Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Para não fazer jornal do mesmo jeito

Por lgarcia em 20/05/2003 na edição 225

JORNALISTA & LEITOR

Aylton Segura (*)

Uma pequena crônica do festival de besteira que assolou o país quando Stanislaw Ponte Preta era vivo [pseudônimo usado pelo jornalista Sérgio Porto (1923-1968)] mostra uma possibilidade do relacionamento jornalista, leitor e sociedade. Conta-nos o cronista que, numa cidade interiorana, o jornalista ? e ali era um só mesmo que fazia todo o jornal ? havia estampado de manchete que metade da Câmara de Vereadores era formada de ladrões e de corruptos. No mesmo dia houve a romaria à redação para desmentir a matéria, com as presenças do juiz de direito e até do padre.

Na edição seguinte o problema seria resolvido, havia prometido o convicto jornalista. E resolveu, da melhor maneira possível. Mancheteou que metade da Câmara de Vereadores da cidade era formada por pessoas íntegras e honestas ? resolvendo, assim, o problema do subconsciente social e dando uma lição de mestre para nós que lidamos com os leitores. O jornal continuou prestigiado, esgotou a edição, aumentou o número de assinantes e, muito mais do que antes, passou a ser referência para seus leitores, que se sentiram atendidos.

A historinha define os jogos de interesses e propósitos que se revelam no exercício de feitura de um jornal. Mais do que isso, reforça a idéia que o jornalista tem de ter postura crítica definida e compromissos para conquistar credibilidade junto ao leitor. É isso que o faz ser jornalista e não o fato de apenas dominar a linguagem escrita e a competência para fazer um texto não-ficcional que responda às seis perguntas básicas (quem?, o quê?, quando?, onde?, como?, por quê?). O jornalista é um especialista que, no processo de divisão do trabalho, tem a incumbência de traduzir a sociedade com olhos postos na realidade; e, ao fazer isso, construir a própria realidade.

A busca da empatia está vinculada ao ato do comunicador de conhecer o seu receptor. O jornalista tem que ler o leitor. Se ele posicionar-se como o personagem da banca de revistas citado por Ricardo Noblat no primeiro capítulo de seu A arte de fazer um jornal diário [veja remissão abaixo], com certeza vai reforçar a idéia do complô de jornalistas e donos de jornais para acabar com os jornais. Aceitar esta idéia é admitir a incompetência endêmica de repórteres, veículos e dos centros de formação. Reconhecer o fato é caminhar para a solução do problema.

Atividade complementar

O problema não é desconhecer e desconsiderar o leitor. É pior: há aqueles que pensam que estão preocupados e que até definem de uma forma paternal quais são os interesses do leitor. Como exceção, relembro a experiência do Diário da Manhã, de Goiânia, na década de 1980, que reunia um conselho formado por lideranças da sociedade para definir a linha editorial da publicação ? e isso está contado no livro A quem pertence a informação, de Washington Novaes. [Vale registrar também o extinto Conselho de Leitores, que funcionou no Correio Braziliense até a última reformulação do jornal.]

Iniciativa mais completa, no sentido da interação entre leitor/jornalista, é relatada pelo agricultor Anton Huber, ex-presidente da Ocemat (Organização das Cooperativas de Mato Grosso) e leitor assíduo de jornais. De acordo com seu relato, pequenas comunidades de descendentes alemães formam uma cooperativa de assinantes para organizar o jornal da cidade. Os jornalistas contratados para executar o trabalho definem um projeto de linha editorial, as angulações de abordagem dos fatos e discutem diretamente numa plenária dos cooperados/leitores.

É para "ler o leitor" e refletir sobre o posicionamento dos jornalistas que começou a funcionar o Núcleo de Estudos de Jornalismo, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Um grupo de 16 pessoas começou a debater questões ligadas à Comunicação e formalizou a existência do núcleo. A reunião inicial, realizada na manhã de sábado (17/5), serviu para a apresentação de uma proposta de funcionamento baseada em técnicas de interdisciplinaridade e dinâmica grupal.

Ao reunir estudantes, profissionais e leitores para aprofundar o debate sobre o exercício da profissão, seu objetivo é realizar uma atividade complementar e interdisciplinar na formação do jornalista. Esta ação foi definida para ser feita em regime de extensão universitária, como forma de agregar qualidade ao ensino e de ressarcir a sociedade que paga pela formação dos jornalistas na UFMT; e, ao mesmo tempo, compor uma visão externa do trabalho realizado pelos jornalistas.

A proposta

O núcleo é um organismo interdisciplinar com objetivo de desenvolver estudos e debates visando aprimorar a intervenção dos meios de comunicação na Sociedade. Em suas abordagens leva em consideração que:

** A imprensa exerce uma função de liderança na sociedade, como sistema especialista, responsável pela criação da realidade a partir da própria realidade. O jornalismo não é fruto do imaginário do jornalista mas uma ação compartilhada com a sociedade. O jornalista é o especialista competente e responsável pela difusão dos fatos que vão tecer o tecido social.

** A sociedade é composta de grupos com propósitos e interesses que a fazem dinâmica. Os grupos produzem e reproduzem informações como forma de alavancar a evolução humana a partir de seus objetivos. Os indivíduos, tornados públicos, são cooperantes no ato de difusão e interpretação dos fatos como fonte ou leitor.

** A produção de notícias deve atender o princípio do aprimoramento da espécie humana em metas que levem à paz e ao amor.

** Como metodologia de atuação o núcleo adota a dinâmica de grupo, com a intervenção de lideranças previamente definidas. Poderá acatar propostas emergentes em suas reuniões, a critério do grupo reunido.

Na reunião do dia 17, além do debate e especificação da proposta também foram preenchidas fichas de inscrição dos participantes e marcou-se para 24 de maio a apresentação e debate das múltiplas abordagens, pelos jornais diários, na cobertura da presença do ministro da Educação Cristóvão Buarque, dia 9 de maio, em Cuiabá.

O debate da proposta de funcionamento passou pela definição de lideranças para conduzir o trabalho de forma que a totalidade do grupo se reflita na prática de seu funcionamento. Também foi proposta a abertura de um blog para disponibilizar permanentemente o acompanhamento dos trabalhos que estiverem sendo desenvolvidos.

O Núcleo de Estudos de Jornalismo foi proposto como um projeto de extensão universitária, aberto à sociedade em geral e visando o aprimoramento dos trabalhos da imprensa, principalmente no atendimento das necessidades da sociedade. A primeira reunião teve participação de professores, profissionais e estudantes de jornalismo. Os documentos apresentados na reunião estão disponíveis no Departamento de Comunicação Social da UFMT.

(*) Professor e coordenador do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Mato Grosso

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