Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Para que servem os jornalistas ?

Por Alberto Dines em 20/09/1997 na edição 30

Virou moda (mais uma) sem paralelo nos EUA ou Europa: rádios, revistas e jornais passaram a “contratar” empresários como opinionistas fixos. As aspas vão por conta de um acerto salarial simbólico já que empresário bem-sucedido não precisa de cachê de articulista (e os mal-sucedidos sequer são cogitados).

Estes veículos querem três coisas:
* cortar custos evitando contratar jornalistas
* celebridades dando palpites
* simpatias de grupos econômicos.
A moda pegou e está criando um perigoso desvirtuamento do jornalismo opinativo. A opinião de um jornalista, teoricamente, é isenta de interesses. Ele pode até forçar um ângulo político ou filosófico mas não está defendendo interesses pecuniários. Já um empresário, porque é empresário comprometido com o lucro, ao opinar, está defendendo os seus negócios pessoais a curto, médio ou longo prazo. Não há notícia de um empresário que se manifeste contra os interesses de sua empresa – fidelidade esta que fundamenta a ética empresarial.

O fenômeno não é novo mas agora magnificou-se: ao invés de ficar no seu canto defendendo os seus negócios e de seus acionistas, os opioni$ta$ transformaram-se, pela força da reiteração e da inércia, em gurus e magistrados.

Veja-se a primeira página da edição da Folha sobre a crise do PSDB (17/9): a segunda matéria mais importante é uma declaração de Antônio Ermírio de Morais, puro “achismo” – ele acha que a posição de FHC hoje não é tão confortável. A declaração de 15 linhas mereceu manchete de página interna e foi concedida a um opinionista da casa. Neste andar, breve, teremos o repórter Antônio Ermírio de Morais entrevistando Donald Trump ou Lee Iaccoca.

Acontece que Ermírio de Morais está agastado com o governo porque foi preterido na privatização da Vale. Isto deveria ser dito aos leitores, não se trata de uma opinião isenta.

Vejamos o caso de Luís Paulo Rosenberg, apresentado como “professor” do ITA (de que disciplina, qual a carga horária?) e presidente de uma empresa que atua no mercado de capitais (sócio de Ibrahim Eris, presidente do Banco Central no governo de Collor). Rosenberg dá opiniões semanais na Rádio Eldorado (onde seus anúncios são fartamente veiculados), na Folha e na CartaCapital. Com esta tripla audiência, substituindo três jornalistas, o empresário está apenas vocalizando os seus interesses empresariais. Que parecem estar sendo muito contrariados pela atual política econômica: exaltado, em seu programa radiofônico (8/9), chegou a chamar o presidente de Maria Antonieta.

A CBN também precisa rever o quadro de articulistas-anunciantes, sobretudo nos programas terceirizados (uma aberração legal que também deve ser reexaminada).

Se a mídia quer auscultar o patronato, faça-o através de entrevistas. É legítimo e desejável. Substituindo-se aos jornalistas, os empresários estão apenas agravando a promiscuidade de um serviço público com mercados e negócios.

Capitalização
à moda de Chatô,
A.D.

A história foi contada com todos os detalhes em matéria de capa de CartaCapital (17/9): os Diários Associados recorreram de uma decisão do presidente Figueiredo, que, atendendo à situação pré-falimentar da empresa, mandou fechar algumas emissoras de TV e rádio.

As concessões de TV assim liberadas foram redistribuídas aos amigos do último ditador: Delfim Netto passou algumas para o grupo Manchete e o ministro da Aeronáutica Délio Jardim de Matos, outras para o seu ex-comandado, Sílvio Santos.

Incentivados por Sarney, os Associados reclamaram na justiça. E, depois de quase uma década, ganharam a bolada de 220 milhões (que ainda pode crescer dependendo do desfecho de outras ações).

O fecho desta história de fadas com suas varinhas mágicas está contada na Folha (o único jornal que não segue o diktat da ANJ, presidida pelo também presidente Associado). Em sua edição de 17/9 o jornal dá a dimensão do presente: com o faturamento anual de 300 milhões, em 6o lugar no ranking das empresas de mídia, o presente do contribuinte brasileiro permitirá aos Associados um grande salto.

O que ganhará o cidadão-leitor? Entre os possíveis investimentos para a bolada, o presidente da ANJ e dos Associados cita a telefonia celular. Enquanto isso, o projeto do deputado Aloysio Nunes Ferreira para mudar o artigo 222 da Constituição não consegue apoios para decolar. Este tipo de capitalização é mais fácil.

Os nossos limites
Paulo Nogueira,
diretor de redação de Exame

Quais os limites para um ataque a alguém ou a uma idéia?

Eis uma questão sobre a qual os jornalistas brasileiros terão que se debruçar com intensidade cada vez maior.

Há ainda no Brasil resquícios de um jornalismo panfletário que deu o tom da imprensa brasileira desde o primeiro artigo do primeiro jornal. Mas este tipo de jornalismo encontrará cada vez maior dificuldade para sobreviver – e por diversas razões. Vem aí uma nova lei de imprensa, a justiça está concedendo direito de resposta com mais facilidade — e sobretudo o leitor tende a não tolerar mais abusos cometidos por jornalistas.

O maior representante dos tempos recentes do que eu chamaria de modelo antigo foi Paulo Francis. Francis não tinha limites e durante muito tempo isso não lhe trouxe nenhum problema. Eduardo Suplicy era Mogadon, Ruth Escobar era insultada freqüentemente, bem como tantas outras pessoas.

O estilo desabrido que fez a glória de Paulo Francis acabou – a crer no depoimento de amigos dele – por atormentá-lo e talvez apressar sua morte. Paulo Francis acusou de corrupta (em solo americano) a diretoria da Petrobrás. Porque a acusação foi feita nos Estados Unidos, a Petrobrás pôde processá-lo na justiça americana – bem menos indulgente que a brasileira perante a imprensa. O processo virou um grande problema para Paulo Francis – talvez o tenha matado, segundo seus amigos.

É um episódio que deveria servir de reflexão para nós, jornalistas brasileiros – mesmo que ainda não tenhamos sobre nós o mesmo grau de rigor que é a marca da justiça americana na maneira como lida com a imprensa.

O jornalismo panfletário que caracterizou até aqui a imprensa brasileira vai ter cada vez mais dificuldade em respirar. É bom que nós, jornalistas, meditemos a esse respeito – até para que o ar não falte também para nós.

MEMÓRIA
Vamos brincar de olhar para trás?
A.D.

Exercício para pauteiros, repórteres políticos e pesquisadores: ir à coleção dos jornais antigos, escolher o volume de 1987 e navegar deliciosamente por estes tesouros intocados. Mandem suas contribuições – os editores da História do Brasil de amanhã agradecem penhorados. Para começar, vejam o que achamos na edição do Estadão de 3 de junho de 1987 sobre o governo Sarney:
“PLANALTO ‘PATRULHA’
Brasília, Agência Estado

A maioria dos jornalistas que fazem cobertura do Palácio do Planalto traça um perfil sombrio e pouco otimista do governo do Presidente José Sarney. Acha, por exemplo, que o presidente deve ter o seu mandato abreviado e que a população está frustrada e não confia mais na sua administração. Essas informações constam de uma pesquisa de opinião encomendada por ordem do presidente Sarney à empresa de consultoria LPM. Foram entrevistados 198 jornalistas credenciados para a cobertura da Presidência da República, e os resultados estão nas mãos do chefe da Secretaria Especial de Comunicação da Administração Federal (Secaf), Getúlio Bittencourt, contratado por Sarney para cuidar da sua imagem, atualmente desgastada de ponta a ponta do País.

Por coincidência, dias após a conclusão da pesquisa, no final de abril o presidente Sarney determinou a proibição do acesso dos jornalistas ao terceiro andar do Planalto, onde fica o seu gabinete, e passou a manter a imprensa sempre à distância. Diante dessa nova situação, semelhante aos métodos do regime militar, os jornalistas passaram a suspeitar ainda mais dos verdadeiros propósitos da pesquisa.

Revoltados, muitos deles estão pedindo a retratação dos responsáveis assim como a exclusão de seus nomes de possíveis fichários que, acreditam, podem estar à disposição dos órgãos de segurança do governo. Os resultados da pesquisa, pelo que se informa extra-oficialmente no Planalto, foram processados para os computadores e podem ser acionados a qualquer momento por Bittencourt , de acordo com a sua conveniência – ou do próprio presidente Sarney.

Simpático ou antipático?
No quarto andar do Palácio do Planalto onde instalou o seu gabinete, Getúlio Bittencourt se recusa a receber a imprensa credenciada. Segundo a sua filosofia de trabalho, conversa somente com os amigos. Se dependesse de sua disposição, o presidente Sarney jamais conversaria com os jornalistas que, à luz das respostas dos questionários, podem ser vistos como inimigos, por terem manifestado opiniões que não coincidem com as convicções do presidente da República.
Continua

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