Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > COBERTURA DA GUERRA

Paulina Leiva

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

COBERTURA DA GUERRA

"Entrevista exclusiva: A rede de TV árabe que transmite as mensagens de Bin Laden", copyright Terra (www.terra.com.br), 10/10/01

"No domingo, 7 de outubro, a estação de TV Al-Jazeera tornou-se famosa no mundo ocidental ao transmitir o discurso ameaçador de Osama Bin Laden. Suas notícias por satélite e pela Internet têm demonstrado que – diferente do ocorrido durante a Guerra do Golfo – só a CNN não basta para informar.

Ehmed Shouly, produtor da TV árabe Al-Jazeera, contou detalhes exclusivos a Terra Chile sobre como o grupo de Osama Bin Laden faz chegar até eles seus explosivos vídeos, cujas transmissões converteram a emissora de Qatar em uma verdadeira CNN do Oriente Médio. Na verdade, a própria CNN vem recorrendo às imagens da Al-Jazeera para não perder terreno em uma guerra difícil de cobrir com vídeo.

Durante a entrevista telefônica, o produtor também desmentiu que tenham recebido pressões do governo de George W. Bush ou da CNN para não transmitir imagens distribuídas pelo Talibã ou aquelas que mostrem a destruição deixada pelos mísseis norte-americanos.

Terra – Como vocês conseguiram o vídeo transmitido no domingo, onde Osama Bin Laden faz suas declarações ameaçadoras?

Foi gravado pelo grupo de Bin Laden e enviado ao nosso escritório em Cabul. Eles nos passaram o material.

Terra – Bin Laden tem um grupo que faz isso?

Eles têm sua própria gente para isso, não estou certo de como o fazem. Mas eles gravaram a mensagem e a passaram ao nosso chefe em Cabul.

Terra – Vocês receberam o vídeo no mesmo dia ou já o tinham antes?

Chegou ao nosso escritório em Cabul no domingo. Revisamos e duas horas depois pusemos no ar.

Terra – Vocês vinham tentando entrevistar Bin Laden?

Sim, mas não conseguimos contatá-lo. Quando eles têm informações para transmitir, entregam ao nosso escritório em Cabul. Assim é que funciona.

Terra – Seus jornalistas estão tentando contatá-los?

Não tenho certeza…

Terra – Acha que Osama lhes enviará alguma outra declaração?

Não tenho como saber, estamos falando do futuro.

Terra – Por que o regime talibã escolheu a sua estação de TV?

Porque somos a única que sempre esteve ali. Foi assim.

Terra – Vocês são a única estação de TV autorizada pelo regime talibã a transmitir continuamente a partir do território afegão?

Sim, isso é certo.

Terra – Sofrem algum tipo de censura?

Não. Nós temos capacidade de transmitir desde Cabul, por isso somos a única transmitindo de lá. Estas imagens não são censuradas, mas ao mesmo tempo cobrimos a guerra pelos dois lados: de Washington e de Cabul. Temos um representante em Washington, mostramos as coletivas de imprensa de lá ao vivo. Qualquer coisa que fale Bush ou sua gente, transmitimos. Então, cobrimos a guerra pelos dois lados.

Terra – O governo talibã impôs alguma condição sobre as imagens transmitidas?

Não. Nós não aceitamos nenhuma condição, nem dos talibãs nem dos norte-americanos. Se consideramos que o material é notícia, tem interesse público, transmitimos. Mas não aceitamos nenhum tipo de condição.

Terra – Não sentem que Bin Laden ou os talibãs estejam usando vocês?

Não somos uma plataforma para Bin Laden ou o regime talibã. De fato – ao contrário do que muitos pensam – eles não estão contentes conosco porque há muito material que nos têm passado e que não transmitimos. Então, não estão assim tão contentes. Mas acontece que somos a única estação de televisão lá. Assim é, mas não aceitamos ser plataforma para ninguém.

Terra – Vocês recebem algum tipo de pressão por parte do governo Bush ou da CNN para não transmitir todas as imagens entregues pelo regime talibã ou Bin Laden?

Não. Na verdade, o repórter da CNN trabalha com os nossos. Quase todas as nossas imagens são transmitidas pela CNN. Estamos cooperando com eles, e eles conosco. O negócio é limpo e claro. Estamos apenas fazendo o nosso trabalho. Se a CNN estivesse em Cabul, teria feito o mesmo. (Os repórteres de outras redes internacionais estão reunidos no norte do Afeganistão, controlado pela Aliança do Norte, oposição ao regime do talibã).

Terra – Há especulações de que Osama Bin Laden não está no Afeganistão. Como conhecedor da região e de acordo com o vídeo que ele enviou, você crê que ele está mesmo no país?

Claro que sim. As imagens mostram claramente que ele está no Afeganistão.

Terra – Porque claramente? Como se pode deduzir isso?

Primeiro, porque se nota que foi gravado em um centro de treinamento. E onde poderia haver um centro de treinamento além do Afeganistão? E segundo, pelas pessoas que se vê ao lado de Bin Laden. Não é preciso ser um gênio para deduzir isso.

Terra – Quantas pessoas a Al-Jazeera tem no Afeganistão neste momento?

Somos três pessoas, incluindo o cinegrafista.

Terra – Como é financiada sua estação de TV?

Recebemos dinheiro do governo de Qatar. Não é um país pobre. Além disso, recebemos muito dinheiro da publicidade.

Terra – De acordo com sua experiência no Oriente Médio, acredita que os ataques vão durar muito mais?

Sou um jornalista, não um analista político. Não sei, só trabalho com notícias diárias.

Terra – Segundo as imagens que vocês têm transmitido, é muito grande o dano causado pelos ataques dos aliados contra o Afeganistão?

É o que se vê na televisão. Desculpem, mas não poderei continuar falando. Temos uma transmissão ao vivo agora mesmo."

"A história da Al-Jazeera", copyright Terra (www.terra.com.br), 10/10/01

"A cadeia de televisão de Qatar foi fundada em 1996 e atualmente é o canal de notícias mais importe e influente do mundo árabe.

A Al-Jazeera começou a funcionar com grande influência da BBC de Londres, pois quando foi criada seus executivos contrataram o pessoal da ex-BBC Árabe.

Sua abertura para transmitir todo tipo de temas já incomodou mais de um país, do Golfo Pérsico e do Ocidente. Durante a Guerra do Golfo, por exemplo, a TV transmitiu vários discursos de representantes iraquianos, inclusive Saddam Hussein. Ele preferiu a estação árabe em vez da CNN ou da BBC.

Ainda que mostre programas de discussão sobre os conflitos entre países árabes e suas diferenças políticas, a audiência deixa claro que o público da região prefere a pluralidade desta estação."

 

"TVs amargam perdas e danos da guerra", copyright Globonews.com, 9/10/01

"O banco internacional de investimentos UBS Warburg calcula que as redes de televisão americanas perderam US$ 350 milhões em faturamento na semana dos ataques terroristas, porque recusaram comerciais durante a cobertura. Por motivos éticos, as redes tradicionais não transmitiram publicidade durante quatro dias seguidos, e a CNN passou seis dias sem anúncios.

A preocupação financeira de todas agora é com o custo de cobertura da guerra no Afeganistão. A BBC, com sede em Londres, teve de apelar a seu fundo de contingência para cobrir as despesas de cobertura, que já chegam a US$ 1,5 milhão por semana, desde os ataques suicidas em solo americano. A rede britânica já mobilizou 135 pessoas pelo mundo, para cobrir as ações militares.

A CNN, que tem 30 birôs de jornalismo fora dos Estados Unidos, alocou US$ 1 milhão extra de verba semanal para a cobertura – fora os custos regulares. A rede americana deslocou 70 pessoas para a vizinhança do Afeganistão, e o gasto de manter esse pessoal na área vai somar-se às despesas operacionais, sobretudo transmissões de satélite. A CNN transmite 20 versões diferentes de sua programação pelo mundo (Ásia, Europa, América Latina etc.), além da que é exibida nos próprios Estados Unidos.

Mas desde o início dos ataques anglo-americanos ao Afeganistão, quem tem passado a perna nas grandes redes internacionais é uma nova emissora árabe só de notícias, Al Jazeera, com sede em Qatar e transmissões bem recebidas em todo o mundo árabe.

Como ocorreu com a CNN no Iraque, durante a Guerra do Golfo, Al Jazeera foi a única autorizada pelo Governo a permanecer no Afeganistão. Tem um repórter e cinegrafista em Cabul entrando no ar via satélite, provavelmente com equipamento portátil. Foi por este canal que Osama bin Laden se comunicou com o mundo, no domingo do ataque aliado – embora com video claramente gravado antes, pois mostrava dia claro e o bombardeio só começou à noite. Alguns altos funcionários americanos não estão gostando nem um pouco da atuação da emissora árabe e, segundo relatos na imprensa, já teriam reclamado com os proprietários. Acusam Al Jazeera de fazer propaganda antiamericana. Como se o Pentágono também não tentasse manipular a informação – ou ninguém notou o esforço para divulgar as imagens dos pacotes de alimentos sendo lançados do ar para refugiados afegãos?

É do jogo e só comprova a frase gasta, porém verdadeira de que, em qualquer guerra, a primeira vítima é a verdade."

"Al Jazeera, a nova estrela da telinha", copyright Globonews.com, 8/10/01

"Na Guerra do Golfo, o mundo aprendeu o significado da sigla CNN. Agora, a nova guerra americana começa a projetar outra marca televisiva: Al Jazeera, rede de televisão do Catar. A emissora, que banca oitenta e cinco correspondentes mundo afora, é a única autorizada pela milícia Talibã a manter uma equipe na capital afegã, Cabul. Nas últimas semanas, Al Jazeera (?A Península?, em árabe) deu grandes ?furos? na cobertura do conflito. Mostrou o desaparecido Osama Bin Laden em imagens e depoimentos exclusivos, mandando recados e ameaças para os Estados Unidos. O último, divulgado ontem, parecia estar pronto, na gaveta, só aguardando o ataque americano acontecer – sinal de extrema confiança entre o entrevistado e a emissora, que deve ter se comprometido a usar a gravação apenas depois de a guerra começar.

E, hoje, a rede de TV do Catar marcou outro gol: seu correspondente em Londres foi chamado à residência oficial do primeiro-ministro britânico, na Downing Street. Tony Blair queria rebater a fala de Bin Laden e dar um recado direto à opinião pública do mundo árabe. Escolheu Al Jazeera – campeã de audiência em 22 países árabes. Graças a Alá."

    
    
                     
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