Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DE GUERRA

Paul Krugman

Por lgarcia em 26/02/2003 na edição 213

COBERTURA DE GUERRA

“Por que os europeus são contra a guerra?”, copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 19/02/03

“Especula-se muito sobre o motivo das repentinas divergências entre a Europa e os Estados Unidos. Será uma questão cultural? Ou histórica? Mas não tenho ouvido muitos debates sobre uma coisa óbvia: nós temos pontos de vista diferentes porque, em parte, nós recebemos informações diferentes.

Vamos recapitular. Muitos americanos culpam agora a França pelo esfriamento nas relações entre os EUA e os europeus. Fala-se até mesmo num boicote aos produtos franceses. Mas a atitude da França não é excepcional. As enormes manifestações de sábado passado confirmaram as pesquisas segundo as quais há uma profunda desconfiança em relação ao governo Bush e ceticismo sobre uma guerra contra o Iraque em todas as nações européias importantes, não importa a posição que os respectivos governos possam adotar sobre o assunto. De fato, as maiores manifestações ocorreram em países cujos governos estão apoiando o governo Bush.

Também houve grandes manifestações nos Estados Unidos. Mas a desconfiança em relação aos EUA no exterior chegou a tal nível, mesmo entre os nossos aliados britânicos, que uma recente pesquisa feita na Grã-Bretanha apontou os Estados Unidos como o país mais perigoso do mundo – à frente da Coréia do Norte e do Iraque.

Então, por que outros países não vêem o mundo do modo que nós vemos? A cobertura jornalística é grande parte da resposta.

O novo livro de Eric Alterman, Que mídia liberal?, não se apega a comparações internacionais. Mas a diferença entre o noticiário a que os americanos e os europeus têm acesso é uma perfeita demonstração de seu ponto de vista. Ao menos quando comparada com as de outros países, a mídia americana ?liberal? é surpreendentemente conservadora – e neste caso, bastante. Não estou me referindo principalmente à mídia impressa. Há diferenças, mas os principais jornais dos Estados Unidos e do Reino Unido pelo menos parecem estar descrevendo a mesma realidade.

Porém, a maioria das pessoas recebe informações pela TV, e aqui a diferença é imensa. A cobertura das passeatas de sábado contra a guerra pelas redes de TV a cabo dos Estados Unidos, em particular, parecia a cobertura dos acontecimentos em algum outro planeta, comparada à da mídia estrangeira.

Quem assistiu aos noticiários das TVs a cabo viu o quê? No sábado, os ?âncoras? da rede de TV Fox (que apóia o governo) descreveram os ativistas em Nova York como ?os manifestantes de sempre? ou ?os manifestantes em série?. A CNN não foi tão relapsa, mas no domingo cedo, a manchete do site dessa rede na internet era ?Manifestações contra a guerra agradam ao Iraque?, e a foto que ilustrava a notícia era de manifestantes em Bagdá, não em Londres ou Nova York.

Este não foi, em absoluto, o modo como a mídia do resto do mundo relatou os eventos de sábado, embora não tivesse fugido do padrão normal. Há meses, as duas maiores redes informativas de TV a cabo dos EUA têm agido como se a decisão de invadir o Iraque já tivesse sido tomada e, com efeito, elas consideram seu dever preparar o público americano para a guerra iminente.

Assim, não surpreende que o público-alvo encontre uma certa dificuldade em discernir entre o regime iraquiano e o grupo Al-Qaeda. Pesquisas demonstram que a maioria dos americanos acha que alguns ou todos os seqüestradores envolvidos nos ataques de 11 de setembro de 2001 eram iraquianos, enquanto muitos acreditam que Saddam Hussein esteve envolvido naqueles atentados, uma acusação que nem mesmo o governo Bush chegou a fazer. E já que muitos americanos acham que a necessidade de uma guerra contra Saddam é óbvia, eles acham que os europeus que não acompanham os EUA são covardes.

Os europeus, que não vêem as mesmas coisas na TV, estão muito mais inclinados a perguntar por que o Iraque – e não a Coréia do Norte, ou mesmo a Al-Qaeda – se tornou o foco da política americana. &EacuteEacute; por isso que muitos deles questionam os motivos dos Estados Unidos, suspeitando que se trata apenas de uma questão relativa ao petróleo, ou que o governo está apenas escolhendo um inimigo conveniente que sabe que pode derrotar. Eles não consideram covardia se opor a uma guerra contra o Iraque. Consideram isso um ato de coragem, uma questão de resistência a um governo provocador como o governo Bush.

Há duas explicações possíveis para a grande divergência entre a mídia transatlântica. Uma, é que a mídia européia tem uma tendência antiamericana que a leva a distorcer os fatos, mesmo em países como o Reino Unido, onde os líderes dos dois principais partidos estão com Bush e apóiam um ataque contra o Iraque. Outra, é que alguns setores da mídia americana – trabalhando num ambiente em que qualquer pessoa que questionar a política externa do governo é acusada de não ser patriota – consideram seu dever vender a guerra, e não apresentar informações variadas que possam contestar a justificativa para o conflito.

Qual explicação é a verdadeira? Eu relatei os fatos, você decide.

Paul Krugman é professor da Universidade de Princeton”

“Internet, o novo palco dos protestos antiguerra”, copyright O Globo, 21/02/03

“Tendo por garoto-propaganda o ator Martin Sheen, que interpreta um presidente dos Estados Unidos no seriado ?The West Wing?, os grupos Win Without War (vencer sem guerra) e MoveOn.Org estão conclamando os americanos a uma demonstração virtual de repúdio à guerra contra o Iraque.

No próximo dia 26, parlamentares federais receberão uma enxurrada de faxes, telefonemas e emails. Já há 50 mil voluntários para direcionar o protesto por intermédio da página www.moveon.org. Mas o número poderá ser bem maior, uma vez que, segundo os responsáveis pelo site, a rede de ativistas on-line tem mais de 600 mil pessoas inscritas. A idéia é dar um telefonema por minuto para cada senador (são cem) e também para a Casa Branca. As chamadas e os emails serão enviados durante o horário comercial.

Sheen aparece na propaganda televisiva divulgada pelos grupos anteontem em Los Angeles, afirmando que ?a mensagem para Washington será clara: não invada o Iraque?. A propaganda será inicialmente veiculada nos canais de telejornalismo CNN, MSNBC e Fox News.

Emails e números de fax e telefone dos gabinetes dos parlamentares americanos são informação de interesse público e portanto estão disponíveis no site do Congresso (www.house.gov e www.senate.gov).

Se a internet se transformou em arma na luta contra a guerra nos EUA, na tradicional Grã-Bretanha os dois principais líderes cristãos do país, num raro comunicado conjunto divulgado na noite de quarta-feira, discordaram publicamente de motivos alegados pelo premier britânico, Tony Blair, para a invasão. Segundo eles, ainda existem sérias dúvidas sobre a legitimidade moral da guerra, pregada pelo premier semana passada.

O arcebispo de Canterbury, Rowan Williams, líder espiritual dos 70 milhões de anglicanos do mundo, e o cardeal Cormac Murphy-O?Connor, líder dos católicos da Inglaterra e do País de Gales, ressaltaram que o presidente iraquiano, Saddam Hussein, deve respeitar as resoluções da ONU que exigem que o país destrua possíveis armas de destruição em massa.

– A guerra é sempre uma possibilidade profundamente perturbadora e nunca pode ser vista sem um sentimento de fracasso e arrependimento, sabendo que outros meios não prevaleceram.

Músicos também protestam contra a ameaça ao Iraque

Já na cena pop, a festa anual de entrega de prêmios da indústria fonográfica virou palco para protestos contra a guerra. A grande vencedora da noite, Ms. Dynamite, afirmou não suportar mais ver crianças morrendo.”

“EUA expulsam o único jornalista iraquiano no país”, copyright O Estado de S. Paulo, 23/02/03

“Os preparativos para a guerra nos EUA estão sendo acelerados à medida que se aproxima o dia da ofensiva militar. Uma das providências diz respeito ao tratamento dispensado à imprensa iraquiana representada nos EUA. Washington decidiu expulsar o único jornalista iraquiano credenciado no país, mais especialmente em Nova York, junto às Nações Unidas. Trata-se de Mohammed Hassan Allawi, representante da Agencia Iraquiana de Imprensa.

Esta é a primeira vez que o governo americano decide expulsar um jornalista devidamente credenciado de seu território, mesmo não sendo novidade o fato de alguns espiões terem conseguido circular pelos corredores da ONU com carteiras de imprensa. Muitas vezes, os serviços de contra-espionagem dos países desenvolvidos chegam a admitir essas pessoas, considerando essa a forma mais fácil de controlá-las.

Mas esse não parece ter sido o caso do representante da agência iraquiana, cuja ordem de expulsão foi assinada por um diplomata americano, Patrick Kennedy, que considerou que sua presença poderia ?prejudicar os interesses dos EUA? e fixando o dia 28 para que ele deixe o país. Hassan Allawi, 38 anos, não está protestando. Pelo contrário, procura evitar muita onda, preferindo deixar Nova York no dia da reunião do Conselho de Segurança (CS), quando os inspetores da ONU irão apresentar novo relatório sobre o desarmamento de seu país.

?Respeito a decisão americana e não pretendo promover nenhuma escalada com essa história?, disse o jornalista que faz parte da comunidade iraquiana – ao todo 300 mil pessoas vivendo nos EUA, desde o mês de novembro sob observação das autoridades.

Allawi estava no posto de correspondente havia mais de dois anos, mas seu estatuto não lhe permitia sair do perímetro de Nova York. Seus cinco filhos de 8 a 16 anos estudam em escolas públicas da cidade e nunca sentiram a menor discriminação, razão pela qual reagiram com estupefação quando foram informados da expulsão. O presidente da Associação dos Correspondentes de Imprensa, Tony Jenkins, explicou que nenhuma prova foi apresentada contra Allawi, provando que ele possa ser um agente iraquiano e não um jornalista.

Em contrapartida, no Iraque, Saddam Hussein procura manipular, quando possível, a imprensa ocidental. Ele a utiliza conforme seu interesse, abrindo e fechando o país a jornalistas estrangeiros. Isso ocorre desde os tempos da guerra com o Irã. Na época, enquanto havia a expectativa de uma vitória rápida sobre um Irã desorganizado e desestabilizado pelo regime recém-instalado dos aiatolás, centenas de jornalistas receberam visto de entrada.

Como a guerra contra o Irã se prolongou, o interesse pela presença de um grande número de jornalistas estrangeiros diminuiu. Afinal, eles contestavam as vitórias militares anunciadas pelo regime. Os agentes do Ministério da Informação, verdadeiros policiais, passaram a dificultar a missão jornalística, cortando a luz nos hotéis e bloqueando os aparelhos de telex.

O ministério organizava, diariamente, viagens de ônibus de jornalistas até a Jordânia.

No hall dos hotéis reservados a jornalistas, surgiam listas de ?candidatos? à viagem, sem que a maioria tivesse feito inscrição. Os que não compareciam ao embarque eram ?aconselhados? a partir no dia seguinte, pois já haviam visitado, em verdadeiros charters rodoviários, organizados pelas autoridades, as frentes de combate de maior interesse iraquiano.”

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