Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DA GUERRA

Pascal Riche e Fabrice Rousselot

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

COBERTURA DA GUERRA

"Luta desigual na guerra da informação", copyright Folha de S. Paulo / Libération, 14/10/01

"Nesta ?guerra?? destinada a durar anos, as palavras e as imagens são talvez tão importantes quanto as bombas. É a convicção da equipe de George Bush, composta em grande parte de veteranos da Guerra Fria que conhecem bem este tipo de situação. Para eles, trata-se de convencer os muçulmanos de todo o mundo de que o modelo de liberdade proposto pelos Estados Unidos é superior ao sugerido pelos extremistas islâmicos. E também de alimentar o apoio da opinião pública ocidental à campanha americana.

Os acontecimentos desta semana demonstraram como Washington leva a sério a mediatização do conflito. Para fazer esquecer os ?danos colaterais?? inevitáveis dos bombardeios, a equipe Bush insistiu muito na ajuda humanitária jogada de pára-quedas no Afeganistão. Para tentar escapar à armadilha de um excesso de focalização em Osama Bin Laden – dupla armadilha: se ele fugir, será uma derrota americana, se for morto ou capturado, a guerra perderá o sentido para a opinião pública -, apresentou espetacularmente uma lista dos ?22 terroristas?? mais procurados pelo FBI, a maioria já fichada há muito tempo. E o governo não hesita em criticar os meios de comunicação. O diretor da Voz da América foi chamado à ordem por ter divulgado, antes dos ataques, uma entrevista do chefe dos talibãs, o mulá Omar.

Queixa de Washington – Houve sobretudo o caso Al Jazeera, a TV do Catar que difundiu o vídeo com a convocação à ?guerra santa?? feita por Bin Laden. O secretário de Estado Colin Powell protestou junto às autoridades do Catar, Condoleezza Rice, a assessora de Segurança Nacional, queixou-se com os presidentes das redes americanas de TV. Estes comprometeram-se a não retransmitir na íntegra ou sem exame prévio mensagens dos terroristas, chegando a CNN a prometer ?aconselhar-se com as autoridades?? no futuro. O mesmo pedido foi feito aos diretores de jornais.

O chamado caso dos ?vazamentos?? também é eloqüente. Depois da publicação pelo Washington Post de informações secretas (mas irrelevantes), Bush investiu publicamente contra o Congresso, anunciando que pretendia restringir as informações confidenciais aos oito principais líderes dos dois partidos. Teve de recuar da decisão, manifestamente inconstitucional.

Golfo bis – Nancy Snow, que trabalhou na United States Information Agency (USIA), agência de propaganda criada no início da guerra fria e fechada em 1999, teme que Bush caia nas mesmas armadilhas que seu pai, que tentou desastradamente controlar as imagens da guerra do Golfo: ?Se esta campanha durar anos, será muito difícil tentar ao mesmo tempo controlar a informação e convencer as populações, aqui ou no exterior, a continuar apoiando Washington??, diz ela. Foi a ausência de apoio popular à guerra do Vietnam que originou a derrota americana. Para Randy Bytwerk, especialista em propaganda em tempo de guerra, ?na era da internet, do cabo, da Al Jazeera e das câmeras individuais de vídeo, tentar controlar a informação nesta campanha é de qualquer maneira muito difícil??.

Até o momento as emissoras americanas de rádio e TV não têm exagerado no espírito de independência em relação às fontes oficiais. Na quarta-feira, os jornalistas expressavam ao vivo seu mal-estar com a decisão de submeter imagens à avaliação das autoridades: ?É uma questão muito difícil??, dizia Judy Woodruff, veterana apresentadora da CNN. ?Também somos americanos, amamos nosso país. Mas por outro lado há a Constituição, a liberdade de expressão…??

Auto-censura – Na realidade, os meios de comunicação americanos se censuram com facilidade. Decidiram por exemplo não usar certos trechos do vídeo do porta-voz da Al Qaeda (a organização de Bin Laden) que mostram mulheres palestinas espancadas por militares israelenses. Segundo Evan Cornog, diretor adjunto da Columbia School of Journalism, censurar imagens como estas é algo problemático: ?Se o público quer entender as causas do ódio aos Estados Unidos, precisa dispor dessa informação.??

A tendência é tanto mais preocupante por ser o governo a fonte quase única de informação das emissoras. Quase todos os consultores contratados pela CNN ou a MSNBC são ex-generais, que falam a linguagem de Bush. No terreno militar, vigora, como na guerra do Golfo, o sistema de pools de operadores de câmera: é o Pentágono que decide quando se deve ou não ?ativar?? esses jornalistas e que tipo de imagens podem mandar para as redações.

O debate também entrou no terreno do ?patriotismo??. Na Fox News, os redatores-chefes discutiram a possibilidade de obrigar os jornalistas a pespegar a bandeira nacional na lapela. O apresentador da CBS, Dan Rather, foi ainda mais longe, apresentando-se como voluntário ao exército para lutar contra os terroristas."

"Relações com a mídia caem em terreno movediço", copyright O Estado de S. Paulo, 14/10/01

"Cinco redes nacionais de televisão concordaram, na quarta-feira, em limitar a transmissão de declarações de Osama bin Laden, depois que a Casa Branca advertiu sobre a possibilidade de o líder da Al-Qaeda estar usando suas mensagens gravadas em vídeo para enviar ordens de ação codificadas a seus comandados nos Estados Unidos e ao redor do mundo.

No dia 5, o jornal Washington Post preferiu a autocensura a publicar uma informação, obtida a partir de relato secreto dos serviços de inteligência a membros do Congresso, segundo a qual havia ?100%? de chance de os EUA serem alvo de novo ataque se bombardeasse o Afeganistão. A informação saiu no dia seguinte.

O USA Today foi menos cooperativo. Três dias antes do início do ataque, publicou reportagem informando que forças especiais já estavam operando no Afeganistão. O texto, depois confirmado pelo Pentágono, suscitou cartas de condenação de leitores e crítica até de jornalistas. Antes mesmo de as bombas começarem a cair em Cabul, o programa The Newshour with Jim Lehrer, da rede de televisão educativa, já vinha recebendo cartas e telefonemas de seu seletíssimo público perguntando por que os jornalistas que o apresentam não usam bandeiras americanas na lapela ou fitas brancas, azuis e vermelhas, as cores nacionais, na roupa.

O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, por sua vez, advertiu os jornalistas a ?tomarem cuidado com o que dizem?. Ele criticava o apresentador de um programa de sátira política censurado por várias emissoras por ter dito, dias depois dos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, que os atentados eram o resultado da ?covardia? dos ataques de mísseis dos EUA a um campo de treinamento de terroristas no Afeganistão, em 1998.

A guerra contra o terrorismo colocou as geralmente tensas relações entre a imprensa e o governo em terreno novo e movediço, no qual se defrontam duas preocupações igualmente caras aos americanos: de um lado, a segurança nacional, de outro, a liberdade de expressão. É uma batalha que os jornalistas começam em posição de tremenda desvantagem.

Tendo perdido muito da estima, do respeito e da credibilidade de que já gozaram na opinião pública, os profissionais da imprensa defrontam-se hoje com a realidade de um país que sofreu um ataque inimaginável, enrolou-se na bandeira e parece disposto a dar um apoio quase incondicional ao governo na luta contra o terror.

?Os repórteres enfrentam um desafio monstruosamente difícil: como ser sensíveis ao sentimentos de uma nação ferida e patriótica e, ao mesmo tempo, fazer sua tarefa, que consiste em aplicar a dose apropriada de ceticismo jornalístico, impaciência e curiosidade à cobertura de uma guerra sem paralelo na história dos EUA?, escreveu Marvin Kalb, que dirige o programa de jornalismo da Escola Kennedy de Administração Pública, na Universidade Harvard.

Em guerras passadas, todas travadas fora dos EUA, os jornalistas vestiram o uniforme de soldado, submeteram matérias e filmes aos censores militares e cumpriram com sua obrigação de contar os fatos, mesmo se alguns desses só pudessem ser revelados com atraso. No conflito atual, as regras são diferentes, se é que existem. Os americanos enfretam um inimigo invisível, que vê a morte como triunfo, já provou sua capacidade de atingi-los de forma devastadora em seu território e não perderá chance de fazê-lo outra vez.

O sentimento de vulnerabilidade, a enormidade da tragédia humana provocada pela destruição do WTC e a necessidade de responder de forma eficaz à ameaça transformou muitos jornalistas em soldados da guerra contra Bin Laden e seus comandados.

?Não há como negar, o jornalismo americano tornou-se uma arma essencial na guerra contra o terrorismo?, afirmou Roy Peter Clark, um estudioso da imprensa dos EUA. ?Os jornalistas se rebelarão contra essa caracterização porque, como a maioria dos americanos, nós, jornalistas, odiamos a palavra propaganda e a idéia que está por trás dela, ou seja, que formas simbólicas de comunicação podem ser manipuladas para encorajar um lado de uma luta política ou ideológica e desencorajar outro.?

Clark aconselha os jornalistas a não brigarem com a realidade e aceitarem a relação que existe entre seu trabalho e as necessidades de propaganda de seu país na crise sem precedentes que ele atravessa. ?Uma imprensa apropriadamente propagandista não precisa tornar-se o cachorro de estimação da liderança política, mesmo diante da guerra; mas precisamos suspender temporariamente o cinismo rotineiro que põe em dúvida institivamente os motivos e a competência de nossos líderes?, escreveu.

O conselho de Clark não foi bem recebido por muitos profissionais. ?O conceito de uma imprensa apropriadamente propagandista é novidade para os jornalistas americanos, que negam até serem atores políticos, apesar das evidências em contrário?, disse Ron Elving, editor sênior da Rádio Pública Nacional e professor de imprensa e governo na Escola de Comunicação da American University. ?O público está dando à administração o benefício da dúvida?, afirmou Clark Hoyt, o editor, em Washington, da rede de jornais Knight-Ridder. ?É nossa obrigação de jornalistas ir atrás das informações e usar nossa capacidade de julgamento para avaliar as que recebemos?, disse.

O papel da imprensa na guerra contra o terrorismo não é estátisco e certamente evoluirá com o conflito. Robert Manoff, diretor do Centro de Guerra, Paz e Imprensa da New York University, não vê obstáculo insuperável entre o sentimento de lealdade à nação que os atentados voltaram a despertar entre os americanos e a tarefa de contar a história da guerra invisível que o país trava. ?O patriotismo e a transparência são primos próximos?, disse.

?Negar aos americanos a oportunidade de compreender o enfrentam e de debater o que fazer seria um erro terrível.?"

    
    
                     
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