não ter se preocupado em investigar quanto a Estácio pagou por sua visita. Se o fizesse, descobriria que Arnett veio ao Rio sem cobrar nenhum tostão, apenas as despesas com passagem e estadia. Mas, repito, tudo isso é compreensível. Afinal, quem vai exigir que o ícone Alberto Dines se preocupe com o rigor da apuração jornalística. Ele é nosso decano, nosso observador oficial, nosso defensor da ética. Pode escrever o que quiser, da maneira que quiser. Sua palavra nos basta, é a expressão da verdade absoluta. Quem somos nós para contestá-la? É compreensível.

Também é compreensível que Dines chame Arnett e os dirigentes da Estácio de mentirosos ao comentar a afirmação de nosso visitante de que em nenhuma escola americana viu instalações tão boas quanto às da Faculdade de Comunicação da Estácio. Mesmo que o próprio Dines jamais tenha visitado as novas instalações da Faculdade de Comunicação. Se o fizesse, descobriria que a nossa redação é composta por computadores macintosh, nossos estúdios são equipados com câmeras beta e digitais, e nossas ilhas de edição abrangem os sistemas SVHS, beta linear, beta não linear AVID e digital. Mas tudo isso é compreensível, pois o próprio Dines conhece bem as escolas americanas e, obviamente, considera impossível para uma escola brasileira ultrapassar esse nível de excelência, mesmo sem ter nos visitado. E é claro que o jornalista Peter Arnett só deu essa declaração em troca do milionário pagamento de sua passagem e estadia. Como diz Alberto Dines, "brasileiro é deslumbrado por celebridades".

Nós também podemos compreender que o trombone do observador Dines esteja voltado contra as universidades particulares e os vendilhões do templo que nelas lecionam. Mesmo que o cristianizado Dines, em sua particular guerra santa, desconheça os profissionais que aqui trabalham e os projetos que eles desenvolvem. Se o fizesse, descobriria que nossos alunos produzem o único telejornal universitário diário e ao vivo do país, veiculado às 19h no canal 14 de Net-Rio, onde podem atuar em todos os setores de sua execução, desde a pauta até a produção. Também verificaria que nossos alunos atuam em cinco jornais-laboratório veiculados na grande imprensa, em uma revista on line , em quatro rádios internas, em cinco programas de TV veiculados no canal 16 da Net-Rio e em projetos de iniciação científica e pesquisa acadêmica. Esses projetos foram premiados durante o XXIII Intercom, Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, que, no ano passado, considerou cinco de nossos veículos universitários como os melhores do país, em uma exposição onde participaram as principais faculdades de comunicação do Brasil. Mas tudo isso é compreensível, pois não podemos exigir que o ocupado Dines tenha tempo para apurar que esses projetos são comandados por professores com sólida formação acadêmica e profissional. Nem que conheça o resultado da última avaliação de condições de oferta do MEC, que colocou a Faculdade de Comunicação da Estácio de Sá entre as três melhores do Rio, junto com a UERJ e a PUC.

Tudo é compreensível, meu caro Dines. Até que você humilhe publicamente os professores que passaram 4 meses se empenhando para que o jornalista Peter Arnett viesse, gratuitamente, falar para nossos alunos. O prof. Dr. Erick Felinto, coordenador de pesquisa em comunicação, e a professora Márcia Carnevalle, coordenadora de eventos em comunicação, compreendem perfeitamente os seus motivos. Assim como toda a nossa equipe, que assumiu a direção desta Faculdade de Comunicação há dois anos e, de lá para cá, vem se esforçando para formar profissionais como o Senhor (a letra maiúscula é a maneira de manifestarmos nossa reverência).

Nós o compreendemos, magnânimo Dines. E compreendemos também que o igualmente ético coordenador de jornalismo da Universidade Gama Filho, Prof. Antônio José Chaves, tenha utilizado a sua carta para distribuir propaganda negativa contra a Estácio. Assim como nós, ele se rende à sua ilibada força moral. Nós compreendemos a sua batalha ética, sacra e psicopedagógica. E mesmo que você não conheça esta equipe de professores anfitriões, a quem atribui epítetos tão agradáveis, saiba que continuamos seus mais ardorosos admiradores. Como no poema de T.S.Elliot, "nós somos os homens ocos, os homens empalhados, uns nos outros amparados; um elmo cheio de nada". Esperamos preencher este elmo com os seus conhecimentos e sua ética. E torcemos para que o senhor não seja injustiçado por calúnias e difamações quando tocar o seu trombone moral, assim como aconteceu com seu colega político da Bahia.

Nós o compreendemos, Alberto Dines. Aliás, esse país compreende todo mundo. Talvez porque fique mesmo deslumbrado por celebridades.

(*) Diretor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá

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