Quarta-feira, 20 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Paradas de sucessos das FMs são termômetros da escalada das drogas

Por lgarcia em 20/04/1998 na edição 43

Nem a morte de ídolos como Tim Maia consegue provocar
uma reflexão séria sobre o assunto, desperdiçando-se a oportunidade
para encarar o efeito letal da dependência química

Ruy Castro (*)

 

L

ucy no céu com seus diamantes não deve estar gostando muito. Um relatório da Junta Internacional de Controle de Drogas, órgão da ONU com sede em Viena, alertou há pouco para a atitude da música pop de tolerância e estímulo ao uso de drogas. O relatório foi publicado em todos os países em que a junta tem representação, inclusive no Brasil.

Infelizmente, está alertando tarde. A dobradinha entre a música pop e o estímulo à droga já se estabeleceu há pelo menos 30 anos e só a ONU não devia estar prestando atenção. Os grupos de rock cantam loas à maconha, à cocaína e ao LSD com o mesmo empenho com que, em tempos idos, os cantores e compositores se dedicavam ao amor. Mas, para que não se diga que a ONU choveu no molhado, um dos tópicos do relatório contém um dado interessante: “O efeito da música pop que incentiva o uso de drogas parece sobreviver até a choques eventuais, como mortes de artistas por overdose. Esses incidentes tendem a transformar-se num momento de luto pela morte de um ídolo e não numa oportunidade para encarar o efeito letal do uso recreativo de drogas”. Há pouco, tivemos um exemplo disso com a morte de Tim Maia. A maioria dos jornais deu à notícia o destaque merecido, com um detalhado acompanhamento de sua agonia num hospital de Niterói, as habituais ‘repercussões’ à beira do túmulo e ensaios sobre o seu indiscutível talento. Mas não me lembro de nenhum artigo em profundidade sobre o incrível envolvimento de Tim com várias drogas. Faltou dizer, por exemplo, que, embora não tenha morrido diretamente de uma overdose, ele bombardeou sua saúde durante décadas com monumentais quantidades de álcool, cocaína e haxixe. E 90% dos shows a que faltou se deveram à euforia ou ao bode que esses produtos provocam. Nos últimos quatro anos, Tim parara com o álcool e com a cocaína (chegou a agredir um traficante que foi à sua casa “presenteá-lo” com pó). Em compensação, aderira ao skunk, uma supermaconha holandesa de estufa, que fumava como se fosse Marlboro. Era óbvio para seus amigos que não podia durar muito.

Aina vem que ninguém se atreveu a acusar o “sistema” pela morte de Tim Maia – como costuma ocorrer quando artistas tidos como “rebeldes” seguem uma carreira errática, marcada por episódios de violência, e terminam muito cedo no ostracismo ou no cemitério. Nesses casos, a imagem do artista “incompreendido” ou “massacrado” pelo estúdio ou pela gravadora sempre volta monotonamente à tona. Mas, se se examinar essa “rebeldia”, vai descobrir-se que há sempre uma ou mais drogas no pedaço. No caso de Tim, era difícil forjar a tal desculpa, porque ele próprio era maravilhosamente debochado em relação ao assunto – ou não viveria a repetir sua famosa frase: “Não bebo, não fumo e não cheiro – só minto um pouco”. Aliás, o que o irritava era a atitude hipócrita de vários colegas, tão usuários quanto ele, que insistiam em se passar por bons moços.

Sem argumentos

Nos Estados Unidos, as duras conseqüências da droga já estão por demais expostas para que alguém continue pondo a culta no “sistema”. Lá, pelo menos entre o pessoal do cinema, o argumento não cola mais. Nenhuma entidade abstrata foi responsabilizada pela morte de John Belushi por overdose de cocaína em 1982. Nem pelas interrupções das brilhantes carreiras (sem trocadilho) de Richard Dreyfus e Drew Barrymore, só a custo retomadas. Nem, como está ocorrendo agora, com a de Roberto Downey Jr., o jovem ator de Chaplin (1992), confinado numa clínica depois de vários entreveros com a polícia de Los Angeles. O diagnóstico que se fez de todos esses casos foi simples: dependência química igualzinha à que assola milhares de pessoas anônimas, pobres e feias, que, como eles, simplesmente se aproximaram da droga e foram apanhadas por ela.

Com tudo isso, e apesar de todas as evidências, a música pop continua a vender a idéia de que a droga é uma coisa formidável e qualquer tentativa de coibir essa propaganda é tida como uma ameaça à liberdade de expressão. Essa nova ditadura da liberdade não é um fenômeno apenas internacional: tem-se a impressão de que, se alguém no Brasil gravar uma música contra a maconha, será chamado de fascista para baixo.

Em todos os países há uma discussão parecida envolvendo o excesso de violência nos canais abertos de televisão. As pessoas sensatas sabem que nada de bom poderá sair daquela exibição contínua de tiroteios e explosões que os jovens consomem pela TV. Mas os legalistas empatam o jogo ao perguntarem-se (ingênua ou maliciosamente) se uma tentativa de controle dessa violência não será uma forma de censura. De repente, é preciso um massacre como o praticado pelos dois adolescentes naquele ginásio no Arkansas, na semana passada, para acordar as pessoas para a brutalidade que entra pelo vídeo e alterar a balança a favor dos que advogam algum controle.

Dramas humanos

O fuzilamento das quatro crianças e da professora pelos dois meninos é chocante. Mas é pinto se comparado aos incontáveis dramas humanos que ocorrem, todo dia e em toda parte, provocados pela droga. A ONU tem razão de estar alarmada com sua descoberta do óbvio: os ídolos pop que apregoam a droga e prometem nirvanas aos milhões de jovens que passam o dia ouvindo aquilo “se esquecem” de alertar para as suas conseqüências. Um deles, o guitarrista Eric Clapton, hoje aparentemente recuperado de várias dependências, cantou em 1980 o seu sucesso Cocaine, num estádio em Tóquio, para 100 mil entusiasmados japonesinhos. Seria instrutivo saber quantos daqueles 100 mil jovens que ululavam em massa a única palavra que entendiam do refrão (“Cocaine!”) não foram afetados pela dita – e como estarão hoje, quase 20 dias depois.

Cantores e músicos famosos envolvidos com álcool e drogas estão longe de ser novidade. A diferença é que, no passado, o uso que faziam delas estava estritamente limitado às suas vidas pessoais – não eram tema de sua produção artística. N&atildeatilde;o há registro de gravações de Billie Holiday, Charlie Parker ou Ray Charles que façam apologia de heroína, da qual os três foram dependentes. Louis Armstrong fumava maconha e não se ficava gabando disso. E os Beatles sempre negaram que Lucy in the Sky with Diamonds fosse uma alusão ao LSD, embora tudo indicasse que fosse. Todos eles, como artistas, tinham o que expressar fora do círculo fechado da droga. Não é o que ocorre com esses monotemáticos grupos de hoje, com toda a liberdade de que desfrutam.

Na semana passada, os jornais brasileiros publicaram várias reportagens sobre a escalada da heroína no país e noticiaram a apreensão de quase 1 quilo da droga no Rio. Como quantidade parece pouco, mas, pela primeira vez, a droga apreendida era para ficar por aqui mesmo: uma parte no Rio e o restante iria para Trancoso, na Bahia. Significa que o Brasil estaria deixando de ser apenas uma escala na rota da heroína para o México (e, desse, para os Estados Unidos) – para firmar-se como mercado.

Talvez ainda seja cedo para avaliar as dimensões dessa escalada. Mas, se ela estiver ocorrendo, quem quiser acompanhá-la só terá de ligar o rádio. O termômetro (ou uma das causas da febre) será a parada de sucesso das FMs.

(*) Copyright O Estado de S. Paulo, 4/4/98.

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