Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Patriotada inútil

Por Dora Kramer em 20/10/1997 na edição 32

Ruim mesmo para o Brasil não é o documento do Departamento de Comércio, não são as exigências da segurança do presidente Bill Clinton, muito menos a falta de diplomacia do embaixador Melvyn Levitsky ou meia dúzia de orientações que o governo americano dê aos jornalistas que virão dos EUA acompanhando Clinton.

Muito pior para uma nação que se pretende tão altiva, moderna, resolvida e desenvolvida, é a patriotada de quinta categoria que desde a semana passada assola o país.

Ao contrário de impor um pingo de respeito a quem quer que seja, o que está se vendo serve apenas para reafirmar o que há de mais nefasto na já distorcida imagem que temos por aí afora. Nada mais exótico que considerar um ataque à soberania nacional o mero exercício do zelo pela segurança do chefe da nação mais importante do mundo.

Ou, da mesma forma como no Brasil a Justiça é célere, a Educação esplêndida, a corrupção inexistente e a segurança nas ruas divina, os Estados Unidos não são o país mais importante e seu presidente um dos homens mais visados do mundo? Se houver discordâncias, sempre se poderá revogar essa realidade em nome da preservação da integridade moral do território independente do Morro da Mangueira.

Não apareceremos exatamente como um país sério nos noticiários internacionais, caso eles resolvam centrar foco na valentia brasileira que, à falta de melhores bandeiras de luta – como o fim da corrupção, a melhoria da Justiça, da Segurança e da Educação – dedica-se a produzir malcriações estéreis.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, ao recusar-se a ir à recepção do Itamarati não teve sequer a prerrogativa do ineditismo. Copiou um dos piores momentos de seu antecessor Sepúlveda Pertence e do então presidente do Senado, José Sarney, que se recusaram a receber Alberto Fujimori.

Ora, se a falta de educação significou zero para um ditador peruano, ao presidente dos Estados Unidos é que não vai incomodar a ausência do ministro numa festa. Ficou ruim para o ministro, que poderia muito bem simplesmente não comparecer, mas preferiu construir uma conotação política onde ela inexiste e acabou dando a impressão de que fez jogada de marketing pessoal.

Fora o fato de que o Judiciário que tanto reclama do excesso de processos justificando, assim, a lentidão da Justiça, terá de ficar muito tempo sem falar no assunto. Ou então, começar a providenciar julgamentos relâmpagos.

O presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, quase contribui para o vexame completo. Pensou, mas recuou a tempo, em cancelar a visita de Clinton ao Congresso porque a segurança limitou a dez o número de parlamentares que teriam acesso ao presidente. Seria um vexame em regra pelo simples fato de que foi o Brasil quem insistiu na visita ao Parlamento, os americanos não queriam.

Quanto à exigência do encontro com grupo restrito, a queixa é estranha pois há um mês o Itamarati está dizendo que os americanos queriam uma lista prévia de quais seriam os deputados e senadores que estariam com Clinton.

Portanto, há muito se sabia que a visita não seria cercada de liberalidades e ninguém reclamou. Fazê-lo agora que a moda da estação é a impertinência em fantasia verde-amarela, pode dar a impressão de que nossas autoridades estejam apenas querendo pegar carona nessa guerra-fria estilizada que resolvemos declarar de uma hora para outra.

O bom-senso também teria poupado o superintendente da Polícia Federal, Vicente Chelotti, de uma desnecessária exposição negativa. Ele quis negar porte aos armamentos que os americanos usam para a proteção do presidente, enquanto cumpriria melhor suas funções se reservasse a mesma firmeza – e inclusive ao mesmo estardalhaço – para combater o tráfico de armas que abastece o crime, não apenas no Rio.

O superintendente, aliás, está na Índia, país onde o presidente Fernando Henrique esteve em 1996, numa visita cercada por um severíssimo esquema de segurança em que os que o acompanhavam eram milimetricamente revistados, sob a vigilância de soldados com armamentos pesados, em qualquer lugar onde fosse a comitiva. Ninguém reclamou nem se sentiu atingido em sua individualidade de brasileiro, pois esse é o costume do país que já teve governantes assassinados em atentados.

A diferença é que em relação à Índia ninguém nutre sentimento de inferioridade.

Portanto, fatos como esse são encarados dentro de sua real dimensão. E que os que reclamam da arrogância dos americanos não se iludam: os companheiros indianos, cidadãos do Terceiro Mundo como nós, também não possuem a malemolência, o charme, simpatia e o veneno que a nossa gente bronzeada resolveu agora cobrar dos louros galalaus de Tio Sam.

E tirando as trapalhadas de mister Levitsky, eles não fazem concessões ao amadorismo. São profissionais pagos para exigir o máximo. Da mesma forma que os nossos são pagos para aceitar o que estiver no limite do razoável. E, das duas dezenas de pedidos feitos pela segurança americana, pasmem nossos valentes, apenas oito foram aceitos.

(Copyright Jornal do Brasil, 13/10/97)

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