Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > FRAUDE NO NYT

Paulo Sotero

Por lgarcia em 20/05/2003 na edição 225

FRAUDE NO NYT

“Editor do NYT diz que não deixará cargo”, copyright O Estado de S. Paulo, 16/05/03

“Sob pesadas críticas de editores, redatores e repórteres irados com as falhas da direção da redação que permitiram que um jovem jornalista, Jayson Blair, comprometesse a reputação do The New York Times, publicando dezenas de matérias baseadas em informações falsas ou plagiadas, o editor-executivo do jornal, Howell Raines, disse que não renunciará ao cargo. O dono do jornal, Arthur Sulzberger Jr., lamentou o escândalo que manchou a credibilidade de seu jornal, mas afirmou que, se Raines pedisse demissão, ele não a aceitaria.

O diálogo entre os executivos do mais influente jornal americano e cerca de quinhentos subordinados ocorreu anteontem num cinema próximo à redação. De acordo com relato publicado ontem pelo Washington Post, Raines foi severamente recriminado por vários editores e repórteres presentes, alguns dos quais tomaram nota do que foi dito durante a tensa reunião. Alex Berenson, um repórter da seção de Negócios, perguntou ao editor-executivo se ele antevia quaisquer circunstâncias sob as quais renunciaria. O jornalista justificou a pergunta dizendo que a faria como repórter, se estivesse apurando uma matéria sobre falhas de qualquer companhia.

Dirigindo-se a Raines e ao chefe da redação, Gerald Boyd, Joe Sexton, chefe de reportagem da seção metropolitana do Times, expressou o sentimento frustração de seus colegas. ?Vocês perderam a confiança da maior parte da redação?, disse Sexton. Segundo o Post, Raines respondeu pedindo a Sexton para não fazer demagogia. ?Sinto que não tenha sua confiança e espero poder reconquistá-la?, respondeu. O editor reconheceu que repórteres o consideram arrogante e inacessível e prometeu trabalhar para melhorar o clima da redação.

Os poucos aplausos ouvidos durante a reunião foram reservados ao editor metropolitano do Times, Jonathan Landman, que em abril do ano passado mandou uma mensagem a um assistente de Boyd e ao chefe da administração do jornal aconselhando o desligamento de Blair. Raines lamentou que só soube do e-mail de Landman depois do caso mais recente de plágio, que levou à demissão do jornalista e à investigação interna do jornal.”

“Confiança é a palavra-chave”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 16/05/03

“Confiança. Essa foi a palavra mais ouvida pela redação do Comunique-se, que conversou com jornalistas de diversos veículos de Comunicação sobre as fraudes cometidas pelo repórter Jayson Blair no The New York Times. Elas motivaram debates sobre a questão não só nos Estados Unidos mas também no Brasil. Durante quatro anos de trabalho num dos mais conceituados jornais americanos, o jornalista cometeu plágios, inventou declarações e ocultou sua real localização quando, teoricamente, deixava a redação para apurar matérias.

Comunique-se quis saber se alguma vez aconteceu uma situação semelhante nos veículos para os quais ligou. Também perguntamos o que pode ser feito para tentar evitar um caso como este, que atingiu em cheio a credibilidade do The New York Times.

Leia as respostas:

Luciano Garrido – chefe de reportagem da CBN

?Aqui, na CBN, trabalhamos com a confiança no profissional. Confiamos em tudo que ele apura. Isso nunca aconteceu aqui e também nunca precisamos checar as informações dos repórteres?.

Marta Gleich – editora-chefe do Zero Hora

?Chegamos a conversar muito sobre esse caso aqui no jornal. Lemos as quatro páginas do The New York Times, que revelou as fraudes de Jayson Blair. Não me recordo de nenhum caso semelhante ter ocorrido aqui, durante os 20 anos que trabalho no Zero Hora. Achei incrível como ele viajava a serviço e o jornal não ter o mínimo controle de onde ele estava. No Brasil, isso não acontece, até mesmo por questões burocráticas. As empresas pedem notas fiscais.

Outra coisa que nos chamou atenção foi o fato de que alguns editores chegaram a se queixar dele quando o Blair ainda era um estagiário. Como um editor promove um profissional como este?

A avaliação dos profissionais que trabalham conosco tem que ser uma coisa diária. Ser jornalista exige que a pessoa tenha caráter e seja ético.

Deve haver uma relação de confiança entre o editor e sua equipe. Isso faz parte do clima da redação.

Uma das coisas que tentamos fazer para pelo menos ajudar é fazer do nosso processo de seleção algo diferente. Os estagiários entram no Zero Hora para trabalhar em outras funções, como no Arquivo. É um período de longa vivência com editores, que observam o estudante. Também fazemos provas de ética. Isso pode não garantir nada, mas pelo menos ajuda?.

Sérgio Xavier Filho – editor-chefe da Placar

?O jeito de se precaver é saber com que está trabalhando. Temos que contratar alguém de confiança. Se tivermos que trabalhar com alguém desconhecido, o jeito é passar tarefas pequenas, que não exijam tanta confiança. Tem que ser algo crescente e mesmo assim essas medidas nunca são infalíveis.

Aqui, procuramos não ficar 100% nas mãos do repórter. Deve haver algum sistema de checagem. É importante checar certas informações com mais de uma fonte, que não seja a do repórter que fez a matéria.

Na história do jornalismo, tanto mundial quanto nacional, este tipo de pessoa (Blair) acaba ganhando uma segunda chance. O ex-repórter do The New York Times pode acabar tendo uma oportunidade no concorrente.

Nunca passei por uma situação como esta, mas já vi coisas muito parecidas no mercado?.

Dagoberto Azzoni – subeditor de Esportes do Jornal da Tarde

?Assim como aconteceu no The New York Times, um repórter como Jayson Blair certamente receberia muitos salários nos jornais brasileiros antes de ser desmascarado. A não ser que fosse muito azarado. Porque não há, nas redações brasileiras – pelo menos nas muitas que freqüentei nesses 23 anos de profissão -, nenhum mecanismo de checagem das informações publicadas.

Na editoria de esportes do Jornal da Tarde, onde atualmente sou subeditor, a realidade não é diferente. O filtro que existe depende basicamente do conhecimento, da experiência e da sensibilidade dos editores e redatores.

Os problemas mais comuns são os ?chutes? (informações divulgadas sem certeza de sua veracidade, como forma de se proteger de um furo, e que normalmente são desmentidas no dia seguinte, como é comum no caso de transferência de jogadores de um clube para outro); as ?aspas? não identificadas; e as informações ?chupadas? da Internet sem nenhuma checagem ou confirmação por parte dos repórteres.

Aliás, essa é uma das grandes brigas da atualidade na busca da precisão das informações. A regra básica, aqui no Esporte do JT, é confirmar qualquer informação que seja obtida em sites. Mas é uma luta inglória, já que os repórteres, na maioria dos casos, tendem a buscar na rede mundial de computadores mais facilidades para suas tarefas diárias do que informações precisas para seus leitores?.

Carlos Lindemberg – diretor de redação do Hoje em Dia

?Até onde averigüei, no Hoje em Dia nunca aconteceu isso. Lembro de um caso de um repórter que fez uma matéria sobre erro médico. Ele acabou tirando uma informação de uma revista antiga de que um médico estava respondendo uma ação na Justiça. Mas, nesse meio tempo, o médico tinha sido absolvido. A informação já estava superada e ele não checou.

O nosso sistema de produção aqui é baseado na confiabilidade. Somos 70 pessoas na redação, com uma relação muito próxima umas com as outras. As matérias dos repórteres passam pelo subeditor, que vai editá-las. Ele faz uma supervisão. Se houver qualquer dúvida quanto a alguma informação, ele vai checá-la novamente. Para evitar histórias como essa, deve haver um filtro?.

Ramiro Alves – editor de Brasil da ISTOÉ

?Tem que haver uma relação de confiança. É impossível controlar o que o repórter escreve. A partir do momento que o repórter entra no jornal, ele tem que ter na cabeça a questão da ética.

O editor tem que mostrar que está atento, que observa sempre o trabalho de seus repórteres. Se você está tratando com gente do tipo do Jayson Blair, uma hora ou outra você percebe.

É por isso que eu sou a favor do diploma. A faculdade bota os estudantes em contato com profissionais que sempre tratam da questão da ética?.”

“NYT & FSP”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 13/05/03“Semana passada, uma investigação interna do The New York Times concluiu que um de seus repórteres cometeu diversas fraudes durante a cobertura de eventos jornalísticos nos últimos meses. Casos freqüentes de plágio e notícias fabricadas representaram uma profunda quebra de confiança e um ponto baixo na história de 152 anos do jornal. Jayson Blair, de 27 anos, enganou leitores e colegas com textos supostamente enviados de Maryland, Texas e outros Estados, quando estava a quilômetros de distância, em Nova York. Fabricou comentários de ?entrevistados?, inventou situações e roubou material de outros jornais e de agências de notícias. Pinçou detalhes de fotografias para passar a falsa impressão de que tinha estado em determinados lugares e visto certas pessoas. É o que nos dizem as agências internacionais.

Jayson trabalhou também para o The Boston Globe, que identificou ?um número limitado de textos com problemas? escritos pelo repórter. ?Vamos continuar a investigação e checar procedimentos internos de modo que esta infração à ética jornalística não ocorra no futuro?, disse o diretor do jornal, Martin Baron. Professores de jornalismo e especialistas em imprensa manifestaram ontem preocupação com a repercussão do escândalo. Para Joseph Campbell, professor da Escola de Comunicação da American University, em Washington, ?o caso de Blair é excepcionalmente perturbador?. O escândalo invadiu a primeira página dos jornais no mundo todo e Jayson Blair teve sua carreira destruída. No Brasil, poderia continuar enganando à vontade.

Guerra da Iugoslávia, nos dias de independência da Croácia. Eu trabalhava na editoria de Internacional, da Folha de São Paulo. Nosso correspondente responsável pelo Leste europeu mandava suas matérias de Berlim, que isso de cobrir guerras no front é muito arriscado. Por volta das três horas da tarde, começava a enviar seus despachos, a partir do noticiário dos jornais da manhã. Isto é, os jornais haviam sido redigidos ontem, os fatos ocorridos anteontem e o leitor brasileiro os leria amanhã, com pelo menos três dias de atraso. As agências noticiosas, mais ágeis, nos enviavam notícias fresquinhas.

A nós, redatores, cabia substituir o lead da reportagem por material mais quente. Lá pelas cinco da tarde, o despacho enviado caíra para o pé do texto. Quando o correspondente informava que os iugoslavos planejavam um ataque, nós já tínhamos os alvos destruídos e os aviões de volta às bases. A cobertura da guerra, em verdade, era feita da redação na alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Que, de certa forma, estava mais próxima dos fatos que o correspondente na Alemanha. Muitas vezes não sobrava sequer uma linha do despacho original. O texto todo era redigido na redação. Mas a matéria saía assinada por Fernando Gabeira, ?enviado especial?. Que deveria sentir-se muito surpreso se lesse sua matéria publicada, falando de fatos dos quais ele, o suposto autor do texto, nunca ouvira falar.

Como era feita esta cobertura? O redator recebia um punhado de despachos, que iam sendo renovados a toda hora pelo boy que os retirava do telex. (Eram ainda os dias do telex). Havia matérias quentes das agências, que tinham seus correspondentes no campo de batalha, reportagens frias que davam o clima local, análises de especialistas e informes sobre a repercussão dos fatos nas diferentes capitais do mundo. Cabia ao redator juntar todos esses relatos e criar uma história coerente. Fossem os textos assinados ou não, os fragmentos aproveitados pelo redator eram todos atribuídos ao ?correspondente de guerra?, comodamente instalado em Berlim. Por vezes, a matéria toda ou parte dela era atribuída aos redatores. Neste caso, era assinada como ?da redação com agências internacionais?. Ora, da redação não havia nada, senão a montagem do texto final. O trabalho de correspondentes estrangeiros e articulistas de outros jornais era apropriado, sem cerimônia alguma, pelo editor da Barão de Limeira.

Por vezes, o correspondente assumia essa característica que, até agora, só a Deus foi conferida: a onipresença. O redator ia costurando os comunicados sobre a repercussão nas capitais de cada país e os inseria no corpo da notícia. O efeito era no mínimo curioso: o correspondente estava não só no campo de batalha mas, ao mesmo tempo, em Washington, Paris, Londres e Moscou.

Em dezembro de 91, o jornal tinha mais uma correspondente em Berlim. Lá pelas tantas, ela envia um relato excitado do bombardeio de Dubrovnik pela marinha croata. As bombas caíram em minhas mãos. Telefonei para Berlim e pedi à moça para checar melhor os dados. A Croácia não dispunha de frota, nem teria razões para bombardear sua cidade mais linda.

?Mas eu estou vendo aqui na minha frente, com meus olhos, na televisão, a marinha croata bombardeando o litoral?. Pedi que conferisse melhor os dados, ainda faltava uma hora para o fechamento do caderno. Vinte minutos depois, recebo uma chamada encabulada. ?É, de fato, é a marinha iugoslava?. Os olhos da brava correspondente de guerra se enganavam. Esta mesma moça, que coincidentemente era professora de literatura, fez certa vez a cobertura de um encontro de estadistas em Den Haag. Após enviar sua matéria, pediu por telefone: ?Vocês me traduzam, por favor, Den Haag, que eu não sei como é em português. A professora de literatura desconhecia o nome português da cidade holandesa que dera o indefectível aposto explicativo a Rui Barbosa, o Águia de Haia.

Segundo as agências, a investigação em curso mostrou que Blair violou repetidamente o dogma básico do jornalismo, que é simplesmente a verdade. Este tipo de fraude não é novo na imprensa americana. O caso mais famoso, até agora, era o da repórter Janet Cooke, do Washington Post, que criou um personagem fictício, um menino viciado em drogas. Seu trabalho foi escolhido para receber o prêmio Pulitzer de 1981.

Quando recebi, pela primeira vez, a incumbência de reformular o texto do correspondente, ingênuo, objetei: ?mas isso é um artigo assinado?. ?Aqui não tem disso. Vai cortando pelo lead? – respondeu o editor. Fui cortando, era pago para isso. Boa parte da cobertura da guerra na Iugoslávia foi feita por mim e por meus colegas, na redação da Barão de Limeira. Jayson Blair foi demitido e está morto para o jornalismo. Sua fraude coloca em cheque a nata do jornalismo americano. Fernando Gabeira voltou de Berlim com todas as glórias de correspondente de guerra e foi eleito deputado. Para quem não conhece uma redação por dentro, passou a imagem de um heróico profissional que enfrentou o inferno dos Balcãs para bem informar o leitor. O New York Times se desmancha em desculpas ao leitor, tentando salvar a credibilidade abalada. Na Barão de Limeira, abalo algum. A guerra na Iugoslávia já vai longe e leitor algum percebeu o embuste.”

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