Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > HISTÓRIAS DE OMISSÃO

Para não passar recibo

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109

HISTÓRIAS DE OMISSÃO

Raphael Perret Leal (*)

O site no. <www.no.com.br> publicou, no dia 9 de fevereiro, ótima entrevista com o ex-capitão da Polícia Militar do Rio de Janeiro Roberto Pimentel. Ele serviu no Bope (Batalhão de Operações Especiais) durante 12 anos, período de sua passagem pela corporação. Pimentel ficou famoso por ter aparecido no documentário Notícias de uma guerra particular, de João Moreira Salles e Kátia Lund, expressando opiniões que desagradaram ao alto comando da PM. O ex-capitão também incomodou quando, no Fantástico, da Rede Globo, criticou a atuação dos policiais no caso do ônibus seqüestrado em junho de 2000, que resultou na morte de uma refém e do bandido.

Na entrevista, Pimentel não poupa críticas à PM, afirmando que ela trabalha em função das estatísticas, e diz que os policiais são absurdamente despreparados, porque não há aulas de tiro. Conta detalhes de operações que não deram certo e acusa o governo estadual de promover uma reforma de mentirinha na corporação.

Sem dúvida, a crise da polícia fluminense atravessa os anos sem sinais de melhora. A situação tornou-se quase insustentável em dois episódios: quando o ex-coordenador de Segurança e Cidadania Luiz Eduardo Soares denunciou sem medo que há uma banda podre na polícia; e no caso do 174. Digo "quase" insustentável porque, de fato, não houve nenhum colapso capaz de gerar uma revolução histórica no combate ao crime e na política de segurança pública do Rio de Janeiro. Ainda. Um fato ocorrido na madrugada do mesmo dia 9 funciona como perfeita ilustração da entrevista de Pimentel. Combinam pela coincidência de datas e de conteúdo. Um grupo de amigos voltava de uma boate, em dois carros. O primeiro foi parado pela blitz, o outro não. Um rapaz que estava neste carro resolveu zombar do irmão que acabou tendo que mostrar os documentos à polícia. Como efeito, um dos soldados disparou em direção ao carro, acertando de raspão a cabeça da jovem que dirigia. Como se isso não bastasse para deixar qualquer um perplexo, o pai da moça solta uma afirmação aterrorizante:

"Justiça no Brasil é utopia. Se denunciarmos, os policiais saberão onde nos encontrar. Eles só feriram minha filha. Se eu reclamar, eles a matam."

Pura balela

A notícia foi dada na coluna de Ricardo Boechat, no Globo, no sábado, 10 e, dois dias depois o jornal daria um maior destaque, com mais detalhes do ocorrido.

Salvo as proporções do susto e do absurdo, nada mais oportuno do que aliar a entrevista de Pimentel à selvageria do policial e ao medo do cidadão, e promover, quem sabe, a tão sonhada reforma estrutural na polícia do Rio de Janeiro e, de quebra, o fim (ou pelo menos a diminuição) do poder paralelo exercido pelo tráfico de drogas, a extinção da impunidade, a imposição da segurança como uma característica marcante da cidade… Claro, tudo isso com o apoio das ONGs, dos cariocas, do governo e da imprensa.

Mas quem disse que a imprensa ajuda como deveria?

Não que a mídia dê as costas para o problema da segurança no Rio. Pelo contrário. As manchetes de 13 de junho de 2000 denunciaram o despreparo da polícia ao lidar com o seqüestrador do 174. Às manifestações de paz – a despeito de sua eficácia e validade – os jornais sempre aderiram. Sem falar em outros episódios tão lamentáveis quanto chocantes, como as chacinas da Candelária e de Vigário Geral. Sem dúvida, a imprensa apoiou, denunciou, investigou, correu atrás. Perfeito.

Porém, a situação não está tão branda a ponto de deixar passar um furo como esse. Por que os jornais não souberam aproveitar as denúncias do ex-capitão da PM e a brincadeirinha estúpida do policial da blitz? O motivo terá sido que a entrevista não foi feita por nenhum dos diários?

Pura balela. O Dia, no sábado, noticiou a entrevista, procurou o ex-capitão e ainda deu voz ao secretário de Segurança Pública, Josias Quintal, e ao governador Anthony Garotinho, que minimizaram o fato. Mas ficou nisso. E não é incomum os veículos se pautarem pelos seus concorrentes. Exemplo contemporâneo: o grampo dos deputados, publicado pela Veja, porém citado por quase todos os jornais e semanários.

Por que, então, Globo e JB ignoraram solenemente a ótima entrevista do no.? Não é a primeira vez que isso acontece. Em setembro do ano passado, durante as Olimpíadas, o site publicou entrevista com um ex-funcionário do Botafogo que denunciou um esquema de corrupção que envolvia ex-presidente, funcionários, repórteres e empresários. O JB citou o fato, mas acabou esquecendo. Globo e Lance!, se citaram, foi pouco ou nada. Não houve continuidade por parte dos diários. As suspeitas esvaziaram com o tempo.

Não há muito o que imaginar. Talvez um possível medo presunçoso de, um dia, um jornal ser pautado por notícias virtuais, provenientes da internet. Representaria isso um obstáculo à constante evolução da mídia impressa? Apenas uma hipótese ou uma certeza que se impõe? Muitas dúvidas, que só podem ser tiradas após um longo e trabalhoso estudo de campo. Por enquanto, durmamos com o barulho. O capitão abandona o barco, o policial atira no carro e a mídia dorme no ponto.

(*) Analista de sistemas e jornalista

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