Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > EUA / FRAUDES NO NYT

Paulo Sotero

Por lgarcia em 14/05/2003 na edição 224

EUA / FRAUDES NO NYT

“?Boston Globe? também investiga textos de repórter”, copyright O Estado de S. Paulo, 13/05/03

“O jornal The Boston Globe anunciou ontem que identificou ?um número limitado de textos com problemas? escritos pelo repórter Jayson Blair antes de ter sido contratado pelo The New York Times. No domingo, o Times saiu com uma reportagem de quatro páginas na qual admitiu ter publicado notícias falsas e plagiadas assinadas pelo jornalista.

Blair trabalhou para o Globe em fins de 1998 e início de 1999. Escreveu 85 textos. ?Vamos continuar a investigação e checar procedimentos internos de modo que esta infração à ética jornalística não ocorra no futuro?, disse o diretor do jornal, Martin Baron. A exemplo do Times, o Globe pôs um e-mail à disposição de leitores que queiram apontar imprecisões nas reportagens de Blair.

Professores de jornalismo e especialistas em imprensa manifestaram ontem preocupação com a repercussão do escândalo. ?O caso de Blair é excepcionalmente perturbador?, disse ao Estado W. Joseph Campbell, professor da Escola de Comunicação da American University, em Washington. ?Nunca há um tempo propício para esse tipo de evento, mas esse caso ocorre num momento particularmente delicado para o jornalismo americano.?

Nos últimos cinco anos, vários jornais e revistas de nome e tradição enfrentaram sérias faltas éticas cometidas por seus repórteres, editores e colunistas. Em 1998, a revista The New Republic despediu uma de suas estrelas em ascensão, Stephen Glass, depois que constatar que dezenas de suas brilhantes matérias não passavam de ficção. No mesmo ano, os colunistas Michael Barnicle e Patricia Smith, do Boston Globe, foram forçados a pedir demissão por plagiar e criar situações e personagens. O caso mais famoso, até agora, era o da repórter Janet Cooke, do Post, que confessou ter inventado uma reportagem sobre um menino viciado em drogas depois que o trabalho foi escolhido para receber o prêmio Pulitzer de 1981.

Para Campbell, ?a severidade do caso de Blair excede? a dos demais porque ?aconteceu com o Times, paradigma do jornalismo americano?. Além disso, envolveu ?uma sucessão de matérias ao longo de vários meses e levanta questões sobre as maneiras usadas para se promover a diversidade racial nas redações?. A exemplo de Cooke e Smith, Blair é negro.”

“Um enorme olho roxo”, copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 13/05/03

“Quase todo mundo neste jornal está com o coração apertado pela forma como um jornalista do The New York Times traiu leitores e a todos nós com contínuas fraudes e plágios.

A equipe do The Times que está investigando as mentiras de Jayson Blair – que resultaram numa dolorosa capa e se espalharam por quatro páginas internas da edição de domingo – considerou suas falsas entrevistas e artigos adulterados ?um marco negativo nos 152 anos de história do jornal?. O diretor qualificou o caso de um ?enorme olho roxo?.

Como isso pôde acontecer no jornal com maior rigor editorial no mundo? Fomos plenamente advertidos: suas mais de 50 correções em menos de quatro anos como repórter, sua negativa em responder a perguntas sobre seus paradeiros, queixas dos colegas.

Parece que esse rapaz de 27 anos teve excesso de segundas chances por parte de editores dispostos a permitir que um ambicioso jornalista negro tivesse sucesso. À medida que ele foi assumindo tarefas de maior responsabilidade, alguns editores não passaram adiante avaliações de seus falhas passadas enquanto outros sentiram a necessidade de manter em segredo suas dúvidas.

Resultado: o falsário zombou de um sistema que celebra a diversidade e a oportunidade.

O diretor-executivo do The Times, Howell Raines, está disposto a acertar as contas com os leitores, permitindo que o ?terrível engano? seja penosamente esquadrinhado. Além de se opor ao acobertamento, ele designou um grupo da redação para criar formas de impedir outro fracasso nas comunicações entre nossos editores, a maioria deles especialistas em comunicação.

Qual é a reação em Washington, onde – agora sabemos – o repórter fraudulento veio a manchar a cobertura do The Times dos ataques dos franco-atiradores no ano passado? Os liberais daqui, que na semana passada tinham se divertido com a revelação de que o conservador Bill Bennett era viciado em jogos de altas apostas, ficaram deprimidos com esse constrangimento do jornal cuja linha editorial eles favorecem. Mas agora meus amigos da direita, de repente, estão engajados no seu próprio schadenfreude (a palavra alemã para ?o prazer culpado que alguém sente secretamente com o sofrimento dos outros?.) Primeiro veio a cultura da guerra. Alguns das minhas almas gêmeas ideológicas dizem: Vê? Lá está o prestigiado The New York Times, paradigma mundial da precisão, jornal de ótimos antecedentes, vencedor de mais prêmios Pulitzer do que qualquer outro – enganado durante por anos por um garoto astuto. Estava na hora de aqueles elitistas esnobes do Leste, que distorcem as notícias para se encaixarem nos seus preconceitos, ter sua justa punição.

Aí, vem o ângulo da política de oportunidades iguais para todos: veja o que acontece, dizem eles, quando você trata um empregado membro da minoria com luvas de pelica, promovendo-o quando devia ser despedido? Oh, sabemos que nossos editores insistem que ?diversidade? não teve nada a ver com isso. Mas lembre-se o que o senador Dale Bumpers disse sobre nosso impeachment de Clinton: ?Quando você ouve alguém dizer ?isto não tem a ver com sexo? – é sobre sexo.? Este caso é o do tiro pela culatra da defesa da diversidade.

Eis minha resposta aos seus Kulturkampf: durante exatamente 30 anos, tenho sido generosamente apoiado por discordar da página editorial do The Times, que tende para as pombas em assuntos de defesa, é esquerdista em economia e, com exceção da defesa das liberdades civis, resolutamente equivocada.

Nunca calaram minha voz, e os pensadores conservadores têm um espaço ainda mais amplo na página de Opinião.

Quanto à alegação de a linha editorial influenciar a cobertura noticiosa, eu evoco o nome de meu predecessor: isto é um Krock. Ocasionalmente, uma reportagem com enfoque esquerdista atravessa as linhas de defesa, mas com os conservadores aborrecendo no front interno e fulminando de fora, a tendência da notícia logo se endireita. O que se considera ?adequado para publicação? é a verdade a mais linear que pudermos contar, motivo pelo qual o pessoal do Times está tão furioso com essa transgressão vexatória.

Agora, em relação ao suposto custo da diversidade: um jornal é livre para assumir uma postura de dar a jornalistas negros uma oportunidade, se seus proprietários e editores assim quiserem. Mais ainda, este mundo da mídia também se beneficiará com a ascensão rápida de mais hispânicos e asiáticos.

Para os 375 jornalistas do Times que compõem a maior congregação de talento e empreendimento no campo de captar e escrever notícias, ofereço o seguinte conselho: o auto-exame é saudável, mas o auto-enlevo não é; a autocorreção vence, mas a autoflagelação é certamente uma atitude perdedora. Vamos pôr um metafórico bife cru e gelado sobre esse imenso olho roxo e aprender com seus exemplo consternador – de forma que outros jornalistas do país e do mundo possam continuar a aprender conosco.”

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