Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > LEITURAS DE VEJA

Para não abrir as portas abertas

Por lgarcia em 12/06/2002 na edição 176

LEITURAS DE VEJA

Evaldo Amaro Vieira (*)

A revista Veja (edição 1753, de 29/5/02), trouxe na capa a manchete "Globalização ? há o que comemorar?" e, no miolo, dois artigos intitulados "A vitória dos ricos na globalização" e "A luta para entrar na festa".

Chama a atenção, de modo especial, a superficialidade e as lacunas existentes nos artigos. Repisam idéias comuns e antigas, com fervor quase teológico.

Enquanto em muitas escolas e universidades brasileiras alunos e professores debatem a globalização, buscando refletir, com cuidado, sobre esse tema complexo, para bem formar consciências livres e informadas, Veja ofereceu aos leitores, nos textos mencionados, um conjunto de proposições por vezes insustentáveis, do ponto de vista lógico e histórico.

O direito de informação e a liberdade de pensamento impõem algo mais do que só achar, mesmo porque todo mundo acha. Tais direitos impõem a capacidade crítica e o respeito ao próximo, particularmente à sua inteligência e ao seu conhecimento. A realidade não é tão simples como aparece; é muito mais complexa do que querem as idéias comuns e envelhecidas. Do mesmo modo, clareza na comunicação e na informação não pressupõe generalizações e repetições sem limite.

Veja tem trajetória importante na história da sociedade brasileira, o que é sabido. Porém é preciso tornar mais complexo um assunto como globalização, dentre outros, a fim de que não sejam desrespeitados os bons livros e ensaios do ramo. Para não ir longe, notem-se alguns trechos do artigo "A vitória dos ricos na globalização", título um tanto tardio, pois há muito tempo se anunciou a vitória dos ricos.

Dizer, por exemplo, que a data convencionada "para o início, ainda que simbólico, da globalização turbinada dos mercados" ("seu ponto de partida") seria 25 de dezembro de 1991, "dia em que a bandeira vermelha com a foice e o martelo foi substituída no Kremlin, em Moscou, pelo estandarte tricolor da Rússia imperial", constitui uma afirmação insustentável mesmo simbolicamente. Na realidade, para não avançar muito, pode-se dizer que já na década de 1970 a transformação tecnológica e dos recursos humanos na produção ocorria de forma significativa, em razão sobretudo da intensificação da concorrência econômica internacional entre as principais potências e da enorme queda no crescimento industrial, muito distinto do que vinha acontecendo depois da Segunda Guerra Mundial. Se há economista ganhador do Prêmio Nobel falando à revista, torna-se fundamental lembrar os escritos de Peter Drucker (também Prêmio Nobel e autor de obras famosas) e Eric Hobsbawm sobre a temática, aliás de orientações diferentes.

A globalização não teve, em seus inícios, dimensão preponderantemente política (como quer o aludido artigo), mas econômica e tecnológica. E o fim da União Soviética não deve ser analisado somente de fora, mas antes de tudo de dentro dela.

"Força inédita"

Em outro trecho, observa o artigo: "Na realidade, os governos não abandonaram inteiramente seu papel de agentes econômicos e o liberalismo foi implantado no planeta apenas até certo ponto ? o ponto que atende prioritariamente ao interesse dos países ricos. Nunca ficou tão evidente que os países desenvolvidos falam duas línguas em matéria de liberalização econômica".

As questões aqui são: quando algum país capitalista considerável abandonou inteiramente seu papel de agente econômico, no chamado Estado Moderno, desde os fins do século 16?. E quando o liberalismo foi implantado no planeta não atendeu prioritariamente os países ricos ou potencialmente ricos? E, ainda, língua única não existe nem em Teologia, pois até nela existem interpretações diversas e nem sempre inocentes. Por que não haveria neste caso duas línguas (ou mais) em matéria de liberalismo econômico?

Em outro ponto, afirma o artigo: "É interessante observar como os países interagiram com essa força inédita na história da humanidade". O que não é força inédita para nós, que vivemos. Será que Tucídides achava que o que via e examinava na Grécia não era inédito, era conhecido?

Garantias individuais

Em outra matéria da mesma edição, sob o título "A luta para entrar na festa", encontra-se asserção de igual tipo das já referidas, embora seja possível concordar com o fato de que na grande maioria das ocasiões realizou-se verdadeiramente uma festa.

Note-se o seguinte: "Dez anos depois, a experiência globalizada sinaliza aos países que não existe uma receita simples de sucesso na nova ordem. Graças à aceitação das regras da economia de mercado, ao menos na parte moderna de sua produção, a China cresceu 199% no decorrer da última década. A Argentina seguiu a mesma receita e encontrou o caos no fim da linha". E, um pouco adiante, está dito: "A verdade é que a Argentina se esqueceu de um detalhe. Não fez talvez a reforma mais decisiva de todas. O país tem províncias deficitárias que agem como Estados soberanos boicotando todas as tentativas do governo central de fazer uma política econômica coerente".

Aqui falta saber se &eeacute; possível a comparação tão geral, entre China e Argentina. Uma, a China comunista, com o massacre da Praça da Paz Celestial, mas obediente à dita receita; e outra, a Argentina, também obediente a esta receita e conservando o que ainda remanesce das garantias individuais, para dizer o mínimo, uma das criações do liberalismo. O que é mais valioso: o mercado ou as garantias individuais ? Se ambos são valiosos para as populações, por que enaltecer a China comunista, com sua esquisita "aceitação das regras da economia de mercado, ao menos na parte moderna de sua produção"?

Veja continuará a prestar bons serviços a todos os leitores. No entanto, sempre digo aos alunos e aos orientandos: cuidado para não abrir porta aberta. Não se chegou a isto.

(*) Professor titular na USP e na Unicamp, atualmente na PUC-SP

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