Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > KUBANACAN

Paródia subliminar ao governo Lula

Por lgarcia em 21/10/2003 na edição 247

KUBANACAN

Vinícius Tavares (*)

Talvez as pessoas não percebam como é nocivo à democracia quando grandes redes de televisão utilizam acontecimentos e personagens reais para manipulá-los dentro de um mundo ficcional. O caso mais evidente dessa prática pode ser testemunhado na novela Kubanacan, da TV Globo. O que mais chama a atenção na produção, e o que mais dá audiência também, é a exploração visual dos corpos, tanto de homens como de mulheres. É comum vê-los com poucas roupas e esfregando-se à toa como num ritual de acasalamento em horário nobre.

Mas é por trás desta estética aparentemente cotidiana para a televisão brasileira que se esconde uma crítica política e preconceituosa, que repete os mesmos chavões do cinema americano dos tempos de Guerra Fria. E com elementos ainda mais nocivos, porque não é explícita. É covarde e aparentemente inocente.

Talvez o leitor não lembre, mas o início de Kubanacan coincidiu "casualmente" com o início da era Lula no comando do governo federal. Não é paranóia. São fatos.

Antes de começar a veicular a novela, o anúncio da Globo prometia "uma ilha que é pura paixão …". As chamadas mostravam uma ilha de magia, calor tropical, latinidade. Ora, trata-se de uma Cuba fictícia (Kubanacan). O sufixo é mero adorno.

Kubanacan tem um sistema de governo diferente dos regimes convencionais, parece um lugar que não deu certo. Carros e prédios são velhos, as filas, quilométricas, os serviços públicos não funcionam, não há empreendedores ou empresários (ou melhor, os poucos que existem são perseguidos pelos soldados do estado repressor). É Cuba, certo?

Kubanacan apresenta militares incompetentes, corruptos, cheios de normas e regras de conduta que os transformam em tolos coadjuvantes. Pois bem, o presidente Lula, que forma boa rima com Cuba, é a esquerda no poder. O figurino da Globo caprichou até nas estrelas dos uniformes dos soldados, bem parecidas com as do partido do presidente.

Mudanças na mesma

Temos, é claro, o mocinho que anda sem camisa e representa a liberdade americana, que não respeita regras de conduta, não usa uniformes, é esperto e se dá bem porque é diferente, conquista as mulheres mais bonitas. Ele sempre foge dos soldados porque é o mocinho, como no cinema. Trata os funcionários de Kubanacan da mesma forma que Rambo trata os comunistas em seus filmes: como estúpidos sem vontade, sem rostos, sem personalidade. É a velha fórmula da liberdade americana.

Às vezes surgem personagens novos, representando americanos em visita à ilha. São altos, louros e de olhos azuis. Eles já foram governo, não "estão" no poder, mas podem voltar a qualquer momento… Basta a vontade.

Portanto, a Globo mina o inconsciente coletivo de uma população pouco avessa à autocrítica com uma série de conceitos prontos sobre o universo político brasileiro. Fizeram esta novela para desgastar aos poucos a imagem de um novo governo. A novela faz paródia de um governo que, na teoria, é fracassado por defender princípios que ameaçavam a soberania das grandes empresas.

O governo e a novela, no entanto, estão mudando. Porém, a essência da "Kuba na sacanagem é a mesma.

(*) Jornalista, Porto Alegre

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