Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > UM ANJO CAIU DO CÉU

Patrícia DÂ’Abreu

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

QUALIDADE NA TV


UM ANJO CAIU DO CÉU

"Trama simples e promissora", copyright Jornal do Brasil, 24/01/01

"Entre o muito bom e o bastante confuso, a estréia da nova novela das 19h da Globo, Um anjo caiu do céu, teve um ar autoral. Assinada por Antônio Calmon – leia-se Top model e Vamp – a trama mostrou, no primeiro capítulo, que vai lançar mão de fórmulas já usadas pelo autor para fazer sucesso no horário. E isto pode ser bom, uma vez que Um anjo caiu do céu parece ter o potencial de dar ao telespectador o prazer simples de assistir a uma novela que deixa de lado a trama cheia de tentáculos e apelações e privilegia a atuação de bons atores.

E bons atores não faltam. Encabeçando a lista dos que prometem ser responsáveis pelos melhores momentos de Um anjo caiu do céu, Christiane Torloni e José Wilker acertaram em cheio no tom dos divertidos Tarso e Laila, personagens que têm tudo para fazer o público adorar odiá-los. Ponto positivo também para a dupla formada por Patrícia Pilar e Marcelo Anthony. Ela, no papel de Duda, mostrou que pode emocionar o público. Ele, como o suave Maurício, deverá fazer muita gente ligar a TV. Além de um bocado bonito, Marcelo Anthony tem provado, a cada novela, que consegue misturar o namoro com a câmera a uma interpretação feita sob medida para a TV – coisa de galã que veio para ficar.

Com Tarcísio Meira e Renata Sorrah, a estréia foi aquém das expectativas. Longe de uma falha dos atores, a decepção com dupla foi resultado de uma direção tímida. Faltou agilidade física a Tarcísio na interpretação do protagonista João Medeiros – e uma boa direção de câmera, com planos estratégicos e cortes com ritmo poderia dar cabo do problema. O sonambulismo da Naná de Renata também ficou mal explicado por uma seqüência de imagens desconexas e sem criatividade. Em Praga – local onde a trama começa – a direção foi econômica e burocrática, com cenas românticas que, em vez de explorarem a bela locação internacional, foram confinadas em restaurantes e quartos de hotel.

Duas boas surpresas ficaram por conta da criativa abertura e da ágil trilha sonora – destaque para Pato Fu na vinheta e Rita Lee como tema da vilã Laila. Quanto ao anjo de Caio Blat, qualquer palpite é arriscado, já que o rapaz – sem trocadilho – foi sufocado pela tradicional ”explosão de primeiro capítulo global com efeitos especiais”.

No todo, o único pecado grave da estréia de Um anjo caiu do céu foi mesmo a timidez da direção com Tarcísio Meira e Renata Sorrah. Quem se lembra de Reginaldo Faria e Joana Fomm sob a direção de Jorge Fernando em Vamp sabe o quanto o texto de Antônio Calmon pode ser otimizado. De qualquer forma, os astros parecem conspirar a favor, já que a nova novela das 19h conseguiu média de 39 pontos de audiência em seu primeiro capítulo. Sem a fórmula fácil de peitos siliconados e troncos cabeludos, Um anjo caiu do céu encostou nos 40 pontos do último capítulo da apelativa Uga uga. Graças a Deus."

"O anjo caiu do céu; será que foi tiro?", copyright O Estado de S. Paulo, 27/01/01

"Lá pelos anos 70, o horário de novelas das sete da noite era chamado de água com açúcar. Minha Doce Namorada, Carinhoso, Bravo, Estúpido Cupido… Não se trata de saudosismo, pois, à exceção da trama de Mário Prata ambientada nos anos 60, a grande maioria foi mediocre. Ou melhor, foi novela. Mas o fato é que desde que as outras emissoras inundaram o horário com programas tipo Aqui Agora, Cidade Alerta, Cadeia, etc, a Globo decidiu apimentar as tramas para não perder terreno. E Antônio Calmon parece disposto a não deixar a peteca da audiência cair com sua Um Anjo Caiu do Céu, que estreou na última segunda-feira.

De cara, a novela tem um mérito (o único além da abertura com caricaturas e da trilha sonora): incluir a espiritualidade, personificada na figura do anjo legal (o talentoso Caio Blat), em meio ao turbilhão de agressividade gratuita e apelações eróticas herdado da deprimente Uga Uga de Carlos Lombardi. Mas, enquanto o anjo assiste a tudo lá de cima, ao rés do chão Calmon mantém a fórmula que, dentro da emissora, se convencionou chamar de aquilo que dá audiência.

Já nos primeiros capítulos, uma tentativa de seqüestro com três mortos a tiros de grosso calibre, Cristiane Torloni ameaçando arrancar o biquini de uma iniciante, Débora Evelin desejando que o pai morra, Paulo José vítima de adultério, Patrícia Pillar aconselhada pelo maridão a continuar a se entupir de remédios, uma bomba mandando Tarcísio Meira pelos ares, briga de adolescentes, Renata Sorrah sendo passada para trás pelo próprio cônjuge, dois pirralhos imberbes babando por uma aprendiz de Carla Perez.

Ou seja, mudou o autor, a novela, o elenco, mas não mudou nada. A direção de Dênis Carvalho apropriou-se dos efeitos do filme Ghost como quem falsifica uma Barbie ou um tênis Nike em Taiwan. E segue a receita das brutalidades hollywoodianas de Mel Gibson, Bruce Willis e Stalone, dando closes na pistola do vilão como se ela fosse o ator mais bem pago do cast. Depois se fala em campanhas para desarmar a população e se pergunta porque os jovens estão agindo com tanta violência em seu cotidiano.

O elenco, apesar de contar com vários atores de talento, pouco pode fazer em meio a uma trama tão tacanha.

Ruim desse jeito, não há dúvidas: a novela será um sucesso de público."

"Novela ‘Um Anjo Caiu do Céu’ começa cosmopolita e up-to-date", copyright Folha de S. Paulo, 24/01/01

"Antonio Calmon, autor de ‘Um Anjo Caiu do Céu’, enfrenta, com sua nova novela, uma tarefa difícil, a saber, manter no ar a peteca de ‘Uga Uga’, pois a novela de Carlos Lombardi realizou o feito nada desprezível de apresentar uma qualidade bastante uniforme e alta do começo ao fim.

Contribuíram, entre outras coisas, um texto divertidamente adequado a seu público, um senso de humor bem resolvido e uma edição ágil. Outro acerto foi a aposta em atores relativamente jovens, sobretudo em talentos cômicos como o de Danielle Winits.

‘Um Anjo’ começa com a desvantagem de carregar, nos papéis principais, o peso de uma geração mais idosa de atores, cujo trabalho e imagem combinam cada vez menos com as expectativas do horário. Daí ser plausível esperar uma novela na qual as tramas centrais tornam-se previsíveis e tediosas, e o sucesso depende do crescimento dos personagens secundários. Calmon, no entanto, mostrou-se várias vezes capaz de superar obstáculos semelhantes.

Faz tempo que os capítulos iniciais das novelas da Globo constituem um caso à parte, um tiro de chumbo grosso destinado -por meio de investimentos em recursos e técnicas que desaparecem depois da primeira semana, retornando só nos capítulos finais- a cativar rapidamente um público.

‘Um Anjo’ não foi diferente: em sua estréia, a emissora nos trouxe nada menos do que algo que poderia ser qualificado como Sebastião Salgado no meio de ‘Missão Impossível’, e isso ambientado em Praga, inscrito numa história clássica de velho nazista foragido, tipo ‘Dossiê de Odessa’ ou ‘Maratona da Morte’, e com direito a tiroteio e explosão.

Mas, como a TV brasileira continua incapaz de fazer cenas de ação, o resultado não passou de desperdício. É impossível entender por que atores que vivem e trabalham na trajetória de balas perdidas não conseguem levar, em cena, um tiro convincente.

Cabe, porém, reconhecer, na criação de um episódio tão up-to-date e cosmopolita, com referência a criminosos de guerra, ao massacre de Lídice etc., uma tentativa louvável, por ser rara a menção a tais assuntos na literatura, cinema e TV do Brasil, que recebeu muitos dos sobreviventes e não poucos dentre os carrascos.

De resto, com exceção de um ou outro momento feliz, como a cena muda do despertar de José Wilker, o primeiro capítulo se resumiu na apresentação dos personagens, desnecessária, uma vez que a bola havia sido posta em campo pelas chamadas da novela, que cumpriram, com mais economia e eficácia, o mesmo papel."

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