Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DE GUERRA

Paul Krugman

Por lgarcia em 28/11/2001 na edição 149

COBERTURA DE GUERRA

"O noticiário e a verdade", copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 26/11/01

"A maioria dos americanos recebe informações pela TV. E o que eles vêem é comovedor – o quadro de uma nação se comportando bem, num momento de crise. De fato, a ampla maioria dos americanos tem agido de forma resoluta e generosa.

Mas essa não é toda a história, e as imagens que a TV não mostra nada têm de comovedor. Um quadro amplo mostraria os políticos e empresários comportando-se mal, com tal comportamento sendo possível – e agravado – pelo fato de que hoje em dia, o interesse pessoal vem embrulhado na bandeira americana. Se você prestar atenção no quadro amplo, começará a perceber que a realidade é diferente daquela mostrada pela TV.

A realidade alternativa não está escondida a sete chaves. Ela está disponível a quem quer que tenha um modem, e muita gente a observa nos bons jornais. Com freqüência, você poderá encontrar os melhores relatos do que está realmente acontecendo nas seções de Economia dos jornais, porque os repórteres e analistas econômicos não tendem a ver o mundo cor-de-rosa.

Do ponto de vista de um economista, o principal indicador do que realmente está acontecendo é a tendência dos políticos, no período pós-11 de setembro, de fazerem ?transferências globais? (quantias pagas de uma só vez a um beneficiário, correspondentes a todo o contrato). Em economês, isso quer dizer pagamentos não condizentes com as atitudes do receptor e que, em decorrência, não incentivam uma mudança comportamental. Tais transferências são positivas se tiverem o objetivo de ajudar alguém em necessidade, sem reduzir a sua motivação para o trabalho. São negativas se o alegado propósito das transferências é estimular o receptor a fazer algo de útil, como investir ou contratar mais empregados.

É significativo o fato de o Congresso aprovar US$ 15 bilhões em ajuda e avais às empresas aéreas e não dar um centavo para os empregados dispensados por essas mesmas empresas. É ainda mais significativo que a Câmara dos Representantes aprove um pacote de ?estímulo? à economia que não dá quase nada aos desempregados, mas dá US$ 25 bilhões em renúncia fiscal retroativa às empresas – ou seja, é uma pura transferência de recursos às corporações, a maioria delas altamente rentável.

A maioria das análises sobre o pacote de estímulo descreve o debate em torno da questão como um conflito de ideologias. Mas as ideologias nada têm a ver com isso. Nenhuma doutrina econômica que eu conheça, de direita ou de esquerda, diz que uma transferência de US$ 800 milhões à General Motors levará essa companhia a investir mais, quando já está sentada em cima de US$ 8 bilhões.

Como observou Jonathan Chait, antes se costumava contestar a verdadeira motivação de gente como os representantes republicanos Dick Armey e Tom DeLay. Eles realmente acreditam no livre mercado ou apenas querem tirar dinheiro dos pobres e dar para os ricos? Agora estamos descobrindo.

É claro, nem tudo é ?transferência global?. A partir de 11 de setembro, também se observou um esforço sustentado, sob a cobertura da emergência nacional, para abrir terras públicas às empresas petrolíferas e a outros interesses. As autoridades dizem que tudo isso é feito em nome da segurança nacional, mas quando você percebe que as medidas se destinam a reverter regras excluindo o uso de carrinhos de neve no parque nacional de Yellowstone, a verdade começa a aparecer.

Então, qual é a verdadeira situação do país? De acordo com a TV, parece que estamos na Segunda Guerra. Mas embora a nossa causa seja justa, para 99,9% dos americanos esta guerra, travada por um pequeno quadro de profissionais altamente treinados, é um evento para o espectador. E em nosso território, não há nada que lembre um período de guerra, mas sim um período de pós-guerra, no qual os instintos normais de uma nação em conflito – com o povo envolvendo-se em torno da bandeira e confiando em seus líderes – são facilmente explorados.

De fato, os eventos atuais lembram muito o período imediatamente subseqüente à Primeira Guerra. O secretário da Justiça, John Ashcroft, está reeditando o tipo de investigação que prejudicou milhares de imigrantes suspeitos de radicalismo. Constatou-se que a vasta maioria era inocente, e alguns deles acabaram naturalizando-se americanos. Executivos da Enron parecem estar canalizando o espírito de Charles Ponzi (financista que criou uma ?pirâmide? que lesou muitos investidores). E o movimento para abrir terras públicas à exploração privada lembra movimentos anteriores que envolviam a exploração de petróleo em terras públicas. Provavelmente desta vez não houve suborno, mas as importâncias dadas às empresas na verdade são muito maiores.

O que os Estados Unidos precisam é voltar à normalidade. Não me refiro à normalidade seletiva que o governo Bush quer, na qual todo mundo volta a fazer comprar, mas a mídia continua a divulgar somente matérias comoventes e noticiário da guerra. É hora de mostrar o quadro inteiro ao povo americano. (Paul Krugman é professor da Universidade de Princeton)"

 

"Colômbia é pior país para jornalista", copyright Folha de S. Paulo, 26/11/01

"O país mais perigoso para os jornalistas não é o Afeganistão, como pode parecer à primeira vista, depois das mortes recentes na estrada para Cabul. Segundo organizações internacionais de defesa da liberdade de imprensa, a Colômbia leva o triste título.

Nove jornalistas colombianos foram mortos no exercício da profissão só neste ano. Ao menos 55 estão sob ameaça de morte, conforme um relatório do Exército. E centenas sofrem pressões diárias com o intuito de cercear a livre atividade jornalística.

?Somos elevados à categoria de alvos militares, tanto pela guerrilha de direita quanto pela de esquerda?, afirmou à Folha o radialista colombiano Antonio Gramacho. ?Não é uma honraria que nos deixa satisfeitos?, ironizou.

Os casos se sucedem. Às vezes, uma simples discrepância pode motivar a informal sentença de morte. Carlos Pulgarín, por exemplo, do maior jornal do país, ?El Tiempo?, de Bogotá, teve de se mudar para o Peru em 1999, após diversas ameaças dos paramilitares de direita das AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia).

O motivo: Pulgarín afirmara que 14 paramilitares haviam sido mortos num confronto com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, de orientação marxista), enquanto as AUC diziam que apenas dois de seus combatentes haviam morrido.

Após divulgar a informação, Pulgarín passou a receber ligações dizendo que sua família deveria começar a preparar ?um bonito funeral?, já que sua carreira como ?relações-públicas da guerrilha? estava para acabar.

Jineth Bedoya, do jornal ?El Espectador?, de Bogotá, fez uma série de reportagens sobre conflitos ocorridos na penitenciária La Modelo entre delinquentes comuns e integrantes das AUC presos. Depois disso, ela foi sequestrada, espancada e estuprada. O IPI (International Press Institute) denuncia a existência de evidências de que policiais possam estar envolvidos no sequestro.

Os abusos e ameaças não são um privilégio da extrema direita.

Segundo a organização RSF (Repórteres sem Fronteiras, baseada em Paris), as Farc e o ELN (Exército de Libertação Nacional, de orientação guevarista) intensificaram os sequestros de jornalistas. As ações teriam o objetivo de ?exigir explicações? sobre informações já publicadas e pressionar pela publicação de outras.

Em 2001, 37 jornalistas foram vítima desses ?sequestros preventivos?, entre eles o diretor do conselho editorial do telejornal ?Hora Cero?, Guillermo Cortis, mantido sob captura durante oito meses pelas Farc e resgatado pelos militares em março.

Segundo o CPJ (Comitê para a Proteção de Jornalistas), organização baseada em Nova York, mais de 170 jornalistas colombianos foram mortos por guerrilheiros e paramilitares desde 1977.

Manuel Marulanda, o ?Tirofijo?, líder das Farc, acusa a imprensa do país de estar a serviço dos monopólios e de ser parcial.

?É uma guerra diária. A vítima é sempre a liberdade de expressão?, disse o cientista político Guillermo Arantes. Mas ele coloca um porém: ?Numa sociedade que se acostuma a tamanha violência cotidiana, não podemos descartar que delinquentes comuns se apresentem como guerrilheiros para cometer crimes?.

Apesar da ressalva de Arantes, o Repórteres sem Fronteiras afirma que as mortes de jornalistas são sim ligadas, em sua maioria acachapante, a ações ligadas diretamente à guerra civil.

Luta fratricida

A Colômbia vive uma luta fratricida há quase 40 anos. As Farc e o ELN enfrentam tanto o Exército quanto paramilitares de extrema direita. Principal guerrilha, as Farc dominam uma zona desmilitarizada de 42 mil km2 (quase quatro vezes o Estado do Rio) no sul do país e têm cerca de 15 mil combatentes. O ELN (4.500 membros) quer uma área de status semelhante no norte.

Ano passado, as Farc iniciaram um processo de paz com o governo do presidente Andrés Pastrana. Mas o governo acusa as Farc de usar em vão o discurso da paz e de utilizar a zona desmilitarizada para manter vítimas de sequestros, treinar guerrilheiros e produzir cocaína."

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