Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >   JORNALISMO MULTIMÍDIA / EUA

Paul Krugman

Por lgarcia em 20/05/2003 na edição 225

SARS & CENSURA

“A síndrome da China”, copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 14/05/03

“Uma coisa engraçada aconteceu durante a guerra no Iraque: muitos americanos voltaram-se para a BBC em busca de noticiário televisivo.

Estavam procurando um ponto de vista alternativo – algo que não conseguiam encontrar nas redes de televisão americanas, que, segundo as palavras do diretor-geral da BBC, ?se enrolaram na bandeira americana e substituíram a imparcialidade pelo patriotismo?.

Deixe de lado os erros e acertos da própria guerra e considere o paradoxo. A BBC é de propriedade do governo britânico e poderia se esperar que apoiasse as políticas desse governo. Mas, na realidade, a estação tentou arduamente – arduamente demais, segundo alguns críticos – permanecer imparcial. As redes de televisão dos EUA são de propriedade particular e, no entanto, se comportaram como se fossem uma mídia controlada pelo Estado.

O que explica esse paradoxo? Talvez tenha algo que ver com a síndrome da China. Não aquela que diz respeito a reatores nucleares, mas aquela mostrada pela News Corps de Rupert Murdoch quando negociou com o governo da República Popular da China.

Nos Estados Unidos, o império de mídia de Murdoch, que inclui a Fox News e o The New York Post, é conhecido por seu patriotismo fanático.

Mas todo esse patriotismo não o impediu, como publicado na revista Fortune, de ?fazer as vontades do regime repressor chinês para conseguir que sua programação entrasse nesse enorme mercado?. Os paparicos incluíram a retirada da sua programação por satélite do World Service da BBC – que noticia coisas que o governo da China não quer que sejam disseminadas – e fazer sua casa editora cancelar a publicação de um livro criticando o regime chinês.

Pode uma coisa como essa acontecer neste país? É claro que pode. Por meio de suas decisões políticas – particularmente, mas não apenas, por meio de decisões que digam respeito à regulamentação da mídia -, o governo dos Estados Unidos pode recompensar empresas de mídia que o agradam e punir as que o desagradam. Isso incentiva as redes privadas a bajular aqueles que estão no poder. Porém, como as redes não são de propriedade estatal, não estão sujeitas ao escrutínio enfrentado pela BBC, que precisa tomar cuidado para não parecer uma ferramenta a serviço do partido governante. Portanto, não devia nos surpreender o fato de a televisão americana ?independente? ser muito mais deferente para com os que estão no poder do que os sistemas controlados pelo governo como na Grã-Bretanha ou – para dar outro exemplo – em Israel.

Uma reportagem recente de Stephen Labaton no The New York Times continha uma bela ilustração da habilidade do governo dos EUA de recompensar as empresas de mídia que fazem o que o governo quer. A questão foi uma proposta de Michael Powell, presidente da Federal Communications Commission (Comissão Federal de Comunicações), para tornar menos rígidas as normas sobre propriedade de mídia. A proposta, apresentada oficialmente na segunda-feira, pode ser resumida como um plano para permitir que peixões engulam mais peixinhos. Será permitido às grandes empresas de mídia ter uma participação maior do mercado nacional e mais estações de televisão do que em qualquer mercado local.

Além disso, muitas restrições sobre ?propriedade cruzada?, ou seja a posse de estações de rádio, estações de televisão e jornais no mesmo mercado local, serão suspensas.

Fora os defeitos do plano – que irá reduzir a diversidade de notícias disponíveis para a maioria das pessoas -, o que mais me surpreendeu foram as negociações de bastidores. Um grupo de mídia escreveu para Powell, desistindo de sua oposição a uma parte de seu projeto ?em troca de uma ação favorável da comissão? sobre um outro assunto. Isso foi leviano, mas é preciso ser muito ingênuo para não imaginar que tenha havido muitas trocas implícitas de favores por lá.

E essa troca implícita certamente se estende ao conteúdo das notícias.

Imagine um executivo do noticiário de TV considerando se deve levar ao ar uma reportagem de peso que possa prejudicar o governo Bush. Por exemplo, um lembrete sobre a acusação feita pelo senador Bob Graham de que foi mantido confidencial um relatório do Congresso sobre o 11 de setembro porque este traria à baila questões embaraçosas em relação ao desempenho do governo.

Certamente, ocorreria a esse executivo que o governo poderia punir qualquer rede que levasse ao ar essa reportagem.

Neste ínterim, tanto as normas formais quanto os códigos de ética que antes impediam a partidarismo descarado sumiram ou estão sendo ignorados. Neil Cavuto, da Fox News, é um âncora, não um comentarista.

Mesmo assim, após a queda de Bagdá, ele disse ?àqueles que se opuseram à libertação do Iraque? (uma grande minoria): ?Vocês, que ficaram aborrecidos então, estão aborrecidos agora.? Imparcial e equilibrado.

Não temos censura neste país, ainda é possível encontrar opiniões diferentes. Mas, de fato, temos um sistema no qual a mídia mais poderosa tem fortes incentivos para apresentar as notícias de uma forma que agrade ao partido que está no poder e nenhum incentivo para fazer o contrário. Paul Krugman é professor da Universidade de Princeton”

 

EUA vs. FRANÇA

“Você acredita em tudo que lê?”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 16/05/03

“O embaixador francês nos Estados Unidos, Jean-Daniel Levitte, escreveu um texto, cuja leitura deveria ser obrigatória em todos os cursos de jornalismo, numa carta-acusação entregue à Casa Branca e ao Congresso sobre calúnias que, segundo ele, vêm sendo divulgadas contra a França, através da imprensa, em declarações off dadas por fontes do governo norte-americano.

Levitte relaciona nove casos de manipulação do noticiário para criar um clima hostil na opinião pública contra seu país. Mas o mais recente e que fez transbordar o cálice de sua paciência diplomática foi uma matéria publicada pelo Washington Times – jornal do reverendo Moon e conhecido por suas relações mais do que amistosas com os subterrâneos da administração Bush.

O WT informou que ?fontes da inteligência americana haviam sugerido que funcionários franceses haviam ajudado líderes iraquianos a fugir para a Europa e escapar dos militares americanos, fornecendo-lhes passaportes?. Ninguém do governo dos Estados Unidos confirmou oficialmente isso, mas o próprio porta-voz da Casa Branca, Ary Fleischer, também ?sugeriu? aos jornalistas que perguntassem aos franceses se a notícia era verdadeira. Para completar, outros funcionários graduados espalharam em ?off? que essa dica havia sido recebida por agências secretas americanas e ?estava sendo investigada mas não tratada como necessariamente verdadeira ou crível?, segundo relato da rede CNN online.

Nem mesmo um embaixador consegue aturar uma armação tão descarada. Especialmente depois dos outros muitos casos, citados na carta, de falsas informações sempre atribuídas a ?fontes da inteligência americana?: França e Alemanha teriam fornecido ao Iraque em 1988 equipamento usado para detonar armas nucleares; a França teria culturas proibidas do vírus da varíola; um suposto relatório acusando empresas francesas de vender ao Iraque peças sobressalentes de aviões e helicópteros; várias ?histórias? sobre venda de componentes para mísseis de longo alcance, equipamentos de radar e aviões etc. etc.

?Não podemos aceitar que sejamos repetidamente acusados em noticiário surgido de fontes da administração a respeito de coisas que não fizemos. Quem fez isso? Por que??, pergunta o habitualmente tranqüilo Jean-David Levitte.

Um funcionário graduado da Casa Branca disse à CNN em off que as alegações de Levitte são ?ridículas?. Mas o subsecretário da Casa Branca se dispôs a repetir em on uma recente observação de Colin Powell, secretário de Estado: ?Estados Unidos e França visitam um conselheiro matrimonial há 200 anos?.

******

Você acredita em tudo que lê?

John Kampfer, um repórter da BBC, daqueles bem tinhosos e que são o orgulho de nossa profissão, é responsável pela história do ano, que ele mesmo classificou como ?uma das mais assustadoras peças de manipulação da mídia jamais concebida?.

E é. Nenhum jornalista ou estudante de jornalismo pode deixar de ler a matéria que está hoje em nossos jornais sobre o cinematográfico e falso resgate da soldado Jessica Lynch, enquanto a versão mais completa pode ser lida no site da BBC online.

Kampfer fez o que os jornalistas americanos não fizeram. Foi caladinho, sem chamar a atenção, até o hospital de Nassiriya e ouviu todo o pessoal médico que a atendeu. Sua matéria desmoraliza a subserviência com que os correspondentes credenciados aceitaram as versões e imagens oficiais.”

 

JORNALISMO MULTIMÍDIA / EUA

“Lei pode estimular repórter multimídia”, copyright O Estado de S. Paulo, 15/05/03

“Nesta cidade ensolarada da Flórida, fotógrafos do jornal Tampa Tribune carregam câmeras de fotografia e filmagem para todas as reportagens. É que eles também trabalham para a estação de TV local WFLA-TV Canal 8. A combinação funciona, mas nem sempre. Uma vez, na cobertura de um assalto a banco no qual um policial foi baleado, o câmera não teve tempo de trocar a filmadora pela máquina fotográfica e o jornal teve de se contentar com uma foto granulada de vídeo na primeira página.

O jornalismo do futuro, no qual parcerias como essa poderão se tornar rotina, ainda precisa apertar alguns parafusos. O Tampa Tribune não ganha um Prêmio Pulitzer há quase 40 anos, mas é observado de perto por uma série de publicações e empresas jornalísticas. Três anos atrás, a Media General, dona do Tribune, investiu US$ 50 milhões no projeto de casamento entre o jornal e sua estação de TV. A união, permitida por uma brecha na lei, foi a primeira tentativa de pôr uma publicação impressa e uma emissora sob o mesmo teto.

No momento em que a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC), estuda relaxar a regulamentação de 1975, que não permite às empresas operarem um jornal e uma emissora no mesmo mercado, a união Tribune-WFLA virou o laboratório do que poderá ser a mídia, diante de uma nova onda de fusões.

Votação – A FCC deve votar as regras do setor no dia 2 de junho. Seus três integrantes republicados, dois dos quais já visitaram a redação em Tampa, são a favor da fusão jornal-televisão, a não ser em mercados muito pequenos, segundo fontes próximas à agência reguladora.

Outras reformas analisadas pela FCC incluem limites no número de estações de TV de uma empresa no de assinantes de grandes operadoras de cabo. Mudanças de última hora podem ocorrer, mas a regras gerais já parecem definidas para a porcentagem da audiência nacional de uma emissora (atualmente limitada a 35% dos domicílios, podendo subir para 45%) e para o número de estações de rádio de uma companhia num mesmo mercado.

Segundo o chairman da FCC, Michael Powell, a regulamentação provavelmente será liberalizada, permitindo que empresas mantenham suas propriedades atuais, com espaço para pequenas expansões.

A convergência em Tampa e algumas outras cidades só foi possível porque uma única empresa já era dona de um jornal e uma emissora quando a proibição entrou em vigor. A desregulamentação deverá dar a largada para uma corrida entre donos de jornais e emissoras, incluindo New York Times Co., Belo Corp., Hearst-Argyle Television Inc. e Gannett Co., para comprar e negociar fusões estratégicas. ?Isso vai abrir a porta para mais combinações?, diz o analista de jornais John Morton. ?Mas a idéia de combinar TVs e jornais é ainda um fenômeno recente. Não sabemos como vai funcionar.?

Teste – A experiência de Tampa, por enquanto, promete menos que uma revolução. Os orçamentos e as equipes para jornal e TV são praticamente iguais e os pacotes especiais de anúncios somaram apenas 2% aos rendimentos do Tribune no ano passado. Ao mesmo tempo, tentativas de criar um estilo de ?repórter multimídia?, que faz TV e jornal, fracassaram.

Em três anos de trabalho, apenas um repórter do jornal produz reportagens regularmente para a TV.

Editores do Tribune, entretanto, destacam melhorias no jornal. ?Trabalhando com a TV, você precisa ser mais rápido?, diz o editor-executivo, Gil Thelen.

?Passamos de um jornal medíocre para um jornal que é bom.?

Analistas de mídia estão mais apreensivos. ?A sinergia pode ser boa para as empresas, mas é ruim para o jornalismo?, diz o presidente emérito do Instituto Poynter para Estudos de Mídia, Robert Haiman, consultor do Tribune e ex-editor-executivo do concorrente, o St. Petersburg Times.

Sem a proibição da dupla propriedade, especialistas temem que jornais caiam em grandes conglomerados de mídia e redes de TV, como AOL Time Warner, Viacom e News Corp., que poderiam enfatizar mais entretenimento e lucros, e menos jornalismo e serviço comunitário. Haiman ressalta que jornais e TVs têm culturas de trabalho distintas e fusões desse tipo podem desviar os jornais de seu tradicional rigor e trabalho investigativo. ?A estação de TV pode se beneficiar, mas o jornal é prejudicado.?

Quando a redação consolidada foi inaugurada, entusiastas da sinergia previam que a parceria permitiria que jornal e TV trabalhassem juntos nas reportagens, cada um cobrindo um ângulo diferente e, eventualmente, trocando informações em benefício de ambos. Críticos suspeitavam que a verdadeira idéia era mandar apenas um repórter para cada reportagem e demitir o outro.

Nenhuma das duas previsões parece ter se concretizado. Editores descobriram que, freqüentemente, jornal e TV não estão interessados na mesma história.

E, quando algo grande acontece, cada um acaba mandando seu próprio repórter.

A maioria dos repórteres do jornal não se adaptou às câmeras e muitos não concordam com o fato de receberem a mais pelo trabalho na TV, apresentando reportagens completas ou resumos de notícias do jornal. Mesmo com treinamento, os jornalistas aparecem nervosos e suando diante das câmeras.

?Foi um desastre?, conta o repórter policial Keith Morelli. ?Eles dizem:

?Não de preocupe, é apenas uma entrevista de dois minutos?. Bem, são dois minutos muito longos.? (Los Angeles Times e Reuters)”

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