Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > IMPRENSA & GEORGE W. BUSH

Pauta de irrelevâncias

Por lgarcia em 07/02/2001 na edição 107

IMPRENSA & GEORGE W. BUSH

Arnaldo Dines, de Nova York

Como um bêbado de ressaca após uma noite de excessos, a imprensa americana passou por um período de desconforto após o vexame da cobertura da eleição presidencial. Sua primeira reação foi ajoelhar e penitenciar-se no confessionário público com uma sucessão de admissões de culpa. Mas, diante da falta de compreensão, optou pela autopunição – ou auto-absolvição, dependendo do ponto de vista – por meio da divulgação de estudos críticos encomendados aos meios acadêmicos.

Mas a memória é curta e, com o fim da ressaca, o alcoólatra volta sedento à bebida, seduzido pela doce perspectiva da embriaguez. Da mesma maneira, a imprensa americana retomou os velhos vícios: o sensacionalismo da banalidade em vez da sensatez da análise.

Após pouco mais de duas semanas de governo, o presidente George W. Bush passou de vilão a mocinho. Não mais importa a constitucionalidade do resultado da eleição, mas sim a superficialidade de sua atuação. Seja em elogios desvairados ao processo de transição ou ao profissionalismo da nova administração, a imprensa americana se perde na análise formal e exterior do formato enquanto negligencia a discussão conceitual e moral.

Em contraste com os comentários críticos à anarquia na Casa Branca durante a época do reinado de Clinton, temos agora um rodízio de matérias de importância discutível sobre irrelevâncias – como a pontualidade de Bush, por exemplo. Enquanto as primeiras páginas dos jornais se esbaldam em manchetes sobre a última onda de escândalos de Clinton – da possível compra de perdões presidenciais à devolução de presentes públicos –, as páginas editoriais discutem a cordialidade do novo presidente e o seu adorável jeitão de dar apelidos carinhosos aos que trabalham à sua volta, inclusive jornalistas.

Perante esta lua-de-mel platônica, a ameaça de um ataque frontal contra a separação da religião e Estado, assim como o envenenamento sistemático das leis de proteção ao meio ambiente, ambos facilitados pela escolha de um gabinete organicamente reacionário, tornaram-se um fator secundário nos noticiários americanos. A nomeação de John Ashcroft para a chefia do Departamento de Justiça e de Gale Norton, para o Departamento do Interior, foram acompanhadas pela mídia com destaque, mas também com uma dose de resignação e inevitabilidade incompatíveis com o papel questionador da imprensa no processo democrático. Ambos são representantes de uma minoria radical com objetivos claramente delineados: John Ashcroft como ponta-de-lança na luta evangélica contra o direito constitucional de aborto, e Gale Norton como instrumento da violação de reservas naturais do país para a exploração de petróleo e gás.

Excludente e conservador

Para um presidente que prometeu um governo de conciliação após uma eleição que dividiu a nação, a cumplicidade da mídia com essa tentativa de reescrever não só o passado como também o presente deixaria até George Orwell perplexo.

Por outro lado, a imprensa americana insiste em pintar um quadro de auto-flagelação perante seus próprios pecados. Prova disso é a aparição de mais dois relatórios, um da CNN criticando a atuação da(s) rede(s) de televisão na noite da eleição, e outro do Voter News Service (um consórcio formado pela Assossiated Press, ABC, CBS, NBC, Fox e CNN) criticando seus métodos de apuração e a metodologia de suas previsões.

Apesar de a autocrítica ser um fator construtivo para evitar a repetição do vexame eleitoral, esses estudos se vestem de um manto de importância desmerecido. O que aconteceu na noite de eleição foi, como diria Shakespeare, much ado about nothing. A dependência em pesquisas eleitorais conduzidas por uma única organização, o Voter News Service, homogeneizou a cobertura, e conseqüentemente propagou a velocidade na divulgação dos resultados como fator diferencial de cada rede. Mas se a seqüência de erros na previsão do vencedor dos votos da Flórida foi humilhante para as redes de notícias, não se constituiu em fator decisivo para o resultado final da eleição.

O verdadeiro debate jornalístico nos Estados Unidos deveria se concentrar na cobrança de uma agenda pró-inclusão social de um governo que, por sua natureza, é essencialmente excludente e conservador. Mais importante do que penitência ou absolvição pelo fracasso das pesquisas e da cobertura eleitoral, cabe agora à imprensa manter a vigilância sobre um presidente cujo mandato continua moralmente contestado, até que a escolha dos eleitores seja legitimada nas eleições presidenciais em 2004. Cabe ao "quarto poder" tomar um analgésico para a ressaca que ainda ressoa nas redações e acordar para as suas responsabilidades perante as dores de cabeça de uma democracia visivelmente abalada.

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