Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Patrícia Dabreu

Por lgarcia em 30/05/2001 na edição 123

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QUALIDADE NA TV


REMAKES

"Vale a pena ver de novo?", copyright Jornal do Brasil, 27/05/01

"O drama de um filho bastardo em plena era da engenharia genética. Um pai que tem o papel de provedor num início de século marcado pela dissolução familiar. Uma boneca de pano que navega pela internet. E um patrulheiro rodoviário que mistura Indiana Jones e 007 numa sociedade que não dá crédito à figura do policial. No ar ou ainda em fase de produção, estas histórias e situações marcam a recente onda de remakes na TV aberta. Com um pouco de nostálgico, muito de mercadológico e nem tanto de qualitativo, o investimento em novas versões de programas de sucesso como O direito de nascer, do SBT, A grande família e O sítio do pica-pau amarelo, da Globo, e O vigilante rodoviário, da produtora JPO, reaviva o debate sobre a crise de criatividade na televisão nacional e provoca a sensação de que a história desta TV está se repetindo como farsa.

Mesmo sem arriscar críticas diretas à onda de remakes, a atriz Betty Faria, 60, confessa que sente falta da tal ousadia na TV. ?Quando um programa tenta copiar outro, acaba virando um arremedo. Acho que a TV precisa inovar, sinto falta de propostas diferentes?, afirma Betty. Relembrando suas atuações em novelas como O bofe, de Bráulio Pedroso, e Tieta, de Aguinaldo Silva, a atriz exemplifica o que quer dizer com inovação. ?Em O bofe minha mãe era interpretada pelo Ziembinski! Já o Aguinaldo fez a Tieta voltar à sua cidade gritando méee! Quando é que a gente poderia imaginar que uma atriz da Globo iria aparecer na tela, às 20h, gritando méee?! Quando falo em ousadia, penso em novos formatos e em novas linguagens?, diz Betty.

Colegiado de ETs – Par de Betty em diversas novelas e ator das duas versões de Pecado capital, Francisco Cuoco, 66, se queixa da falta na TV de profissionais que chama de idealizadores: ?A TV precisa de um comando geral que saiba fazer uma programação diferenciada. Não sei como ela continua funcionando com este colegiado de ETs. Uma gente que, ao mesmo tempo em que toma conta do dinheiro, decide as questões artísticas.?

Para Raquel Paiva, 41 anos, pesquisadora do CNPq e professora de pós-graduação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a repetição de fórmulas reflete uma tendência mundial. ?Na TV, isto revela falta de inventividade. Ela está tão comprometida com o mercado que não quer correr o risco de errar, coisa que pode acontecer quando se decide ousar. A TV de hoje se assemelha a uma senhora burguesa muito bem instalada num determinado padrão: em vez de querer novidades, ela quer o que já deu certo?, avalia ela.

Mais que apontar para a necessidade de novos formatos, o dramaturgo Alcione Araújo, 48, enxerga na atual fase da TV brasileira uma crise de valores sociais. ?O pathos dramático advém da convicção em determinados valores. Como esse pathos foi diluído numa sociedade que vive uma crise de discernimento, a construção dramática fica muito difícil. O problema do remake está no fato de que, quando a sociedade se transforma, ele não a emociona mais. O caráter nostálgico do remake leva a uma emoção distanciada. É uma espécie de saudade do que nunca se foi ou do que não se pode ser mais?, ressalta.

Mudança de família – Justificando o remake como ?uma tradição da casa?, a Central Globo de Comunicação (CGCom), em seu comunicado, nega que o investimento em novas versões de velhos programas seja uma forma de evitar prejuízos com fórmulas novas – como aconteceu com o Sociedade anônima, atração apresentada pelo ex-VJ Cazé Peçanha, que saiu do ar por falta de ibope. ?Um remake é um novo programa. E um bom programa não depende só de uma boa história. Há outras variáveis: o elenco, a produção, o horário e até mesmo o momento do país interferem no interesse do público. A grande família é um produto bem-sucedido. Conquistou um público cativo e vem mantendo sua audiência em torno de 20 pontos, o que é um bom resultado para o horário?, afirma a nota da CGCom.

Para Alcione Araújo, a nova versão de A grande família – que estreou na Globo em 1973 – está sendo veiculada tarde demais. ?Quando foi ao ar pela primeira vez, A grande família radicalizava os pontos de vista de dois irmãos: um a favor e outro contra a ditadura. Havia a representação de um antagonismo estereotipado que era feita numa época maniqueísta. Com o remake há uma inadequação de época, porque, na democracia, há a multiplicidade de opiniões. Além disso, a família mudou. Usaram o nome consagrado do Vianinha para legitimar uma obra que, na essência, ruiu?, sustenta Alcione.

Com a palavra, Cláudio Paiva, redator-chefe da nova versão da obra de Vianinha: ?Como criador, sou contra o exagero da onda de remakes. É falta de ousadia das emissoras e também do cinema. Por outro lado, acho louvável usar como ponto de partida textos como os do Vianinha. Neste caso, postura política é mostrar que é possível fazer um programa popular sem ser de mau gosto. Fugir da mesmice, criando novas histórias em cima do texto original?.

?Se a Emília já foi à lua, é normalíssimo que ela também viaje pela internet?, diz a roteirista Denise Bandeira, 50 anos. Co-autora da versão em espanhol da novela Vale tudo – trama de Gilberto Braga que a TV Globo exibiu em 1998 e prepara para lançar no mercado internacional em parceria com a rede americana Telemundo -, Denise considera ?saudosista e reacionária? a opinião de que o remake descaracteriza personagens que fizeram sucesso em épocas específicas. ?A cultura de massa é cultura exatamente porque consegue produzir marcos de referência para suas diversas formas de produção. Isso já vem acontecendo há tempos no cinema. Agora, é a televisão que começa a reviver os clássicos que já criou?, afirma a roteirista.

Já Alcione Araújo é da opinião de que O sítio do pica-pau amarelo – exibido pela Globo em 1977 – não fará sucesso entre as crianças de hoje. ?A geração que assistiu a O sítio era a de crianças ingênuas para as quais se trabalhava num espaço poético. Depois do surgimento da Xuxa, as crianças se sexualizaram e passaram a se colocar como adultos na maneira de se vestir e de se comportar. Para essa criança, O sítio é uma tolice. E isso é normal, porque, para cada preconceito que se quebra, perde-se uma infinidade de peças e filmes. O valor dado à virgindade na cena final de A casa de Bernarda Alba, de Lorca, por exemplo, não faz mais sentido hoje. Acho que devemos perder tantas obras quanto forem as necessárias para a sociedade avançar?, analisa o dramaturgo.

Ressaltando que a nova versão das histórias de Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho, Narizinho, Emília e Visconde de Sabugosa terá um ?olhar multimídia que faz parte do telespectador mirim?, a nota da Central Globo de Comunicação (CGCom) diz que o conceito básico do remake está na proposta de unir educação e entretenimento: ?A obra de Monteiro Lobato é muito adequada para ser levada à tela. A grande diferença desta nova versão está no tratamento visual que será dado ao programa. Hoje, a televisão tem recursos cenográficos e de efeitos especiais que não tinha na época da primeira versão. Essa linguagem visual é a que será mais trabalhada. E a interatividade será uma premissa, porque a criança de hoje tem este tipo de exigência?.

Raquel Paiva vê acomodação nestas apostas da TV hoje: ?A TV não pode esquecer que, em determinado momento, todas as formas se exaurem, até mesmo aquelas que já fizeram muito sucesso. A TV está acomodada em fórmulas que se desgastaram. É por isso que, atualmente, o remake aparece como uma saída fácil?. No caso de O direito de nascer, a saída é fácil e antiga até no novo formato. Grande sucesso na TV Tupi ao surgir em 1965 e também em 1978, a novela está de volta desde a semana passada numa versão gravada em 1997 pela produtora JPO, e desde então adormecendo na gaveta do SBT.

"?Remakes? e seqüências são receita de sucesso em Hollywood", copyright Jornal do Brasil, 27/05/01

"Os US$ 100 milhões acumulados por O retorno da Múmia em apenas dois finais de semana em cartaz nos EUA passaram uma vez mais o atestado de que fórmulas requentadas ainda podem lotar cinemas. Mesmo que receba milhares de novos argumentos todos os dias, Hollywood ainda prefere apostar nos personagens já conhecidos e aprovados pelos espectadores. Mesmo que para isto pegue emprestado um clássico como Psicose (Psycho, 1960), de Alfred Hitchcock, e o devolva como algo abominável como Psicose (Psycho, 1999), de Gus Van Sant.

A confiança dos estúdios em seqüências e remakes chegou ao ponto de a reatualização de Planeta dos macacos e a segunda continuação de Jurassic Park serem as principais produções com estréia marcada para o final da temporada do verão americano, a mais disputada da indústria. Há outros requentados, com menor badalação, na fila de estréia, como American Pie 2, Rollerball – que recria a ficção assinada por Norman Jewison em 1975- e Dr. Dolittle 2, que abusa sendo a continuação de um remake. Até 2003, chegam as seqüências dos sucessos True Lies e Todo mundo em pânico.

Todos estes filmes seguem uma cartilha de sucesso. Se no primeiro filme havia um bandido psicótico, o segundo terá um exército de malucos malvados e o mocinho ganhará um novo amigo, que geralmente é um cachorro ou um garotinho. Jurassic Park 3, por exemplo, apresenta dinossauros ainda maiores, mais inteligentes e famintos do que nos dois anteriores. Já no caso dos remakes, a receita básica é aumentar o número de efeitos especiais, vide O professor aloprado com Eddie Murphy, e pôr um ator com algum talento como vilão ou coadjuvante.

Se for preciso encontrar um culpado pelas seqüências, talvez Francis Ford Coppola seja o primeiro grande alvo, já que O poderoso chefão 2, de 1974, foi a primeira continuação a conquistar o Oscar de melhor filme. Entretanto, foi a partir de 1980, quando Império contra-ataca transformou a marca Guerra nas estrelas numa série milionária, que as continuações viraram mania. Tanto que este clássico da ficção ganhou uma nova trilogia, igualmente bem-sucedida, cujo próximo episódio chega às telas em 2002.

Os remakes, por sua vez, sempre marcaram presença na história do cinema. Basta ver que o herói de Ben Hur (1959) já participava de corridas de bigas em 1925, dirigido por Fred Niblo, e que Alfred Hitchock refez nos EUA filmes como O homem que sabia de mais, que já havia rodado na Inglaterra. Mas o mestre do suspense o fazia com sensatez, para evitar desastres do naipe de A assassina (versão americana do francês Nikita)."

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